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Dilma presidente, para continuar o governo popular e suas conquistas
15 de agosto de 2011 Edições Anteriores
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Lula e Dilma inauguram navio-plataforma FPSO JK (P-34), no campo de Jubarte (ES-2008)

O Brasil está entrando num novo embate eleitoral, em que a luta de classes está presente e todas as conquistas recentes e mais importantes do movimento popular estão em questão. A continuidade ou não do governo Lula, em termos de diretrizes programáticas, progressos da economia, relação com a participação popular, postura internacional, papel do estado, direitos democráticos, tudo aquilo de avançado que representou para a grande maioria da população trabalhadora, para os setores mais pobres da população, está em jogo. Embora na forma eleitoral, com todos os seus vícios e deformações incorrigíveis numa sociedade de classes, há sim uma disputa de projetos díspares e um conflito de classes instalado neste quadro que não pode ser ignorado por segmentos progressistas sob pena de enveredarem para o purismo, a paralisia ou o isolacionismo, que somam indiretamente aos objetivos da direita.

Ninguém deve confundir-se: ao contrário do que vem afirmando a candidata Marina Silva, e boa parte de analistas interessados, Serra não é Dilma, não é a continuidade melhorada de Lula. As garras afiadas vão aparecer à medida em que aumente o desespero na capenga aliança demotucana, quando Lula desça em campo e o eleitorado mostre não só a transferência dos votos de Lula, mas a clara determinação de dar continuidade à sua obra.

 

O Brasil é país capitalista, mas não por culpa de Lula, pois não há uma direção, não há partidos preparados, não há um movimento popular consciente para conduzi-lo ao socialismo, apesar de falarem em socialismo. Há sim partidos, inclusive o PT, que se dispõe a lutar por um programa de transformações sociais, no campo democrático e popular. À esquerda, há uma tendência a fazer uma análise redutiva do que significaram os dois governos de Lula, devido ao fato que as elites mantêm o poder, a propriedade dos meios de produção e o controle de boa parte da máquina estatal em suas mãos. Que o país está longe dos ideais do socialismo, que há ainda 35% de brasileiros pobres, que os banqueiros lucram como nunca, os industriais e comerciantes, idem. Que a reforma agrária foi parcial, que os indicadores da educação e saúdem deixam a desejar, e assim por diante. O pecado maior de Lula seria ter governado numa sólida aliança com as elites.

Governou com as elites sim, mas não sem conflitos. Mas governou, também, e numa escala sem precedentes, para os pobres. Os números, os indicadores sociais, os salários, as conquistas em termos de direitos, estão todos aí. Na economia, após um primeiro mandato cheio de dificuldades, principalmente para medir forças e estabelecer onde e como se poderia avançar e também muito dependente da correlação de forças da era Bush, enveredou-se pelo caminho do rechaço à ALCA,  da diversificação dos mercados, da soberania nacional e das novas alianças com os emergentes. O caminho foi facilitado pela crise catastrófica das idéias neoliberais derivadas da grande crise que estourou nos Estados Unidos e na Europa em 2009 (e que persiste), e pela emergência dos processos de transformação social no continente latino-americano, aos quais o Brasil não somente deu apoio mas tornou-se eixo decisivo em razão do peso de sua economia, apoiando projetos que erguem uma infra-estrutura continental que favorece a industrialização de países como Venezuela, Bolívia, Equador e sobretudo Cuba, onde o Brasil financia portos e dá apoio estatal fundamental para que a Ilha possa superar a dependência alimentar do exterior.

Mudanças sociais em favor dos pobres e consenso crescente no plano interno, alianças estratégicas com os países progressistas e antiimperialistas no plano internacional, deram ao governo Lula um inquestionável caráter nacionalista e popular comprovados de maneira terminante pela sua popularidade. O potencial do Brasil como nação, adormentado por séculos pela mesquinhez e subserviência das elites frente às metrópoles imperiais, deixa o berço esplêndido e desperta, o país assume um novo papel no panorama internacional.

 

Entretanto, o nacionalismo, o renascimento do varguismo, o antiimperialismo, a reconstrução do Estado, a desprivatização parcial, a recuperação da capacidade de planejamento de longo prazo, e o seu papel decisivo para o enfrentamento da crise internacional, embora reforce a sua capacidade de servir ao Capital, dialeticamente, enfraquece a autoridade da burguesia ao ser posto ao serviço de importantes mudanças sociais e da soberania nacional.

 

As conquistas sociais e o regime não-repressivo favorecem a organização popular e a conquista da cidadania. O progresso da economia ao contrário de debilitar as massas populares pelo acesso ao consumo, permite o seu crescimento como cidadãos, trabalhadores, lutadores por mais conquistas, habilitando-as a exigências superiores, pois percebem com experiência prática que não há nenhuma justificativa para que não possam ter acesso a alimentação regular, consumo de roupas, cobertores, eletricidade, eletrodomésticos. E percebem que isto só foi possível com o fortalecimento do mercado e dos bancos públicos. Dialeticamente, o progresso econômico da nação como país capitalista, mas com papel preponderante do Estado e uma constante ampliação dos direitos sociais, da educação, da justiça, vai criando bases para uma sociedade mais avançada.

 

A disputa continua, e vai continuar até que haja direções sindicais e políticas e com força e autoridade social suficientes, em condições de assumir uma nova fase e um novo projeto. Por isso seria um grave erro crer no reformismo, na tese de que todos os direitos vão se ampliar indefinidamente. Basta ver os limites do reformismo na crise que assola o estado do bem-estar social europeu, com a destruição de suas conquistas sociais, inclusive na rica Alemanha. Se há limites para o reformismo lá, aqui os conflitos serão muito mais agudos, devido à trágica desigualdade brasileira.

Vice-versa, o capitalismo por mais que avance, vai mostrar em breve seus limites, pois vai ser obstáculo para a universalização dos direitos, da saúde, do emprego, da cultura, da educação, dos meios de produção. Já o demonstrou do ponto de vista ambiental, e das guerras que empreende. Este é o quadro do mundo mais desenvolvido. O progresso social do país, partindo de níveis inadmissíveis de pobreza e má distribuição de riquezas, é pujante, mas o capitalismo em breve vai mostrar a sua incapacidade de se alcançar o paraíso. Só o socialismo o permitiria. A China, após ter acelerado ao máximo uma economia tipo capitalista, agora deve dar uma guinada no sentido do socialismo, com a vantagem que tem bases para isso. Aqui isto vai significar enorme conflito.

 

Portanto a política de alianças, as mais inverossímeis e amplas, não é nenhuma “culpa” de Lula, foi a que permitiu avançar, sem uma guerra civil precoce, ao patamar em que nos encontramos. Haveria de se perguntar quem cooptou quem nas tão criticadas alianças de Lula. O fisiologismo e a roubalheira, típicas das classes dominantes, de toda a sua corte e serviçais não mudou, mas Lula soube conduzir o seu consenso conquistado na complexa aritmética das instituições e do sistema político para a realização de alguns projetos fundamentais, como o Pré-Sal, o Bolsa-Família, a reconstrução da indústria naval e inúmeros outros.

 

O moralismo e a ética na política em abstrato, sapientemente manipulado pela mídia das elites e pela oposição conservadora em todos os níveis, afetando em certo momento a amplos setores da classe média, chegaram a confundir as idéias de boa parte da esquerda. Não fosse a firmeza de Lula, esta teria sido despojada do governo e do palácio a pontapés no período do mensalão. Ali foi um divisor de águas: enquanto a burguesia que o impeachment, um setor vacilante do próprio PT sugeriu a renúncia, mas o Lula preparou-se para mobilizar os sindicatos para defender o mandato nas ruas. Foi quando declarou: “não vou me suicidar como Vargas, nem renunciar como Jânio, nem deixar o país como Jango”. A burguesia percebeu o perigo de um presidente como Lula voltando ao Estádio de Vila Euclides, sua memória histórica também recordou a fúria das massas quando Vargas se suicidou, e assim, preferiu não levar adiante tal proposta. Nada pode demonstrar que se as elites da cruzada moralista tivessem retornado ao poder, o país estaria hoje sendo governado por uma classe política “limpa” e “honesta”. Os mensalões do DEM e do PSDB o demonstraram exatamente o contrário, como antes, como quando governavam.

 

Aí mora o perigo: Marina Silva, como um avatar azul, prega uma neutralidade e um purismo que não correspondem à aliança de forças políticas na qual se baseia. Aliás, ninguém pode em sã consciência reivindicar uma matriz de pureza, já que a legislação derrubou a unicidade das coligações políticas em torno das candidaturas a nível federal, e o mapa estadual das alianças é completamente artificial e artificioso, conforme os cálculos e jogos de poder locais e nacionais.

 

É preciso lembrar que a natureza das coligações e os próprios partidos políticos no Brasil não correspondem senão indiretamente a interesses de classe, ou a interesses de classe em conflito e não necessariamente antagônicos, sobretudo no campo da burguesia; já no campo popular, se excluímos os movimentos sociais e as siglas menores, há maior enraizamento de massas em torno do PT e PCdoB. O Psol não é um partido de massas, é uma esquerda parlamentar combativa. O PDT representa ainda uma tradição nacionalista e popular importante, bem como o Partido Socialista. Outros partidos menores exercem só simbolicamente uma militância à esquerda. Enquanto estivermos em democracia burguesa, será preciso governar com estas e outras siglas, representando interesses muito diversificados. Como disse Lula, para governar um país tão complexo como o Brasil é preciso juntar Cristo e até de Judas, mas não aplicar o programa de Judas. Trotsky disse certa vez que os revolucionários fazem aliança com Deus e o Diabo para avançar a revolução, mas não vão na casa do diabo. Não está mal posicionado o Lula.

 

O PMDB, que é o maior partido em termos de bancadas, votos e postos no executivo, na realidade tem um núcleo duro de ideologia e concepção burguesa e é uma sigla de conveniência para uma infinidade de interesses da burguesia em todos os níveis da Federação. O “PMDB velho de guerra e nacionalista” do período contra a ditadura não existe mais, e por isso o ex-governador do Paraná, Roberto Requião, não conseguiu aderentes dentro dele para sua cruzada nacionalista e antiimperialista, muito embora tenha feito um governo muito avançado, estatizante e antiimperialista, ainda assim, não conseguiu construir uma corrente no interior do PMDB, apesar de ter estado 8 anos no governo. Trata-se de um processo histórico já bem conhecido ao qual nenhuma reforma política pode por remédio. O PMDB governou para as elites no mais terrível governo neoliberal com o PSDB, e o faria novamente. O problema é: tê-lo do lado de cá, apoiando o governo progressista, ou do lado de lá, apoiando os incorrigíveis neoliberais.

É neste sentido que a política de alianças produz eternos conflitos e rebeliões à esquerda. Estivemos entre os críticos da “Carta aos Brasileiros” de Lula em 2002, mas não por proclamar uma aliança com setores da burguesia industrial e financeira, e até mesmo com setores oligárquicos; nossa crítica tinha a ver com a timidez do compromisso, da plataforma transformadora. Entretanto, reconhecemos que fora desta aliança, não teria existido governo Lula algum. No exercício do governo houve muitos conflitos e concessões; alguns bastiões fundamentais das elites permaneceram intocáveis, como a gestão autônoma do Banco Central, a lentidão da reforma agrária, e pelo menos no início, o domínio incontestado da mídia, além de todo um arcabouço derivado da privataria, ainda não completamente superado. O natural loteamento dos Ministérios e postos no executivo desalojou muitos petistas, em função da colocação dos incômodos aliados do PMDB e outros partidos da base de governo.

 

Mesmo sob o fogo cruzado das alas burguesas internas e externas ao governo, que culminou no primeiro mandato com a chamada crise do “mensalão”, e com muitas crises internas com a defenestração das alas mais à esquerda e impacientes do PT, que deram lugar ao Psol e a outras deserções a nível de quadros do governo, foram fincados alguns pilares para o que depois foi o segundo governo de Lula, muito mais avançado, e desta vez, tendo cooptado ele, pelo enorme prestígio que arrebatou entre as massas mais pobres do país, as alas do PMDB e das inúmeras siglas burguesas que antes haviam manifestado hostilidade e participado das campanhas de linchamento do “metalúrgico”.

 

O pêndulo da História pende para a esquerda, e com ele, o governo Lula. A histeria da oposição mais reacionária e da mídia vai perdendo efeito, frente aos fatos. O quartel-general da oposição, os Estados Unidos, entra numa crise e numa nova fase com o presidente negro. A perda da hegemonia dos EUA sobre os negócios brasileiros, retira mais fôlego ainda às oligarquias internas. O então criticado “Aerolula” se transforma num instrumento de combate, desbravando e diversificando mercados e, com eles, reforçando a soberania nacional. Ter expulsado o FMI e passado à condição de credor do mesmo representa um golpe mortal aos colonizados e ao “complexo de vira-lata” da elite nacional.

 

Este é o resultado das alianças, e não, como se poderia supor, uma subordinação às oligaquias tradicionais. É Sarney que defende o governo e seus principais projetos, inclusive formando parte da barreira política para impedir a criminalização do MST na CPI da Reforma Agrária, numa clara demonstração de como as alianças podem favorecer aos segmentos mais à esquerda. Enquanto ACM morre e não deixa seguidores e perde a Bahia, seu feudo eterno, Jader Barbalho favorece a chegada do PT ao governo do Pará, e assim cada um dos bastiões tradicionalistas vão sendo assaltados pelas políticas de Lula, e não ao contrário. É Roseana Sarney que se alia ao governo, e as políticas tradicionais vão sendo atropeladas pelo Luz para Todos, pelo Bolsa-Família, pela compra antecipada de produtos agrícolas aos pequenos agricultores para a merenda escolar, é uma enxurrada de medidas de empoderamento e cidadania que vai quebrando, na raiz, o poder das oligarquias. É o que explica, inclusive, a vacilação de Aécio Neves, que sabe que Minas não é mais das oligarquias e não se arriscou a embarcar na canoa de vice de Serra. A desistência de Aécio da vice é, talvez, mais importante que muitas destas pesquisas feitas para revelar as possibilidades da dupla Lula-Dilma

 

A questão da ampla aliança em torno da candidatura de Dilma Rousseff deve ser vista desta maneira: qual é o projeto que a sustenta, e as forças capazes de realizá-lo. Dar continuidade ao governo Lula é aspiração de milhões de pessoas, trabalhadores, pobres, e também de crescentes setores da classe média. A inédita popularidade de um presidente de saída é uma palavra de ordem: avançar nas transformações sociais.

 

Dilma pode ter menos capacidade de articulação, menos experiência política, o seu lado subjetivo vai ser colocado a duras provas, mas a plataforma de programa, as alianças construídas por Lula e a sua enorme popularidade, num período de crescimento econômico vigoroso e equilibrado, cuja base essencial é o crescimento do papel do Estado, são componentes que podem lançá-la às alturas de um governo ainda mais à esquerda que Lula. Não há que olvidar a tradição brizolista de Dilma e que a faz reivindicar o papel de Vargas na criação da Petrobrás e das várias conquistas sindicais e de consolidação das estatais.

 

Candidaturas não são caprichos, são resultados da correlação de forças. Por mais integridade que tenham candidatos à esquerda, eles não representam processos. Lula não pode continuar (por enquanto) no governo – e seria de se interrogar à esquerda porque não houve combate por um terceiro mandato – mas indica uma sucessora. Sua história militante é límpida, diáfana, como revela a sua experiência de resistência e solidariedade vivida nas masmorras da “Torre das donzelas”, na prisão Tiradentes no período da ditadura. Seu compromisso com o governo e seus programas, idem. Por mais que seja pragmática, nada indica que Dilma venha para pactuar por baixo com as elites, tudo ao contrário.

 

Em todo caso, seu governo dependerá de muitos fatores, inclusive da capacidade da esquerda de sair do isolamento social, mobilizar-se, reforçar os processos participativos, atuar para reforçar as conquistas mais importantes e ampliá-las. O MST e alguns movimentos sociais bateram muito duramente no governo Lula, principalmente na primeira fase, e criticaram vários aspectos, os atrasos na reforma agrária, o projeto dos biocombustíveis, a política ambiental. Chegaram a afirmar que o governo Lula havia feito uma opção pelo agronegócio, que não eram “amigos” do governo.

 

Todos estes argumentos foram caindo por terra com os inúmeros projetos para a área rural e para a agricultura familiar, para os assentamentos, que mesmo não sendo projetos de âmbito direto da reforma agrária, beneficiaram milhões de agricultores pobres; os biocombustíveis não se revelaram nenhuma catástrofe, e embora não tenham sido alavanca direta da reforma agrária, beneficiaram e beneficiam a milhões de agricultores, com um papel mais ativo da Petrobrás no processo, que criou uma subsidiária. Aliás, dadas as relações de força, talvez tenha faltado aos movimentos sociais a apresentação de projetos que incluíssem a agroenergia familiar, descentralizada e estatal como parte das alavancas que podem destravar a reforma agrária, e formatar uma aliança movimentos sociais e estado. O governo avançou em projetos de legalização de áreas indígenas, consolidou os direitos dos quilombolas, implemento inúmeros projetos para os setores mais oprimidos e pobres, principalmente na área rural, como o Luz para todos  e estaria sensível a uma política que vinculasse agroenergia familiar com a reforma agrária, da mesma forma que organizou a defesa do MST na CPI no Congresso, com a participação do PMDB como defensor.

O problema não era a crítica à lentidão do governo, em permanente conflito com a sua base política, era o não reconhecimento das possibilidades que este abria para que os movimentos sociais disputassem maiores espaços. Todos os movimentos sociais e também o movimento sindical tiveram dificuldades para condicionar ainda mais o “seu” governo.  Tiveram dificuldades em reconhecer que por ele foram superados, inclusive à esquerda. E sobretudo, por não manejar a tática das alianças, por ter alergia atávica às “oligarquias”, mesmo quando estas apoiavam nas votações aos projetos mais audazes do governo, como a re-estatização do petróleo e a criação da EBC. Ao fazer isso, não foram as oligarquias a se fortalecerem, elas se agarraram a Lula como o enforcado à corda. Alguns segmentos da esquerda talvez estejam fazendo uma leitura da dialética ao reverso.

 

Entre tantas conquistas, como a reativação da Telebrás,  criação da EBC e a realização da Iª Conferência Nacional de Comunicações passaram despercebidas por grande parte do movimento sindical e, curiosamente, dos próprios jornalistas. Um enorme investimento foi feito, e introduziu-se um novo panorama informativo e cultural no país, uma janela de cidadania e uma ferramenta de informação importante para o governo popular. Talvez tenha sido um dos mais difíceis embates de Lula contra as oligarquias midiáticas, que acabou abrindo este espaço com fórceps, mas não houve envolvimento maior das forças populares organizadas. Sem ele, a conquista pode cair em mãos erradas. A sensibilidade explosiva neste setor pode ser medida pelas dificuldades enfrentadas por Chávez ao fortalecer a comunicação pública e ao exercer a prerrogativa presidencial de renovar ou não uma concessão televisiva terminada. Foi transformado no diabo mundial, muito embora tenha maioria parlamentar e esteja dentro da legalidade democrática. Sem maioria parlamentar de esquerda, Lula preferiu caminhar com cautela.

Que seja claro: Dilma é continuação do governo em disputa, não a conquista do socialismo. Mas o patamar de conquistas é tal, que somente com um novo e poderoso movimento social organizado, poderemos passar a uma nova fase, construindo órgãos de poder e participação reais, depurando o parlamento dos 600 picaretas (esta é a radiografia do Congresso atual: empresários, oligarcas, latifundiários, profissionais e procuradores de interesses privados e somente uma minoria autenticamente popular) e impondo lideranças autenticamente populares nos processos legislativos e nos executivos a níveis federal, estadual e municipal, nos aparatos de justiça, nos órgãos de controle, até que surjam outras formas mais avançadas de democracia direta e popular.

 

Estão dadas as condições para um novo salto na integração latinoamericana, para que o novo Brasil-potência seja paradigma de progresso social e de conquistas, e não se torne uma potência capitalista a mais com viés de imperialismo regional. Se as elites voltarem ao controle deste processo, isto será inevitável, as conquistas podem retroceder, como retrocederam na Europa. Não há que se ter ilusões a este respeito, prometa o que prometer Serra! Se, vice-versa, os movimentos populares, os partidos de esquerda, os sindicatos, entenderem que podem realmente condicionar o governo elevando o patamar das conquistas e combatendo contra qualquer retrocesso, disputando palmo a palmo uma maior distribuição de renda, a realização plena do que já está previsto nas leis, no SUS, nos tantos Estatutos que ainda são textos inaplicados, a realização plena da Reforma Agrária, da reforma psiquiátrica.

 

As alianças internacionais progressistas reforçam um horizonte ideal de mudanças sociais.

 

Dependerá dos movimentos populares garantir o apoio à diplomacia do país com consolidação das alianças internacionais com os BRICs, com os emergentes, com a África do Sul, Irã, reforçando e transformando o Mercosul, a UNASUR, o Conselho de Defesa Sul-americano, estas duas enormes conquistas do governo Lula que devem receber apoio no governo Dilma, que parece não ter a mesma compreensão e visão de mundo, mas que deve aprender. Lembrar que as alianças internacionais anti-imperialistas e progressistas são fundamentais no horizonte de uma transformação socialista! Dar suporte aos povos que se libertam da opressão e integrar-se a eles para conquistar novos patamares de justiça social é fundamental para que o Brasil seja uma potência transformadora e não imperial e conservadora ou pior, o braço das grandes potências contra os povos latino-americanos que se libertam.

 

Por todo o exposto, declaramos o nosso total apoio à candidatura de Dilma Rousseff para a Presidência da República, fazendo um chamado à esquerda, aos sindicatos, aos movimentos populares e sociais a cerrar fileiras para garantir sua eleição, se possível, no primeiro turno, a incorporar suas críticas para fortalecer o lado popular da aliança de governo reforçando a plataforma de esquerda, exigindo o cumprimento das propostas. Uma vitória ampla e irrefutável representará também um condicionante para que as características mais avançadas e audazes do programa de Lula tenham continuidade; uma vitória no fio da navalha dará mais força à ala conservadora da aliança de governo e alento à futura oposição, para frear, distorcer, tergiversar e condicionar o novo governo.

 

Chamamos, portanto, a não desperdiçar votos com candidaturas como a de Marina Silva que, embora legítima, embora portadora de propostas de defesa do meio ambiente e de continuidade dos programas sociais, como também de reformas políticas a que todos aspiram, estas podem ser perfeitamente realizadas pela futura presidente Dilma e com uma base de apoio muito mais ampla e com maior eficácia. Marina recolhe a insatisfação, o protesto, o radicalismo de setores ambientalistas e da classe média sensíveis à questão ética. Mas,  Entretanto, seu discurso é ambíguo com relação a questões estratégicas como o posicionamento antiimperialista do governo Lula, sua política internacional, o papel nefasto da privataria dos governos neoliberais, o papel do Estado na economia. Especialmente quando defende políticas econômicas completamente identificadas com Serra, como por exemplo, reivindicando o corte de gastos e a austeridade. Sem aumento de investimentos públicos, portanto, sem aumento de gastos, não se poderá realizar as inadiáveis obras de infra-estrutura que um país do porte do Brasil  –  não somos um Uruguai de 3 milhões de habitantes   –  necessita com a máxima urgência para continuar funcionando, para fazer crescer a economia, para  gerar mais empregos que incluam os desempregados crônicos e os novos que chegam a um mercado de trabalho que, embora crescente no governo Lula, está ainda aquém das possibilidades de um país que registra dramáticas desigualdades e injustiças sociais. A austeridade reclamada por Serra, e repetida por Marina, é em favor da oligarquia financeira e contra a expansão do mercado interno. As massas  viveram décadas sob a austeridade mais perversa, no subconsumo, no subemprego, do subsalário, da privação generalizada, enquanto os rentistas do bolsa-banqueiro viveram sempre na mais indecente opulência. É preciso hora de aumentar radicalmente os investimentos públicos dando continuidade às políticas instaladas por Lula e criando as condições políticas, inclusive com uma maioria parlamentar e maior participação dos movimentos sociais, para que se faça um aprofundamento das políticas atuais, votando em Dilma Rousseff!

 

 

DECLARAÇÃO ELEITORAL

Jornal Revolução Socialista,

Corrente Posadista do PT

15 de Julho de 2010


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EDITORIAL:

Todo apoio a Lula que não se rende e registra sua candidatura neste 15 de agosto
Somente o povo mobilizado pode dar impulso à paralisia das instituições democráticas. Não só Lula Livre, mas Lula Presidente, requer um verdadeiro levante popular com ampla difusão nas TVs e rádios comunitárias, estendendo uma verdadeira Rede da Legalidade. Todos a Brasília, no dia 15 de agosto!
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