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ESPANHA O MOVIMENTO “DEMOCRACIA REAL JÁ!”
05 de julho de 2011 Artigos Edições Anteriores Politica
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A rebelião das massas na Europa, particularmente na Espanha
e na Grécia merece destaque especial e a nossa solidariedade neste
contexto mundial em que as chamadas grandes potências capitalistas,
capitaneadas pela Otan, decidem deflagrar a guerra contra a Líbia e
os países do Oriente Médio, para despistar sua abissal crise econômica
sistêmica. A situação abaixo narrada por nossos companheiros espanhóis
surge de uma explosão de consciência, fruto da contradição sentida na
própria pele pelas massas européias, especialmente dos jovens, que não
querem pagar pela crise, nem dobrar-se frente aos gastos militares de
uma guerra inventada, criada com a cumplicidade dos grandes meios de
comunicação, e imposta pelos “senhores da guerra”.

Outra característica destes movimentos pela “Democracia Real
Já!” é a crítica explosiva que supera as direções dos partidos da
esquerda européia, atreladas nas últimas décadas à política parlamentar
amorfa e conivente com o neoliberalismo. A perspectiva de sucesso e a
continuidade destes movimentos depende da superação desta deficiência.
A ação espontânea das massas necessita ser canalizada para a formação
de órgãos de poder, numa real revisão do que significa ser um partido
revolucionário de massas.

Trata-se de tarefa complexa tendo em vista o abandono da política e
do programa revolucionárias por alas importantes da esquerda européia.
Basta citar que a Espanha, em meio a esta crise monumental, participa
da Guerra Imperialista contra Líbia e a esquerda espanhola ainda não
organizou uma ação de protesto contra este crime, que se reflete no
desemprego e na queda do nível de vida da população.

É imprescindível que uma direção se estruture em tempo de
organizar as lutas pelos problemas e conquistas locais e nacionais,
internacionalizando o embate contra a crise econômica, enfocando
uma decidida oposição à guerra. Não há como impor uma “democracia
real”, sem opor-se à falsa “democracia dos mísseis”, ao ataque da Otan
contra o povo líbio, às ameaças à Síria, a ocupação do Bahrein. Não há
recuperação econômica para a Europa e nem para os EUA, sem mudar
completamente a programação da economia, solucionando os grandes
problemas destes países, especialmente o desemprego crescente. Sem
isto, não há solução mesmo sem guerra; e com guerra será o suicídio em
massa. A única saída é a transformação revolucionária.

O movimento dos “indignados” na Espanha é de uma importância fundamental e
influiu amplos setores da sociedade. Os jovens e um setor significativo da população
se lançaram nas ruas, cansados de um sistema enfermo, esgotado e na fase terminal que
não faz outra que mentir, enganar e virar as costas para um crise cujo único responsável
é o capitalismo.

Os jovens disseram “Basta!” e começaram a conectar-se por SMS, internet e organizar
pequenas reuniões que foram crescendo rapidamente e que encontraram eco em outros
setores marginais e castigados pela crise econômica, política e social: desempregados,
estudantes e profissionais sem perspectivas de futuro, afetados pelas hipotecas e pelo
negócio imobiliário. Desta forma surgiu o movimento dos “Jovens Indignados” cuja
palavra de ordem era:

SEM CASA
SEM TRABALHO
SEM APOSENTADORIA
SEM MEDO

Foram às ruas, sobretudo sem medo, sem esse temor que os governos e as direções
sindicais predicaram, permitindo o deslocamento das empresas, os fechamentos e
demissões. Organizaram uma primeira mobilização em Madrid, onde foram milhares
de jovens, ocupando a Praça do Sol. No primeiro dia foram 10 mil. A polícia desalojou,
mas no dia seguinte vieram 30 mil. Ninguém os desalojou, e era plena campanha
eleitoral.

Este movimento chamado de “Democracia real já!” estendeu-se às praças mais
importantes do Estado Espanhol. Em Barcelona instalou-se uma assembléia na
Praça Catalunha: começou com 100 pessoas e acabou recebendo a solidariedade das
Associações de vizinhos, movimentos sociais, aposentados, estudantes e donas de
casa. Todo mundo, em algum momento do dia, dava uma escapada do trabalho e vinha
participar desta experiência.

A cada dia aumentava o número de acampados, pondo à prova o amadurecimento do
movimento que, mesmo com dificuldades respondeu às necessidades. Organizaram-
se comissões de comida, limpeza, comunicação, ecologia, atividades e debates sobre
imigração, vítimas de hipotecas, questões internacionais, meios de comunicação; alguns
transmitiam ao vivo todos os acontecimentos. Formaram-se uma biblioteca pública,
uma equipe sanitária para os acampados, espaços de desenho e pintura para as crianças
enquanto os pais participavam das assembléias.

Foram convidados conferencistas sobre a crise econômica, os cortes sociais, a América
Latina e as mobilizações nos países árabes. Nenhum tema ficou de fora. Nos debates
participavam cidadãos com terno e gravata, que retornavam do trabalho, para escutar
e participar. O movimento é seguro, decidido, e expressa o amadurecimento do
movimento operário e do conjunto da população. À noite, as assembléias liam as
propostas das reuniões; em Madrid chegaram a participar de 10 mil a 30 mil pessoas,
sem incidentes. Votavam e decidiam com alegria as resoluções das comissões. Uma
companheira leu um manifesto dos pacientes de hospital psiquiátrico, denunciando o

tratamento narcotizante, a cumplicidade da indústria farmacêutica, do coletivo médico
que aceita esta concepção prepotente e desumana da cura. Houve grandes aplausos.

Durante as primeiras reuniões, mobilizações, e assembléias nas praças, se propunha um
programa anticapitalista expresso nas faixas e palavras de ordem. A frase que presidia
todas as praças era: “Se nos levarem nossos sonhos, não os deixaremos dormir.
Nossos sonhos não cabem nas vossas urnas!” Contra a corrupção nas instituições
e nos Partidos: “Não há pão para tanto salame (ladrões). Outra palavra de ordem:
“Os bancos nos roubam. Os políticos nos mentem. Os sindicatos nos vendem.”
Havia também contra os Bancos e o roubo das hipotecas: “Teu botim é minha crise”,
com duplo sentido, pois Botin é o presidente do Banco Santander, dos mais poderosos
da Espanha. Contra o capitalismo e os cortes na saúde, educação, habitação: “Nosso
futuro não se recorta. O funcionamento do sistema democrático é um obstáculo
para o progresso da humanidade!”.

Organizou-se uma comissão de moradias para lutar contra os despejos dos bancos.
Discutiu-se um fundo de moradias públicas expropriando apartamentos vazios e
imóveis pertencentes aos Bancos; estes ficaram com vários deles, como produto da crise
e do desemprego.

Expressava-se também a combatividade e a decisão de enfrentar o sistema: “Se lutas,
poder perder. Se não lutas, estás perdido. Perdemos o medo. Não somos anti-
sistemas, somos muda sistemas. Nem um passo atrás. Agora a praça, amanhã as
ruas, passado o mundo.”

O chamado “Movimento de 15 de Maio” ou “Democracia Real Já!” tem um programa
muito profundo e decidido: Contra os Bancos, pela defesa do Banco Público, contra
os cortes salariais e a diminuição dos orçamentos da saúde e educação, trabalho e casa
para todos, defesa dos direitos dos imigrantes, contra a corrupção nas instituições e nos
Partidos Políticos, pela reforma da lei eleitoral, pela eliminação dos privilégios da classe
política.

Nos últimos meses de debates eleitorais e televisivos falou-se muito dos jovens, da sua
falta de interesse e solidariedade. Eram chamados de geração “NI-NI”, ou seja: nem
trabalha, nem estuda. Todos estes intelectuais e jornalistas petulantes receberam uma
lição. À raiz deste debate, saiu um estudo que demonstra que a juventude desta etapa
é a melhor preparada técnica e profissionalmente; mas, tem menos chances, salários
mais baixos e maior exploração. Muitos jovens, retornaram à casa dos pais; não podem
manter, nem compartilhar uma moradia.

O mais importante é a lição de solidariedade que deram à população com os
acampamentos nas praças, o debate e o esforço em manter a atividade. No segundo
dia de ocupação da Praça Catalunha, chegou um furgão com cozinheiras profissionais,
panelas e todos os elementos para centenas de comidas a serem supridas diariamente.
Havia mulheres de idade, que traziam uma torta, um pastel, outros com sacolas de
bebidas, pastas, etc… Os responsáveis da Assembléia da cidade de Córdoba tinham
alimentos para suprir meia cidade.

À medida que se estendia a luta, vinham homens, mulheres, aposentados, famílias
com crianças, profissionais, para aderir aos acampamentos, assinar adesão e dar

dinheiro. Era emocionante ver as famílias com crianças nos carrinhos com cartazes que
diziam: “meus filhos vão lutar pela dignidade!”. Esta luta tem sido uma luta pela
dignidade, pelos direitos sociais, pela liberdade de se expressar, manifestar-se, decidir
sobre seu futuro, construir uma sociedade sem privilégios. Este foi um exercício de
funcionamento soviético, sem ainda uma participação massiva do movimento operário,
sem poder de decisão, mas disputando com as instituições e a estrutura capitalista.

Estas assembléias se organizaram em pleno processo eleitoral e nenhuma instituição,
nem governo, nem Partidos as enfrentaram abertamente. A noite mais tensa foi na
6ª. feira passada, quando se inicia a jornada de reflexão e a proibição a reuniões e
atividades políticas. Apesar de que os acampados manifestaram que ali não havia
propaganda eleitoral, a Junta Eleitoral Central resolveu desalojá-las. A reação foi
oposta, e aumentou a concentração nas praças, organizaram-se assembléias que
decidiram ficar, passe o que passe, e tirou-se a resolução: “Informamos que o povo
declara ilegal a junta eleitoral”.

Ninguém ousou desalojar as praças; nem mesmo a direita, pois sabia que ia ganhar as
eleições e o Partido Socialista não queria se afundar mais ainda na sua crise e dificultar
o embate eleitoral. Durante todos estes dias se expressou um duplo poder no país.
Mais de 60 praças de cidade importantes, às menores foram ocupadas com debates
reclamando democracia real, fim dos privilégios e, direitos sociais para todos. Hoje se
cumprem 140 anos da Comuna de Paris e o seu espírito está presente neste combate.

Estes protestos não nasceram agora, mas desde maio do ano passado, quando o
Partido Socialista, submetendo-se às multinacionais, ao Banco Central Europeu e
aos EUA impôs uma política de cortes sociais, redução de salários e demissões aos
empregados públicos, congelamento de pensões e aprovou uma reforma trabalhista
com a cumplicidade dos grandes sindicatos (CCOO e UGT), que flexibilizou mais
a contratação. Houve também cortes nos investimentos públicos, saúde e educação
que obrigaram os sindicatos a responder, levando às ruas milhares de pessoas. Em
Barcelona foram 120 mil.

Esta onda de indignação foi alimentada pelo processo na América Latina e pelas
recentes mobilizações nos países árabes. Todas as praças continham uma zona chamada
Praça Tahrir em homenagem à luta do povo egípcio. Outro setor se autodenominava
Praça Palestina ou Praça Islandia (pelo rechaço manifestado pelo povo islandês em dois
plebiscitos de assumir a dívida dos Bancos).

Estas mobilizações expressam a crítica aos Partidos tradicionais da esquerda que
abandonaram seus princípios, aos sindicatos que traíram a classe operária tentando
desmobilizá-la. O programa era claro e decidido contra o capitalismo. O sistema foi
pego de surpresa pelo duplo poder e não ousou reprimir para não piorar. Os furgões
da polícia em Madrid se mantiveram à margem. Os policiais diziam: “como vamos
reprimir, se temos os mesmos problemas de hipoteca, nos reduziram o salário e nem
chegamos ao fim do mes”. O movimento de massas sempre abala até os que têm a
função de defender o sistema.

A solidariedade que despertou este movimento em outras cidades da Itália, do resto da
Europa e América Latina, mostra a identidade dos jovens e povos na luta por “outro
mundo é possível!”

As assembléias já levaram muitos dias de atividades; a redução lógica das mesmas se
deve ao fato de que se estão descentralizando, indo aos bairros, universidades e fábricas.
É importante a visita que fizeram algumas empresas e a participação de tendências
combativas do movimento operário nas comissões. Isto dará uma estrutura mais sólida e
permitirá ao “Movimento 15 M” crescer e ganhar autoridade.

Mesmo que não se mantenha permanente este nível de participação, a experiência dará
segurança aos que a viveram. Ficará na consciência dos jovens que a ocupação das
praças forma uma disputa com os poderes e a estrutura capitalista e que aí se discutiram
as propostas e o programa para mudar a sociedade. Isto será decisivo para preparar as
próximas lutas. Acaba de ser convocada a 10ª greve geral na Grécia contra o aumento
dos cortes e privatizações. Houve greve geral em Portugal e mobilizações importantes
na Inglaterra, França e Itália. O sistema vaza por todos os lados.

Se o Caracazo ganhou a Chávez e grande parte do exército venezuelano, abrindo o
processo revolucionário no país e na América Latina, se a mobilização de 2001 na
Argentina conduziu o governo de Kirchner ao processo dirigido pela esquerda peronista
com ampla participação juvenil, como pensar que estas mobilizações se apagarão
sem deixar rastros? Isto vai se expressar em curto ou médio prazo e vai estimular a
vanguarda operária a seguir o exemplo da juventude, passando por cima dos aparatos,
das direções conciliadoras e, junto ao resto do povo explorado, marginalizado, vão
encontrar o caminho, as formas, os órgãos para aplicar o programa das transformações
sociais, para transformar a Espanha, a Europa e o mundo em uma Assembléia que
diga “Basta ao capitalismo!”, “Basta a pisotear nossos direitos e conquistas!”. Porque
todos os jovens junto à população saíram a defender a tranformação social, por uma
sociedade melhor.

As eleições passaram para um segundo plano nestes dias e, se a direita venceu através
do Partido Popular, foi porque o governo socialista lhe estendeu o tapete vermelho e fez
o trabalho sujo com as medidas neo-liberais aplicadas. Igualmente, assim que terminou
o escrutínio, os Bancos e a patronal saíram pedindo medidas mais profundas, fim ou
limitação da negociação coletiva, demissões livres.

A repressão de 27 de maio e a intenção de desalojar a Praça da Catalunha pelos Mosos
de Esquadra (a polícia autonômica cujo governo está nas mãos de Convergência e
União, a direita nacionalista) fortaleceu o movimento que se estendeu aos bairros e
cidade com uma grande força. A mobilização na praça Sintagma de Atenas recebeu
solidariedade de Burdeos, Paris e múltiplas cidades. Em Madri, na praça do Sol
se gritava: “Barcelona, não está sozinha!”. A policia chegou com uma equipe de
limpeza e destruíram e fizeram retirar todos os cartazes e palavras de ordem, além de
roubar equipamentos. A solidariedade logrou expulsá-la e os jovens reconstruíram e
retomaram o controle da praça.

É importante compreender o espírito, os objetivos que guiaram esta resposta de
indignação generalizada e a paixão, o sentimento, a dedicação, a vontade de luta e a
solidariedade que foram os eixos que permitiram que 10, 20 ou 30 mil companheiros
e companheiras pudessem discutir e intercambiar idéias e experiências em harmonia.
Porque sem paixão não há debate, não há defesa de idéias. Sem sentimentos não se
podem construir bases sólidas para um nova sociedade e sem solidariedade não há

futuro. Comprovou-se que nos Acampamentos das Praças, na América Latina, no Irã,
na luta dos países árabes, nas mobilizações na Europa e em toda a humanidade estão
presentes todas estas qualidades. A luta pelo socialismo está assegurada.

05 de Julho de 2011


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