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A revolução na Líbia e o processo de transformação social
20 de abril de 1981 Edições Anteriores J. Posadas
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Este artigo de J. Posadas traz, à tona dos acontecimentos atuais, elementos históricos para
entender os fundamentos econômicos, sociais e políticos da revolução líbia iniciada em 1969 sob
a liderança do coronel Khadafi. Naquela época, a relação de forças mundiais, contava com a
existência da URSS. A Líbia é um país jovem que mal se havia liberado do colonialismo britânico
nos anos 50, com uma monarquia baseada no regime tribal. A nacionalização do petróleo e
a ajuda da URSS compensaram a falta de desenvolvimento capitalista e a ausência de classe
operária na Líbia, permitindo passar do tribalismo à luta pelo socialismo.

Evidentemente, deve-se contextualizar a situação atual, a partir das concessões do governo
líbio à economia neo-liberal do capitalismo europeu, como produto do debilitamento econômico,
trazido pela desorganização da URSS. O salto para passar da “tribo ao socialismo” sofreu um
freio. A possível inexperiência de direções islâmico-militar “sui generis” e o seu isolamento,
retardou o avanço no rumo de um nacionalismo mais revolucionário.

Porém, há que avaliar também que, apesar da queda da URSS, a crise capitalista mundial
atingiu um nível irreversível na história, e entraram no cenário mundial novas forças
revolucionárias na América do Sul, no Irã e no Oriente Médio, e que a Rússia, a China e Cuba,
continuaram a atuar como parte do bloco econômico e militar antiimperialista. Além disso, a
política exterior da Líbia buscando uma aliança com UNASUR, propondo a formação de uma
Organização do Tratado do Atlântico Sul, justo no momento em que a OTAN decide operar
também nesta região, não permitem uma conclusão categórica de que Khadaffi abandonou a
trincheira antiimperialista, como argumentam segmentos da esquerda européia. Ao associarem-
se, criminosamente, à idéia de uma intervenção “imperialista humanitária” contra a Líbia, fica
demonstrado, uma vez mais que estes segmentos de esquerda jamais entenderam o processo
revolucionário líbio, desde o seu início.

O artigo mostra as raízes do processo líbio, além de examinar as dificuldades para a formação
de uma direção capaz de atender ao desafio de avançar em medidas socialistas, contando
com a participação organizada das massas líbias que, com todas as limitações do processo,
sempre souberam resistir às pressões, sabotagens e agressões do imperialismo contra o Estado
Revolucionário. A estrutura fundamental da Líbia, continua sendo o exposto no artigo de
J. Posadas. Qualquer retrocesso, divisionismo regional ou tribal no Estado revolucionário
líbio terá resultados catastróficos contra a Líbia e toda a região.

Os problemas que surgem na Líbia são problemas dos mais importan-tes da história da
humanidade. A Líbia vem a expressar novas relações de forças mundiais que permitem
que um país atrasado possa dar um salto adiante; não somente quantitativo, mas com
extensão secular. A Líbia passa de uma condição quase primitiva, sem vida cultural,
científica e esportiva ao que é hoje (*).

A Líbia, por si mesma, não tinha condições para promover isto. Se a vemos no contexto
mundial, ela era antes dependente do sistema capitalista mundial e não tinha força
social, nem sindicatos e partidos, para dar início a este processo de transformações

sociais. O que existia aí era uma oligarquia dirigente que se apoiava no exército para
dominar o país. Suas vinculações com o imperialismo inglês, italiano e, em parte,
francês, lhes davam força militar para que pudessem dominar. Esta oligarquia tinha
o exército para esta finalidade: não para guerrear contra os vizinhos, mas contra a
população. Não havia tradição de partido, de sindicatos, nem de idéias; havia poucos
livros e a população era quase toda analfabeta. As mulheres não tinham nenhum direito;
nem mesmo na família e, até antes de Khadafi chegar ao poder, o marido podia ter até
mesmo 7 esposas.

O progresso da Líbia foi possível devido às relações de forças mundiais e à influência
da URSS e dos Estados operários (países socialistas) sobre o Oriente Médio e,
particularmente, sobre a camada militar da Líbia. Esta equipe deu um golpe militar
e conduziu o país a posições nacionalistas. No início, não havia ainda uma direção
formada e, inclusive, houve uma luta que durou anos até chegar a uma direção
programaticamente mais homogênea que buscava o desenvolvimento do país. Isso foi
possível graças a uma aliança com os Estados operários; mesmo que não consistissem
em acordos assinados. A aliança consistia em que os Estados operários davam a garantia
e a segurança de que a Líbia podia se desenvolver, porque o imperialismo não tinha
força e capacidade para intervir. A existência dos Estados operários permitiu que um
país tão atrasado como a Líbia pudesse dar tamanho salto na história. São raros os
historiadores que analisam desta maneira o processo da Líbia. Eles somente dizem: “os
militares que deram o golpe, eram valentes!”. É verdade, mas o processo não dependia
da bravura dos militares, mas da possibilidade histórica e social que depende das
relações de forças mundiais. Relação de forças sociais significa: a idéia, a consciência,
a capacidade, a necessidade de progresso da história. Só assim é que foi possível a Líbia
dar um salto tão grande.

Antigamente, os ianques não rompiam relações com os grandes países; rompiam
com o país e simplesmente mandavam bombardeá-lo (1). Com Khadafi tiveram que
dizer: “saia daqui!”, e deram 5 dias para que ele saísse. E dizem que Khadaffi ainda
respondeu: “Estamos acostumados com os palhaços.”;

O imperialismo mostra sua impotência frente à Líbia. Rompeu relações para influenciar
e intimidar outros países a que não tivessem relações com ela. Esse era o objetivo do
rompimento das relações. O imperialismo queria, com esta atitude, mostrar-se forte; só
que o mundo vê que é fraco, incapaz de tomar uma medida contra os líbios. Nem sequer
pôde dizer a Khadafi: “Você é um bobo”. Teve que dizer diplomaticamente: “Senhor
terrorista, retire suas bombas daqui e vá embora!”.

A URSS não é um modelo, é um programa

O processo na Líbia tem um significado maior do que os ianques dão ou podem
conceber, porque todo pequeno país vê que a URSS é o centro de apoio de qualquer
progresso; e, então, busca o apoio da União Soviética; e vê que a Líbia não é nenhum
país pobre que tenha necessidade de ajuda econômica. É um dos países mais ricos do
mundo, se considerarmos, proporcionalmente, o número de habitantes em relação à sua
riqueza; tem uma imensa riqueza para uma população de poucos milhões de habitantes,
e a está utilizando para o progresso. A população diz isso e diz (aos que criticam ou

atacam a Líbia): “Podem dizer o que quiserem, mas o país se desenvolve”, “temos
trabalho, casa, comida, temos tudo e antes não tínhamos nada”. Antes, estava o rei
Idris, que era um degenerado, um indivíduo com 100 esposas. Hoje, a Líbia existe e se
desenvolve objetiva e organizativamente porque aí está presente a Urss e nela se apóia.
Todos os países que buscam apoio na Urss se desenvolvem. O Egito, que rompeu com a
Urss e buscou o apoio dos ianques, retrocedeu e, hoje, é dirigido por uma camarilha. O
Egito vai explodir; é uma questão de tempo mas vai explodir.

Não há nenhum progresso no mundo que tenha iniciado e, depois, retornado e se
afirmado no seu ponto de partida. Não existe exemplo algum; nem mesmo Pinochet, ou
Castelo Branco (2) foi exemplo disso.

Entre os progressos da revolução líbia está a libertação da mulher, mesmo que ainda
não seja completa; porém, vai nesse rumo. Para começar, a mulher foi incorporada
na atividade normal do país, coisa que antes não havia e, hoje, elas abandonam o véu,
estudam, trabalham, andam sozinhas pelas ruas, o que antes não podiam, exercem
atividades econômicas e trabalham a sós. Isto é uma revolução no mundo muçulmano,
e não foi feito por Maomé. O exemplo do processo de libertação na Líbia é uma
demonstração da relação de forças mundiais.

O programa de Khadafi e da equipe dirigida por ele, que não é só de Khadafi, foi
aumentando e elevando-se no curso da revolução. Partiu de uma consideração geral,
boa, de expropriar, estatizar, mas sem ter ainda um programa claro. O programa foi se
definindo na medida em que a revolução avançava. O ponto de partida do programa era
muito simples, mas havia uma luta na direção e não havia uma decisão programática.
Mas, poucos meses depois de a equipe de Khadafi ir ao poder, foi proposto e
desenvolvido um programa semelhante ao programa dos Estados operários, que
terminou levando a Líbia à condição de Estado Revolucionário, com todas as condições
de ser um Estado operário. Está tudo estatizado; não existe mais propriedade privada
de importância. A propriedade privada é pequena no comércio e no artesanato. Todo o
setor importante – petróleo e outros minerais – está nas mãos do Estado. A direção líbia
baseou seu programa econômico e social na experiência dos Estados operários. É esta a
verdadeira natureza do progresso dos países africanos, asiáticos e também da América
Latina.

A União Soviética não é um modelo, é um programa. Para avançar do estado de
privação ao desenvolvimento é necessário estatizar, planificar e fazer as massas
intervirem. E é isto que os líbios estão fazendo, mesmo que de forma limitada, porque
não têm ainda um programa marxista. Mas, já existem os fundamentos para que, em
poucos anos, se proponha um programa, coerente, que é o marxismo. A coerência
significa que a produção dever ser programada e para isto ser estatizada. Mas, para
programar a produção é preciso uma direção que tenha a compreensão deste processo.

É preciso considerar o imenso progresso feito pela Líbia, mas mesmo sendo importante,
ainda existem limitações por parte da direção política e militar do país, porque sua
compreensão histórica e política é ainda limitada; junto ao fato de ser uma direção
de origem muçulmana, que antes esteve limitada pela concepção teológica, religiosa,
social e humana. E o Estado operário influenciou esta direção diretamente. O Irã fará
o mesmo que a Líbia fez, pois o que esta fez não foi como muçulmanos e, sim, como
seres humanos que convenceram a Maomé de que este era o caminho, e Maomé disse

sim, que estava correto. Isso é produto da relação de forças mundial e é um exemplo
para todos os países, inclusive para o Afeganistão.

O islamismo e o progresso social

O progresso da história não está determinado por Maomé ou pela concepção
muçulmana, mas pelo programa, pela política e pela intervenção da população; e tudo
isso, baseado na concepção científica do progresso da história, cuja base é o marxismo.
Os líbios não são marxistas, mas também não são anti-marxistas. Entretanto, tudo o
que aplicam é marxismo. Não fazem nenhum ataque direto ao marxismo; limitam sua
relação com ele, mas não o rechaçam.

Este processo na Líbia é fundamental para o mundo muçulmano, porque é um exemplo
de que para o progresso social e da história da humanidade é preciso antes de tudo,
resolver o que fazer com a economia e com a sociedade; ou seja, o que fazer com
o Estado capitalista. A Líbia mostra a todos os outros países árabes que ela deu um
imenso salto porque fez o mesmo que a Urss. As massas árabes entendem, apesar
de que não o digam; viram que a Líbia antes da Revolução não era nada e que agora
o capitalismo tem um medo enorme dela. Os capitalistas têm um tremendo medo
do “louco” Khadafi (como eles o qualificam), que disse recentemente: “Todos devem
fazer como a Líbia, pois aqui não há proprietários de casas. Todos têm casas, escolas e
trabalhos. Todos têm o que comer”. E antes, não tinham nada. Hoje, tudo isso existe e,
inclusive, um progresso enorme das mulheres.

Há um princípio que se desenvolve pela via da necessidade histórica, e esta via é a
base para o marxismo. Não é um programa marxista, mas a base de desenvolvimento
da Líbia é marxista. É uma conclusão fundamental para todos os países árabes, que
não é imposta pela concepção muçulmana e sim pela necessidade social, pelo exemplo
social que vem da Urss, como também de Cuba, da Etiópia, do Vietnã, da Argélia, de
Angola e Moçambique. Este processo mostra a tendência da história que vincula todos
estes progressos dos países com a Urss. Não somente pela estrutura econômica e social,
mas pela resolução histórica da União Soviética que estimula mudanças em todos os
pequenos países.

Junto com isto é preciso ter em conta a limitação do processo de desenvolvimento da
Líbia por falta de uma direção coerente. É possível ir muito mais adiante aí. Se isso não
ocorre é por limitação da direção. Demonstra-se também como o mundo árabe não está
fechado ao progresso marxista da história. A maior prova é a experiência da Líbia.

Outra experiência é a da Etiópia, que era muito mais atrasada. A Etiópia se agarrou
do programa marxista para progredir, e todos os países árabes e suas massas vêem
este processo. Elas não se limitam ao Alcorão; vêem e assimilam a experiência que se
realiza em outros países que iniciaram processos de transformação. E este processo é
Líbia.

Neste processo é preciso direção e intervenção dos Estados operários sobre esses países.
Tem sido a debilidade dos partidos comunistas, de sua política não resoluta, a falta de
programa, de capacidade e de direção, os fatores que não permitiram exercer uma maior

influência sobre os países árabes. A Líbia não era o menor deles, mas era o mais fraco
de todos. Tinha uma camada de Xeiques enorme, que desprezavam a vida humana.

O processo na Líbia é um aspecto do processo mundial, que sendo muito importante,
é limitado porque se pode fazer muito mais. Porém, isso mostra que existe uma luta
interna que não é pública. Não existe a mesma capacidade ou o mesmo programa
entre os diferentes setores da direção. Uns estão mais à esquerda e são mais
conscientes. O que há é um acordo entre as diversas alas, onde alguns se mostram
menos “muçulmanas” que outras e mais amigas da Urss.

Do nacionalismo árabe ao processo de transformações sociais

A falta de cultura no sistema capitalista se expressa no que se escreve sobre a Líbia.
São obrigados a falar sobre seu progresso, mas minimizam-no e o reduzem ao nível do
obscurantismo religioso; buscam minimizar os aspectos progressistas, o fato de cada um
ter sua casa, de que não existem desempregados, que não há fome, nem miséria, onde
tudo isso foi eliminado, e o principal da economia está estatizado. A mulher, por sua
vez, não anda mais de véu, veste-se normalmente. Fazem-na vestir-se de uma maneira
especial para que não se destaque a forma feminina, o que indica a sociedade anterior,
onde havia o sadismo, que é o que deve haver no Egito. Quando ocultam suas formas
femininas, igualando a mulher ao homem, é no sentido de eliminar a base da instigação
sexual. Agem assim em virtude das relações sociais anteriores serem um fator que induz
a estas conclusões. O fato de elas usarem calças compridas tem também o sentido de
impor sua igualdade com os homens. O fundo histórico para o uso da calça comprida
por parte da mulher é para colocá-la em pé de igualdade com o homem, é a busca de
uma relação de igualdade com o homem, onde nem mesmo a mulher, ou a sociedade
tem noção deste processo.

Quem inaugurou o uso das calças compridas na mulher foi a sociedade celta. Por que
teriam necessidade de calça comprida? É em virtude do desenvolvimento da sociedade
celta; desenvolvimento muito elevado, o que implica também nas relações sexuais. A
calça comprida é para qualificar a divisão sexual e para impedir insinuações sexuais,
que deviam ser muito profundas nessa sociedade. Mas, não era como hoje – motivo de
desprezo, de utilização da mulher – mas, sim como um aspecto do desenvolvimento
que, ante a falta de cultura, de literatura, de arte e ciência, se dava por esta via.

Na sociedade árabe, na Líbia em particular, como também no Egito, essa é a base
essencial: a mulher é um instrumento do sexo. E não instrumento do homem, mas
instrumento do sexo, como era antes na China. Esta sociedade criada pela Revolução na
Líbia elimina isto: a mulher já não é nem instrumento do sexo, nem do homem. É um
progresso da Líbia. E os capitalistas dizem: “Vejam, eles põem calças compridas nas
mulheres!”. Mas, não falam do imenso progresso feito em poucos anos.

A criança na Líbia já forma parte da sociedade. Antes era um objeto, onde o adulto
reclamava que tinha que tomar conta da criança. Agora, ela está incorporada à
sociedade. Ao mesmo tempo em que passam da limitação da concepção religiosa,
limitação muito grande (não do islamismo, mas da concepção religiosa) à abertura, ao
desenvolvimento das idéias. O que movem estes movimentos tipo Líbia são as idéias, e

não a concepção religiosa. A concepção religiosa monopoliza e monolitiza o progresso
do ser humano a certas regras que vêm da relação com os deuses. O desenvolvimento
social supera isto; não a derruba, nem a liquida, mas a supera. E o ser humano vai
elevando sua compreensão social, científica; por meio do amor humano vai elevando
sua compreensão social, científica e superando a concepção religiosa. Não vão ficar se
queixando: “Ah, tantos anos dedicados a Deus!”, mas vão concluir: “É, são etapas da
história humana; foi assim por causa da propriedade privada”.

Isto está ocorrendo na Líbia e este processo está preparando uma elevação do
islamismo. Não significa liquidar o islamismo e sim, superá-lo através da concentração
das idéias de progresso e justiça social que o islamismo possui, e que são muito boas.
Algumas das suas concepções são assim, muito mais que na religião católica, porque
esta já serviu à classe que dirigiu o mundo capitalista. O islamismo tem uma série de
concepções de progresso, que grupos dirigentes como os sultões acabaram pondo a seu
serviço.

A Líbia está passando por este processo. Antes era um país que não era nada. Se
antes da revolução alguém perguntasse o que era a Líbia não se sabia nem onde
se localizava. Hoje, ao contrário, a Líbia significa Khadafi, e Khadafi significa
antiimperialismo, desenvolvimento, ser amigo da Urss, apoio à revolução. E tudo isso
está se desenvolvendo com o sentimento muçulmano. Não é o primeiro caso. Foi a Urss
quem primeiro protagonizou o enorme progresso dos muçulmanos e os incorporou à
revolução, e estes, sem deixarem de ser muçulmanos, antes de tudo, eram soviéticos,
depois muçulmanos.

O progresso social das massas líbias convergirá em medidas mais
profundas

A Líbia está fazendo um imenso progresso. Antes não passava de um harém com
o solo cheio de petróleo. Começou a ter algum significado a partir disto, pois antes
não era nada, era um deserto. A pior parte do deserto coube a ela. E a Líbia não tinha
nenhum poder. Desse deserto, uma equipe de militares acompanhados de civis (pois não
eram apenas militares) teve a decisão de fazer este esforço que faz parte do progresso
da revolução mundial. Ela não era nada antes. Fazem o que fazem, não para eles
mesmos ou para o islamismo, e sim, para preparar as condições para um futuro salto
rumo a medidas socialistas. A experiência das massas indica que dirão: “Bom, agora
está faltando isto…”, ou seja, a programação, a planificação, o desenvolvimento de
indústrias, o desenvolvimento hídrico, a aliança com os Estados operários e o apoio
incondicional a toda revolução, como faz Khadafi, ainda que de forma um pouco
inconseqüente, pois ele não tem partido.

O processo na Líbia é um dos acontecimentos mais elevados da História, porque é a
forma como o progresso da revolução, sem partidos comunistas, penetrou nos países
árabes. A Líbia não tinha Partido Comunista, e quem era de esquerda era morto. Mas,
mesmo sem Partido Comunista, a revolução chegou aí através da influência sobre uma
camada militar. Este processo mostra a forma como se dá a história: os países mais
atrasados do mundo alcançam as formas mais elevadas de progresso devido à relação
mundial de forças. Quando existe este nível é porque a necessidade de progresso se
impõe e se baseia em um exemplo. Por isso a Líbia pôde passar de uma ditadura de
sultões ao desenvolvimento de Estado Revolucionário rapidamente.

O petróleo da Líbia é uma “riqueza” para o mundo capitalista, portanto uma fonte de
progresso. Mas quem deu o uso para o progresso foi o programa revolucionário.

Este processo aí foi precedido pelo Egito, através de golpe contra o rei Faruk em 1952.
O Egito antes tinha um regime quase igual ao da Líbia. O golpe da Líbia foi estimulado
e impulsionado pelo progresso do Egito. Daí se conclui que as condições mais adversas
criadas pela religião são superadas pelo progresso revolucionário, porque este não
rechaça a religião, e sim, avança na necessidade de compreender a função insubstituível
da economia, da sociedade e das relações humanas; portanto, adapta a religião a este
processo. A revolução não rechaça, não combate, nem se opõe à religião, mas vai
criando condições para que ela desapareça. Com o desenvolvimento da revolução, a
religião não encontra ponto de apoio e vai sendo superada pela consciência das pessoas.
E sem que as massas abandonem seus conceitos ou crenças religiosas, submetem-nas às
necessidade do progresso social.

O apoio soviético impede que o imperialismo sufoque estas revoluções

É isto que mostra a Líbia de forma terminante, pois sendo um país pequeno, sem nada,
era um sultanato, pôde progredir a formas muito elevadas. Enquanto que nos outros
países árabes não ocorreu isso o mesmo, porque não se deram condições de combinação
de base social e militar para impulsioná-los. Em dois países do Oriente Médio
(Iraque e Egito) aconteceu isto. Eles tinham o exemplo da Argélia que se libertou do
imperialismo francês e deu um exemplo claro e terminante. Tinham também o exemplo
do apoio dos soviéticos a todo processo de libertação. E a vontade combativa e vigorosa
destes camaradas militares que dirigiram a libertação da Líbia, Egito e Argélia, estava
baseada no apoio soviético e na experiência feita no capitalismo que já havia perdido a
força e a capacidade histórica de conter o progresso.

A represa de Assuan (3) foi um impulso muito grande a todo o mundo árabe. Mostrou
que a Urss, à custa de um enorme esforço e de uma grande inversão como foi a
represa de Assuan, impulsionava o progresso da história. Ao mesmo tempo em que
impulsionava a própria Urss. Por isso, o capitalismo mundial comandado pelos ianques
e pelos ingleses, matou Nasser através de Sadat. Mataram Nasser no Egito, mas
nasceram outros em outros lugares. A morte não é estática, a morte faz nascer outras
vidas.

É muito importante compreender este processo, porque não existe educação do
movimento comunista sobre esses problemas. Os soviéticos, sim, tendem a basear-
se nesta compreensão, pela necessidade objetiva da sua existência. Os soviéticos
investiram uma quantidade enorme de dinheiro e de tempo no Egito e, Sadat, agora,
não paga nada e crê com isto que vai continuar vivendo. Mas, Sadat é um morto que
trata de aproveitar os últimos dias de vida que lhe restam; é um homem degenerado
que não produz uma idéia; tem, particularmente, um espírito assassino contra o
progresso da população. Mas, ainda que tenha que matar, matar, matar e matar, e proibir
a vida em seu país, tem que depender da ajuda, dos investimentos ou das propinas
dos ianques para continuar vivendo. Nasser se dava ao luxo de exportar a revolução;
pagava para exportar a revolução. Ao passo que Sadat vive submetido aos ianques,
que lhe dão empréstimos e vendem-lhe armas por milhões de dólares para impedir o
processo revolucionário em todo o mundo árabe e em outros lugares. Querem que todos
capitulem diante de Israel, enquanto que Khadafi impulsiona a revolução em todos os

lugares.

J. Posadas
20 de abril de 1981

(*) A revolução foi em 1º de setembro de 1969
(1) Refere-se à ruptura das relações diplomáticas dos Estados Unidos com a
Líbia, e que foi dado um prazo de “5 dias para que a Líbia retirasse seu corpo
diplomático dos Estados Unidos”
(2) General que assumiu o governo depois do golpe militar de direita no Brasil
em 1964
(3) Projeto realizado pela Urss no Egito a partir de 1958 durante o governo
nacionalista de Gamal Abdel Nasser.

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