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A ciência, as classes e o processo desigual e combinado da História
15 de abril de 1967 Ciência Edições Anteriores
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Apresentação

Estes textos que publicamos sobre a ciência são úteis para intervir na discussão sobre as recentes conquistas científicas no campo do genoma humano, da biogenética, do uso de produtos agrícolas transgênicos, clonações no campo pecuário e mais recentemente o seu possível uso com seres humanos.

O pensamento científico nada deve temer, e a oposição tenaz de amplas camadas de intelectuais e da própria opinião pública, e de muitos movimentos sociais à introdução indiscriminada destas inovações, ou mesmo a luta pelo seu controle social, corresponde à justa reação contra o mau uso do conhecimento científico, o perverso emprego das conquistas para a reprodução do lucro e da acumulação capitalista, que não conhece limites, ética nem escrúpulo.

O recente conflito da África do Sul com as multinacionais dos medicamentos pela solução do problema da SIDA mostra claramente que qualquer desenvolvimento científico sem o controle social leva a aberrações e distorções, sendo mínimo o benefício para a humanidade, mesmo no campo convencional dos medicamentos, e com mais razão nas esferas mais altas do conhecimento científico que já permitem avanços incríveis e a solução de enfermidades para as quais jamais se pensou de encontrar solução, como por exemplo com o emprego de órgãos clonados e tecidos cultivados. Onde a ciência se volta para a população? Onde intervêm os Estados, os governos, ou alguma forma de controle popular, mesmo limitadamente, como no caso do uso de medicamentos genéricos no Brasil, já que a propriedade privada e as multinacionais tem pouco interesse em que as amplas massas tenham acesso à saúde e ao conhecimento, e assim em todos os ramos da ciência.

Para ajudar nestas reflexões, publicamos estes extratos dos textos de J.Posadas.

A redação

Quem mais se aproxima do marxismo é a ciência. Por sua natureza objetiva, é ela quem mais se aproxima do materialismo dialético. O limite da ciência está no fato de que ela não é independente dos interesses sociais. Por uma necessidade objetiva, e também para utilizá-la, a ciência precisa conhecer a verdade.

Entretanto, como a verdade é utilizada por uma classe, termina sendo limitada, não podendo expressar-se de forma integral, completa. Por isso, no capitalismo, a ciência é burguesa. Não porque é um burguês quem vai fazendo as descobertas, quem vai utilizando, mas porque a ciência termina servindo à burguesia. E o cientista, que objetivamente é estimulado a servir à humanidade, fica sem possibilidade de exercer esta função. Por exemplo, o cientista que descobriu o câncer, ou outra doença qualquer, é lógico que este indivíduo está estimulado pela necessidade humana de progresso, e é por esta razão que a ciência existe. Ela não existe porque determinados indivíduos são patrocinados pelo capitalismo para pesquisarem.

Em suas origens, a ciência é prática, tem um interesse prático, só posteriormente ela se transforma em capacidade de previsão. Mas inicialmente a ciência é pressionada pela necessidade de responder ao momento, só mais tarde, uma vez organizada, é que passa a prever, e isto se torna mais importante do que descobrir o que aparece diante dos olhos.

Os cientistas no regime de propriedade privada

O cientista, que é estimulado a servir a humanidade, não pode faze-lo porque está sujeito ao interesse de classe, está a serviço de uma classe, utilizado por uma classe. Por isso a ciência se torna limitada, e passa a ser a ciência também está submetida às classes. E que as descobertas também obedecem a um interesse de classe, porque sirvam às classes, ao capitalismo, à burguesia.

Em sua consciência, a humanidade já se libertou da dependência da natureza, mesmo sem ter conquistado isso em termos materiais. Muitos problemas foram criados pelo desenvolvimento da sociedade organizada, através de diversas fases, dentro do processo de extrair da natureza a matéria-prima e transformá-la, e também no desenvolvimento das relações criadas pela sociedade de classes, baseada em interesses privados. Esses problemas não eram econômicos, mas derivados das relações sociais, e se dão no campo do sentimento e da consciência.

Mas, por sua vez, antes desses problemas existirem, já se colocavam outros, aqueles de como interpretar, como sentir, como pensar. Em sua primeira etapa eles se desenvolviam no campo de com extrair as riquezas da natureza e transforma-las, mas depois se desenvolvem no sentido de como abarcar as relações humanas e estabelecer princípios aplicados às relações humanas, às relações com a natureza. Mas como essa necessidade de integração se realizava baseada na sociedade de classes, a compreensão e o progresso tinham que ser necessariamente de forma muito limitada. Apesar disso, uma vez obrigados a desenvolver a natureza e a sociedade, os seres humanos estavam obrigados a progredir na relação da consciência com a sociedade e a natureza.

A ciência progrediu mais que a economia

Sendo a ciência a representação mais elevada da natureza e da sociedade, a consciência humana foi progredindo muito mais que a sociedade e a economia; infinitamente mais que a relação com a natureza e que a capacidade social para extrair riquezas da natureza. Nessa etapa o instrumento mais poderoso para extrair riquezas da natureza foi a busca de como desenvolver a capacidade para compreender os princípios. Esse foi o incentivo e a motivação: compreender os princípios de como se desenvolviam as leis da natureza. Isso elevou então a capacidade humana de pensar, de sentir, de compreender, e nesse processo de elevação os seres humanos foram se sentindo independentes da natureza. Vendo que eram mais capazes que a natureza, superiores.

A ciência e a limitação de classe

Mas os seres humanos iam sendo obrigados a ter sua capacidade restringida, porque não podiam pensar objetivamente. Tinham que pensar parcialmente porque a concepção que se desenvolvia era a de extrair riquezas da natureza em benefício de um grupo contra outro. Tinham que pensar em como desenvolver determinadas conquistas sociais, mas ao mesmo tempo em como impedir que outros a tomassem para si.

O pensamento, os alcances da compreensão, dessa forma, não eram elaborados de forma completa, iam sendo limitados. E não apenas porque a capacidade humana ainda não tinha se desenvolvido, mas porque as condições sociais que existiam limitavam essa capacidade. Que eram as condições determinadas pela propriedade privada, pelo interesse privado. O interesse que havia não era o de desenvolver uma compreensão que beneficiasse a todos, mas a um setor, que por sua vez, defendia-se dos demais. Tratava-se da sociedade de classe. Isso então limitava a capacidade cientifica e histórica. E se dava um processo, onde, ao mesmo tempo em que, por necessidade orgânica, a classe dominante necessitava utilizar toda a sociedade, não podia, por outro lado, recorrer a toda sociedade, porque se o fizesse livremente, ela (a classe dominante) é que seria eliminada.

A classe dominante recorria apenas a uma parte da sociedade, submetendo-se ao mesmo tempo. E não podia chegar a compreender ou a sentir outra coisa que não fossem as opiniões que estivessem estritamente a seu serviço, dentro dos seus propósitos, do seu interesse de classe. E essas opiniões, sentimentos, interpretação da história, da sociedade, da terra e do céu, estão determinados por essa limitação histórica. Não apenas pela falta de conhecimentos científicos, mas pelo fato de que a limitação de classe impedia que os seres humanos progredissem objetivamente no conhecimento científico pleno. Existia uma limitação social. Porque se bem que com Marx se abre uma nova etapa na história, ela não pode ser alcançada até a época de Marx, por que o desenvolvimento objetivo da estrutura social, das relações sociais, impediam um alcance maior. Mas ao mesmo tempo em que havia um impedimento no sentido de um alcance maior, esse mesmo processo obrigava a classe dominante a tratar de elaborar um instrumento (NT – a ciência) que lhe permitisse extrair da natureza mais e mais riquezas e também procurar compreender as relações sociais. Que por sua vez criavam um fenômeno novo: os conflitos sociais, os conflitos entre as relações econômicas e as relações afetivas, os sentimentos, a consciência. A classe dominante não podia compreender que existia uma unidade entre tudo isto. E não podia compreendê-lo, por várias razões: pelo interesse de classe, pela insuficiência de conhecimentos e por que não existia a possibilidade de aumentar o conhecimento por causa do interesse de classe (…)

O Homem organiza a sociedade e a natureza

Quando surgem a botânica, as ciências naturais, que eram como se chamavam as primeiras formas organizadas de toda a ciência, ainda se tratava de uma dependência do indivíduo diante do poderio da natureza. Marx se baseou no desenvolvimento desigual e combinado da ciência, que era capaz de descobrir, por exemplo, o desenvolvimento de determinados gérmens, plantas, a possibilidade de enxertos, transformações, explicações sobre a chuva, as estrelas, o sol, a dependência da terra em relação ao sol, ao sistema planetário, a mecânica de Newton, as descobertas diretamente vinculadas à prática comercial, como a máquina a vapor, o trem, o telefone e um série de descobertas que evidenciam o domínio do ser humano organizando a sociedade e a natureza.

Os saltos mais avançados foram dados pela consciência

Mas, ao mesmo tempo em que eram feitas essas descobertas parciais, o sistema de exploração social impedia que elas fossem utilizadas em benefício de toda a população. E enquanto num ou noutro campo da vida e da natureza, eram feitos grandes descobrimentos, em outros havia um completo desconhecimento. Não se tratava de um processo de descobertas que se desenvolvia num ascenso lógico, que fosse estendendo, abarcando todas as atividades humanidade, da natureza. Mas progressos em aspectos muito parciais, e cuja repercussão e utilização social era muito limitada, porque a finalidade era comercial.

Faltava o elemento que generalizasse a sua utilização em benefício de toda a sociedade. Era um desenvolvimento que se dava, portanto, de forma desigual e combinada. E o aspecto desigual do desenvolvimento era o de que as descobertas eram impostas pela necessidade comercial, ou seja, ao serem utilizados comercialmente, o benefício era muito parcial. Isso era combinado, ao mesmo tempo, com um atraso imenso que impedia que a sociedade se apoiasse nos progressos alcançados para avançar dialeticamente em saltos. Naquela etapa, por exemplo, a humanidade ainda não podia avançar através de saltos pronunciados como hoje. Ainda que a humanidade sempre avançou através de saltos porque todos os grandes progressos são saltos da história. Mas saltos muito limitados, de efeitos, benefícios e alcances muito limitados.

Os saltos mais avançados da humanidade foram dados através da consciência humana, num processo em que milhões de seres humanos se mobilizam. Esses são os saltos mais gigantescos: de massas que partem de um atraso social e econômico tribal muito grande e vão da tribo ao poder, à discussão dos problemas mais elevados da ciência. Esses são os saltos dialéticos mais completos, nos quais o caráter desigual e combinado de desenvolvimento passa a ser determinado pelo aspecto combinado e não pelo desigual, porque o progresso passa a ser utilizado generalizadamente em benefício, diretamente passa a se generalizar ao resto da humanidade, que parte do nível mais elevado.

A dialética da vida

A concepção materialista da vida progrediu constantemente. Através de uma necessidade imposta pela ciência, pelo interesse comercial, militar e do desenvolvimento do domínio da natureza. Esse progresso se deu limitadamente, porque não conseguia ser socialmente utilizado no sentido de libertar a sociedade da opressão e da dependência da natureza. Mas ainda que não tenha conseguido alcançar esse objetivo, avançou constantemente, mostrando que o mundo, a natureza, a sociedade se desenvolviam dentro de um processo ininterrupto de nascimento, desenvolvimento, transformação, e que este processo vinha da natureza e da sociedade, que tinham fases. Sendo que a duração das fases não estava determinada estritamente por ciclos fixos, mas pelas forças que intervinham pela possibilidade, concentração e capacidade das forças que intervinham, tanto na natureza como na sociedade.

J. Posadas

Abril 1967

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