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As eleições municipais e autonômicas na Espanha
30 de junho de 2015 Politica
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AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS E AUTONÔMICAS NA ESPANHA

 

Um terremoto político e social

 

Estas eleições significaram um triunfo do movimento operário e das massas da Espanha. Foram a conclusão de toda uma etapa de lutas, de intervenção do proletariado e dos movimentos sociais que rechaçaram as políticas de austeridade e ajustes impostas pela União Europeia e aplicada pelo governo do Partido Popular(*). Nenhuma organização, nenhum setor da sociedade deixou de mobilizar-se para rechaçar as consequências de uma crise provocada pelos Bancos e pelas altas finanças. Esta maré cidadã foi desgastando a base de apoio do Partido Popular e preparando o salto político que significaria esta consulta eleitoral.

 

O processo eleitoral deu-se em meio a constantes mobilizações e lutas que pesaram dentro da campanha: a vitória dos trabalhadores da Coca Cola em Madrid que, após uma ano de greve indefinida, acampando na porta da fábrica, impuseram sua reabertura e a reincorporação de todos os desempregados.

 

A greve indefinida das contratadas e subcontratadas da Telefônica (MoviStar), que trabalham em condições quase de escravidão, teve uma grande repercussão e recebeu o apoio e a solidariedade das candidaturas e dos partidos de esquerda dentro da campanha eleitoral. Foram convidados a intervir em todos os atos públicos e jogaram um papel decisivo. A luta dos telefônicos votou nestas eleições e derrotou as tentativas dos grandes sindicatos (Comissões Operárias e UGT) e a patronal de romper a Frente dos trabalhadores com os sindicatos combativos e a população. A greve terminou com a ocupação de um dos edifícios da Telefônica em Barcelona que durou uma semana e onde foram delegações de movimentos sociais e dos partidos de esquerda a apoiar. Ada Colau, candidata à Câmara municipal de Barcelona, após vencer as eleições no distrito, foi ao seu encontro numa emotiva assembleia e se comprometeu a mediar o conflito e, no caso de ser eleita prefeita, a não ter relação com empresas que não respeitem os direitos e as reivindicações sindicais. A partir desta situação a empresa aceitou negociar, apesar de que os resultados finais não corresponderam com a magnitude da luta.

 

As grandes capitais: Madrid, Barcelona, Valencia e Zaragoza decidiram esta eleição dirigindo a balança na direção das coalisões de esquerda. Aí se expressou o rechaço popular aos recortes do Partido Popular que tem castigado fundamentalmente a classe operária e os setores mais desfavorecidos, aumentando a pobreza e retrocedendo as condições de vida.

 

O PP não somente perdeu as quatro capitais mais importantes, mas também Santiago de Compostela, La Coruña, Cádiz, Ferrol, Sevilla e muitas cidades mais que refletiram o avanço das organizações de esquerda e o apoio da população a uma nova forma de fazer política que passa por democratizar as instituições e colocá-las a serviço do povo.

 

Estas eleições foram o triunfo de uma nova forma de fazer política eliminando a corrupção, atendendo as necessidades básicas e um golpe muito grande à política da direita que perdeu 30% de votos. O partido “Podemos” se apresentou com listas próprias nas eleições regionais, nas quais obteve entre 8% e 20%, e em coalisão com movimentos sociais e outras forças de esquerda nas capitais mais importantes e em outras cidades. O retrocesso programático em relação às eleições europeias determinou que os votos que recebeu estivessem abaixo das expectativas. (**) Apesar disso terá um papel importante na constituição de governos em Aragón e Valencia. Na Comunidade de Madrid, onde a direita perdeu a maioria, pôde formar governo graças ao voto de “Ciudadanos” (Cidadãos), um partido que se considera a marca branca do PP, mas sem o lastre da corrupção.

 

O triunfo inesperado de “Agora Madrid”, liderado por uma ex-juíza, que pertenceu ao Partido Comunista, foi um golpe muito importante às aspirações de um setor da ultra-direita do Partido Popular que está desesperado diante desta situação e tentando todas as alianças possíveis para impedi-lo.

 

Manuela Carmena, eleita prefeita, apresentou um programa de choque diante da crise e dedicará 79 milhões de orçamento da cidade para 104 mil pessoas em situação de pobreza extrema; ampliará a bolsa de alimentação nos centros educativos para famílias em situação de emergência alimentar e abrirá durante as férias os restaurantes das escolas para os menores. Ela considera o acesso à energia e à água como bens de primeira necessidade, e defende o serviço de saúde universal, especialmente para os imigrantes que haviam sido excluídos; propõe criar uma oficina de intermediação hipotecária para evitar os despejos e aumentar o parque público habitacional; proporá aos Bancos a reestruturação da dívida municipal e a diminuição das modalidades de juros.

 

O fenômeno de Ada Colau, à cabeça do “Barcelona em Comum” merece uma análise especial. Ela provém do movimento Okupa, da luta por casas e foi a que impulsionou a Plataforma dos Afetados por Hipoteca (PAH) que freou uma enorme quantidade de despejos e que se estendeu organizadamente por toda a Espanha. Ela já era uma dirigente de movimentos sociais quando decidiu dar o salta à política e se criou uma frente junto a Podemos, Esquerda Unida, Sindicatos de Base e outras organizações de esquerda; recorreu todos os bairros de Barcelona, especialmente os mais pobres, realizando encontros, assembleias populares, com uma grande participação de mulheres e jovens. Eram comícios comovedores pelo otimismo e esperança que despertava.

 

Até o último momento, “Convergencia i Unió”, partido nacionalista que governava a Câmara Municipal de Barcelona, estava segura da sua vitória, mas o voto decisivo dos bairros operários impulsionou “Barcelona em Comum”. O festejo da vitória de Ada Colau e outros prefeitos foram verdadeiras festas populares, com concentrações nas praças mais importantes onde se celebraram as cerimônias de posse.

 

As medidas mais importantes anunciadas para serem levadas adiante em Barcelona são: o direito à casa; um novo modelo turístico que não prejudique os habitantes da cidade; a luta contra o desemprego e contra a pobreza, impulsionando cooperativas; a educação infantil pública, universal de 0 a 3 anos; novas tarifas para o transporte, gratuitas para menores de 16 anos e descontos para desempregados e pessoas de baixa renda.

 

A direita que, apesar do descenso eleitoral foi a força mais votada, trata de utilizar este argumento para suavizar o golpe que o povo lhes deu ao fazer-lhe perder a maioria absoluta nas comunidades ou regiões mais importantes e nas grandes cidades. O Partido Popular perdeu no total, 2,5 milhões de votos, caracterizando estas eleições como um derrota significativa da burguesia.

 

O Partido Socialista perdeu 700 mil votos. Recebeu o menor apoio desde que se instaurou a democracia. Porém, apesar destes resultados, recuperou algumas comunidades, realizando acordos com as forças de esquerda, especialmente com Podemos. O debate que se abriu antes e durante o processo eleitoral estimulou um setor do Partido Socialista que se distancia da política do aparato e busca acordo com a esquerda e os movimentos sociais.

 

A Esquerda Unida sofreu a pior derrota eleitoral da sua história, ficando fora das instituições na maioria das regiões. Porém, mantém os mesmos vereadores e ganhou mais câmaras municipais nas cidades pequenas. A direção foi incapaz de fazer um balanço e tirar conclusões de que um setor, sobretudo o de Madrid, esteve comprometido com a corrupção.

 

Há um fato que é importante destacar, que é a fragmentação do voto da esquerda que a obrigou a fazer uma “engenharia eleitoral” para poder governar, sobretudo nas grandes cidades. Estas eleições foram uma preparação para as próximas, as gerais de novembro, e deixaram a conclusão: apesar do triunfo da esquerda, falta um programa de transformações sociais, de nacionalizações, de reestruturação da dívida em torno ao qual é necessário desenvolver um centro político que leve adiante estes objetivos e lidere um processo de mudanças.

 

Mas estas eleições foram uma expressão de duplo poder latente na sociedade. Para que se aprofunde, é necessária uma participação mais decisiva do movimento operário, com direções de classe e uma frente com os movimentos sociais, os partidos de esquerda e o conjunto da sociedade.

 

Do nosso correspondente de Barcelona

24 de junho de 2015

 

(*) Partido Conservador da Espanha

(**) As expectativas ao redor de “Podemos”em dezembro e em janeiro (2015) estavam ao redor de 26% de intenção de voto. A partir de fevereiro começaram as mudanças no programa que passou de ter pontos anticapitalistas como as nacionalizações para um programa social-democrático. Saúde e Educação Pública, Emprego, contra os despejos, contra a corrupção e pela transparencia na gestão. Defendeu um programa para vencer as eleições e não para transformar a sociedade.


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