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A propósito da entrevista da presidenta Dilma Rousseff
30 de junho de 2017 Batalha de Ideias
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Foto: Roberto Parizotti/CUT

Entrevista exclusiva: Dilma Rousseff sem censura, ou quase

Do Página 13

http://jornalggn.com.br/noticia/%E2%80%9Cfomos-ingenuos-em-relacao-aos-meios-de-comunicacao-afirma-dilma-rousseff

Nosso ponto de vista 

a propósito da entrevista da presidenta Dilma Rousseff concedida a Marcos Piccin e Valter Pomar, da EP (Esquerda Petista), em 13 de fevereiro no seu apartamento em Porto Alegre. “Fomos ingênuos em relação aos meios de comunicação”, afirma Dilma Rousseff. Publicada no GGN, o Jornal de todos os BrasisÉ obrigatório ler com a atenção a entrevista à Dilma, porque aborda coisas com uma profundidade teórica que à luz da experiência de dirigir uma Nação não é banal. E fala um pouco da trajetória da esquerda, do ponto de vista analítico, procurando ver a realidade dos fatos sem uma subordinação dogmática à teoria.

Há vários pontos da entrevista que merecem uma reflexão e debate. Vamos destacar dois deles, talvez os mais importantes: 

Eu não percebi  qual era o nível de aversão deles [a burguesia] a pagar qualquer parte da crise. E nunca percebi que eles achavam correto arrebentar o Estado em relação a qualquer política de conteúdo nacional mínima. Achei que eles tinham interesse efetivo num projeto nacional de desenvolvimento, usar política de conteúdo nacional, recuperar a cadeia de petróleo e gás, criar a cadeia de fármacos — que se interessariam por isso” (Dilma)

Os entrevistadores lembram a velha discussão com o PC sobre a "etapa democrático-burguesa" ou a hipótese de que algum dia a burguesia brasileira apoiaria um projeto nacional-desenvolvimentista. Ou o nosso encontro com Prestes, em que ele, numa autocrítica tardia, mas existente na própria Urss de então e entre alguns Partidos Comunistas (do Uruguai, do Chile, e no velho Gregório Bezerra), de que não haveria, jamais, uma "etapa democrático-burguesa" na América Latina, e que na realidade não haveria jamais em lugar algum. E reconhecia, com uma humildade de importância histórica, a essência da teoria da revolução permanente, a estas alturas, já não uma "teoria", mas fatos concretos, reais, duros: somente o socialismo poderia dar completude à industrialização, à reforma agrária, tarefas típicas da clássica evolução ente feudalismo e capitalismo. Conceito e debate que ressurge depois na forma dos "Estados Revolucionários" de Posadas, já que, dado o fato que a burguesia jamais faria a "sua" revolução, mesmo que em caráter anticolonial, somente o socialismo ou o percurso na sua direção poderiam "completar a tarefa", ultrapassando os limites da burguesia e do capitalismo.  (Sugestão de leitura: “O Estado Revolucionário e a transição ao socialismo”,  de J. Posadas, publicado pela Edição Ciência Cultura e Política).

Dezenas foram as experiências do nacionalismo revolucionário que apontaram nessa direção, a partir do próprio peronismo e em grande medida do varguismo, ainda que precoces. Mas tivemos toda a descolonização da África, entre elas as experiências da Etiópia, de Angola, Moçambique, Namíbia, que apontavam para sair "do colonialismo ao socialismo", atropelando a etapa democrático-burguesa, entre outras tantas, na Ásia, na América Latina. Todas elas encalharam na fase capitalista. A meta do socialismo ficou abandonada. Costumamos explicar isso com a tragédia da queda da URSS, que abortou o possível percurso ao socialismo contávamos com a URSS para a manutenção de estruturas estatais e governos progressistas, dando fôlego à passagem do nacionalismo ao Estado Operário, mesmo com o burocratismo e falta de compreensão dos Partidos Comunistas, principalmente dos ocidentais. 

Mas eis que, além da queda da URSS, que deixou os países desarticulados e desamparados desse ponto de vista evolutivo, entramos na era da financeirização da economia globalizada numa escala jamais vista. Dois processos perversos, que desviaram países como Angola ou Moçambique de qualquer veleidade de "socialismo", assentando as bases para camarilhas locais burguesas ou pré-burguesas, parasitárias, cobertas com um manto de "progressismo" e "não-alinhamento", mas na prática totalmente submetidas à nova ordem neoliberal pós-URSS. 

Uma nota dissonante nisso, também um fenômeno novo, num patamar mais alto, foi a Venezuela a partir de Chávez, que inicia uma reversão à esquerda, uma retomada do ideário socialista, a partir justamente da construção de um país totalmente dependente do petróleo, realizando as tarefas "democrático-burguesas" da industrialização e reforma agrária, para poder começar a pensar numa perspectiva além desta, que Chávez teve a coragem de encarnar, colocando o objetivo socialista de modo explícito quando o mundo parecia olhar para o outro lado. E com isso deu o tom do que foi a América Latina em todo este período histórico, em distintos graus e profundidade.

Até então, essa discussão "do nacionalismo ao Estado Operário" parecia uma discussão encerrada, morta. Eis que ressurge, com o advento do governo do PT e a onda de governos progressistas, na forma moderna, numa "crença" de que essa burguesia iria de alguma forma renunciar à financeirização. A Dilma chega a acenar, com as construtoras, os projetos de infraestrutura, essa possibilidade. Nós mesmos vimos nisso um elemento positivo, possível, essa aliança entre a Odebrecht e as outras construtoras, e um governo de esquerda que integrava a América Latina, fazia estradas com o Peru, o porto de Mariel em Cuba, as hidrelétricas no Equador, o metrô em Caracas, os projetos militares e a integração. Mesmo pagando o "pedágio" aos seus Capitães e administradores. Mas eis que essa mesma burguesia empreendedora – cuja propina e a corrupção eram muito inferiores aos benefícios produzidos pelas obras de infraestrutura nesse pacto pragmático - frente à primeira dificuldade capitula, abandona o barco, esconjura os governos progressistas que os beneficiavam, e cai fora do barco da "burguesia revolucionária" demonstrando não estar à altura sequer dos seus antepassados de 1789. Covarde, vil, submissa, faz delações de conveniência para voltar ao leito tranquilo da especulação financeira, renunciando a qualquer atividade produtiva ou industrial importante. Vejam o caso da JBS que dentro de pouco não vai produzir mais um boi sequer,  que há muito deixou de ser sua atividade principal. E é inútil, aqui, culpar ao imperialismo. É claro e lógico que ele estava e está presente em todo este processo e tem seus agentes e estratégias. Dilma o menciona claramente quando fala da máquina de espionagem, do Snowden, de tudo do que ela mesma foi vítima. Mas não é o ponto principal. O Brasil teria tido, pelo menos em vias teóricas, todas as condições para impor-se no cenário internacional, ou para dizer mais cruamente; a burguesia brasileira poderia ter postulado um posto mais alto, se afirmado.Afinal, o trabalho pesado havia sido feito pelos governos Lula/Dilma: liquidação da dívida externa, acumulação de divisas, independência comercial, aliança com os Brics, integração na América Latina, retomada dos projetos militares, infraestrutura potente, recursos infindáveis, a revolução do etanol, um mercado interno com enorme potencial de crescimento, etc. Violência, atraso social, falta de investimentos em educação eram os pés de barro deste gigante, mas superáveis com investimentos de uma pequena parte do PIB ou do petróleo, como tentou Lula com pré-sal. Mas não, esta burguesia preferiu o atalho da capitulação, desnecessária, suicida, fora de época, incompreensível. Como pode ser que uma burguesia tão potente capitule frente a um juizeco de merda encomendado pelo imperialismo e por grupos de extrema-direita antinacionais?

Essa é, no fundo, a pergunta que Dilma faz. E explica pela financeirização, que já calou profundo nas estruturas do nosso país. O parasitismo financeiro sempre existiu e sempre foi o poder real, depois da breve passagem da república do café-com-leite à industrialização getulista, chegando à distorcida avançada industrial juscelinista, ancorada na dependência. A outra "oportunidade perdida" da Nação como tal foi o período militar, no que se refere  a alguns projetos estratégicos, mas terminou sendo destruída na era da privataria tucana. Nesses vais e vens, eis que a financeirização vai arrombando as portas, e encontra nicho seguro no sistema do roubo institucionalizado dos juros da dívida pública que reina soberano desde a Constituição de 88. Veio para ficar. Festejou nas eras Collor e FHC. Deitou e rolou no Plano Real. Adaptou-se à era Lula, condicionou tudo nos bastidores – perder alguns anéis para não perder os dedos – e retoma o seu pleno poder no Golpe temerista, mais que temerista, meirelista. Hoje isso está claro para Dilma. Ela que viu tudo por dentro. É muito forte dizer que "achavam correto arrebentar o Estado em relação a qualquer política de conteúdo nacional mínima". 

Não é culpa da Dilma. Não é culpa do Lula. Pelo menos, ela teoriza, com certa metodologia marxista, sobre o que aconteceu. Mas também peca (pecou) por ingenuidade. Se Lula tivesse ido ao governo em 2014, teria sofrido o mesmo tipo de perseguição e com riscos a ser destituído da mesma maneira. Talvez Lula aplicaria muito da sua sabedoria tática e maior autoridade social, mas não se pode fechar aos olhos sobre o que significou a "era Eduardo Cunha" e seu bloco de gangsters, a maioria deste Congresso, como reflexo dessa financeirização, deste novo poder que surgia no seio da Nação, e que hoje dita as regras, atropelando tudo como jamais assistimos, sequer à época da ditadura, ou mesmo da famigerada era FHC. Nem este personagem sinistro teve coragem para propor que estes mutantes atuais estão propondo. Pode parecer que aqui se justifica a ingenuidade da Dilma, mas "ingenuidade" é uma tragédia para o PT desde o começo, com a mídia, com as alianças, com a simbiose com os vícios do poder, e que é plenamente reconhecida na frase da Dilma quando diz que nunca "percebeu" ".... que eles achavam correto arrebentar o Estado... " Arrebentar o Estado! Assaltar o poder diretamente! Destruir as instituições da própria burguesia, o judiciário, o legislativo, o executivo, hoje transformados em antro de gangsters e assassinos, sedentos de sangue. Para não falar da mídia, outra "ingenuidade" colossal. Mas ela compartilha isso com Lula, diz que ele talvez tampouco tivesse condições de ter imposto uma "Lei de Meios" como a da Argentina, lembrando a verdadeira guerra que custou não somente aos Kirchner, mas também ao próprio Chávez impor alguma (e parcial) regulamentação deste monstro. 

Ou seja, a ilusão de um desenvolvimentismo – mesmo aquele do Mantega, que ela agora critica, ou se autocritica, à base de subsídios e detrações fiscais – está definitivamente sepultada na Nação. O Lula percebeu isso antes, quando viu que eram insustentáveis, bilhões de reais jogados nos caixas das empresas não produziando resultados, e terminado na vala comum da especulação financeira, não no setor produtivo.  As elites escolheram o lado da recolonização subalterna. O Wesley Batista é um símbolo, está nos Estados Unidos cuidando de seus negócios. A simbiose com o capitalismo yankee e internacional é total. Adeus Brasil! Assim vai ser a revoada dos Odebrecht, dos OAS, dos Eike Batista, de todos eles, passada a febre das punições confortáveis em mansões de luxo. O saudoso José de Alencar se revolta na tumba. Foi o último dos moicanos, no qual o PT investiu e acreditou. Não temos mais "capitães da indústria". O pato da FIESP desinflou para sempre. Terminaram de enterrar Getúlio Vargas. Quando será o próximo golpe? A Petrobrás? O Banco do Brasil? O desmanche do BNDES já começou. 

Como se não bastasse o exemplo da Venezuela, em que o chavismo deu tantas oportunidades para criar um capitalismo nacional, um desenvolvimentismo subsidiado pela renda do petróleo, num território enorme e riquíssimo, criou um mercado interno gigantesco, investiu em saúde e educação, enfim, deu de bandeja a oportunidade para o surgimento de uma nova burguesia produtivista, que tinha tudo a ganhar, poderia ter lucrado – como lucrou – enormemente com uma Venezuela-Nação, muito mais que com uma Venezuela-Colônia ianque, preferiu jogar-se de corpo e alma na conspiração imperialista, e se prepara para a guerra civil e provável, possível e previsível intervencionismo militar (porque está ficando evidente que a guerra de desgaste, as teorias do Gene Sharp de "revolução colorida" aliencontraram um osso duro nas milícias populares e no exército politizado, e não vão funcionar). Então, o que farão será aplicar a "fórmula Síria" com armas pesadas, divisionismo e ódio entre classes sociais e intervenção direta. Se não entrar a Rússia, preventivamente, a revolução bolivariana da Venezuela corre sérios riscos. 

Entretanto, constatar isso não basta. Aumenta sim, a responsabilidade de quem socialista se considera. Pois não haverá mais o "caminho das flores". Esqueçam 2018. Não haverá um "Lula paz e amor". Haverá guerra. Realizem-se ou não eleições, vença ou não o Lula, não haverá um processo democrático normal, e uma reconstrução da aliança quase-impossível que possibilitou a era Lula. Se uma era de progresso ressurgir, e isso é válido para o Brasil, mas também para a Argentina, ela terá que ser imposta por outros protagonistas, em condições muito mais duras e difíceis. Mas aí entramos no outro tema abordado pela Dilma, que é a questão das classes sociais, que foi motivo de discussão com os protagonistas da própria entrevista: o conceito de "classe trabalhadora" x "classe média". Não cabe aqui, mas é um ponto fundamental, e tem tudo a ver conosco, com todos os comunistas ou socialistas, posadistas do mundo afora: quem vai ser o SUJEITO DA TRANSFORMAÇÃO? O que é a "classe trabalhadora"? Quem é? Quem é ou o que é esta "classe média"? Estes "trabalhadores difusos" ou terceirizados, o setor de serviços, vai ser agente transformador? Ou será agente do aburguesamento, do individualismo, do desastre fascista atomizante e egoísta? Dilma não foge do debate. Recorre a Marx, a Lukacs, e revela também os seu passado maoísta. 

Mas vamos que vamos, temos que discutir, porque quando ela fala que a burguesia que hoje domina o panorama mundial aponta para a financeirização selvagem, e é hostil ao pagamento de impostos, portanto a qualquer ideia de Estado civilizado, e além disso não tem corpo, não tem estrutura de uma classe com a qual possamos ter uma interlocução (parênteses: observem com cuidado quando fala o Meirelles, sobre a destruição das aposentadorias e dos direitos trabalhistas, sua expressão é de um androide, um ser sem alma, qualquer sensibilidade humana: é um símbolo), não temos mais o "cara de bolacha", o bonachão do José de Alencar, acabou, morreu, temos gente como os bonecos e autômatas do partido do Berlusconi da Itália, verdadeiros drones, "exterminadores do futuro", os mesmos que provocaram o banho de sangue na Síria, no Iraque, sem piscar um olho, derramar uma lágrima. Quem tiver dúvida, que reveja as imagens da votação pelo impeachment da Dilma na Câmara. A "discussão" com a burguesia hoje se faz nos mecanismos especulativos das bolsas de valores, nas compras e vendas de ações e do domínio de sociedades decididas lá fora ou no ciberespaço; lembremo-nos que tínhamos um grupo Abílio Diniz, que tínhamos um grupo-fundador da TAM, o grupo da Varig e tantos outros "empreendedores" tupiniquins? Acabou, acabou. Somos um apêndice do capitalismo internacional, sem alma nem referência, com uma cultura dominante cosmopolita-gringa, que tem total desprezo pela cultura local e a ideia de uma Civilização Brasileira. Não é por acaso que com uma penada destroem as reservas indígenas, vendem as terras, alienam o petróleo, o nióbio, e todas as joias da coroa. Com quem você vai recompor uma aliança política civilizatória e democrática? Essa é a pergunta que a Dilma deixa no ar, mais como um desejo e fé na "democracia" que no tirar consequências e lições de sua própria análise, aliás muito lúcida. Temos que partir dela, puxar todos os fios e consequências, porque não é habitual dos quadros petistas um debate tão elevado, em nenhum congresso do PT regional ou nacional tive notícias de uma discussão dessas. Mas dela é preciso partir. Vai responder a muitos interrogativos, sobretudo ao abrir-se um debate mais amplo sobre estas ideias e um respeito pela Dilma no seu esforço de analisar e compreender os erros da companheirada. Louvável iniciativa do Pomar, Piccin e outros, que insistem em fazer, ainda no PT e com a esquerda, a autocrítica e o bom debate, para que superemos de vez o “luto”. 

Comitê de Redação

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