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Grécia: A nova Academia de Atenas votou pela vida e contra a morte!
12 de julho de 2015 Artigos
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Referendo na Grécia:

 

A nova Academia de Atenas votou pela vida e contra a morte!

 

 

O “OXI”, o NÃO da Grécia é um terremoto, o eco da consciência profunda de todos os indignados da Europa. A humanidade inteira votou com Alexis Tsipras e o povo grego, driblando a Troika e o seu terrorismo midiático (que anunciava uma pequena diferença entre o “não” e o “sim”), dando um contundente gol de 61,3% a favor do NÃO contra a prepotência da União Europeia, do Banco Europeu e do FMI. Foi um “Basta!” à política imperialista e neo-liberal dos grandes chefes do capital, da ditadura financeira da Alemanha, Inglaterra e França, que impõem a forca, o suicídio ao governo e povo gregos (e aos países do PIIGs), para salvarem-se do naufrágio irreversível do capitalismo europeu e mundial.  Atiram ao mar os mais débeis para manter o seu barco à gala. Foi um NÃO a esta Europa unida do grande capital, e um SIM a uma nova Europa, àquela da dignidade humana, em uníssono com os ventos da América Latina, esta sim, dos povos, centrada na CELAC, Unasul, Alba, em bases revolucionárias e socialistas; por uma Europa unida por baixo, socialista, a dos trabalhadores, desempregados, aposentados que se rebelam contra os desumanos arrochos salariais, ajustes fiscais, pensões de morte, despejos e hipotecas, pura imposição da Troika, dos fundos abutres, e para sermos claros, do sistema capitalista em fase terminal; por uma Europa unida com a América Latina que conseguiu tirar o papa Francisco dos muros do Vaticano para revolucionar a Igreja católica, e reencontrar-se com a Teologia da Libertação. O renascimento grego, refletido neste referendo e neste contexto mundial, promete ser o início de uma insurreição europeia com novas direções, da estatura política do Syriza e Podemos.

 

O referendo, um ato político, democrático frente ao povo

 

Alexis Tsipras, este jovem primeiro-ministro de 40 anos(1) do Syriza, proveniente do Synaspismos, venceu as eleições em janeiro de 2015 com 36% de votos, aumentando a sua aprovação, 5 meses depois, no Referendo contra a Troika, para 61,3%.  A convocação deste Referendo foi um exemplo de valentia (pois se perdesse, Alexis Tsipras arriscava a renúncia), de decisão política de pôr em prática um processo democrático de consulta popular sobre o debate e as medidas de governo. A inspiração na revolução bolivariana da Venezuela está presente no novo projeto helênico. Mobilizar o povo, dado que o Syrisa deve ainda correr contra o tempo para formar organismos de poder popular.

 

A TV Pública grega que foi brutalmente fechada há dois anos pelo governo  pró-Troika de Antónis Samarás, e a decisão de Alexis Tsipras de reabri-la e usá-la, com decisão, dialogando com o povo, exercitando a democracia participativa sobre decisões de governo (não só chamando a um assessor ou outro a portas fechadas), explicando o sentido do NÃO, foi decisiva diante do terrorismo midiático da oposição, a intimidação da Troika contra o povo, ameaçando que o “Não” seria o fim da Grécia. A conduta e os resultados foram semelhantes ao de Hugo Chávez no referendo revogatório de 2004. A solidariedade internacional, de Telesul, dos Intelectuais pela Humanidade e toda a esquerda mundial, de presidentes como Maduro, Cristina, Evo Morales, Rafael Correa, Fidel, foram de grande peso. O mundo votou na Grécia. Na Espanha, onde se vive um processo de golpe econômico e social violento, sob a égide do direitista Mariano Rajoy, que pôs em vigência a Lei ditatorial chamada Mordaça(2), a esquerda, desde Podemos, Esquerda Unida, Agora Madrid, Iniciativa por Catalunha de Espanha se solidarizaram com a Grécia e anunciam grandes lutas na Espanha, diante das eleições presidenciais de outubro.

 

O pós-referendo ainda está por se delinear. Não foi ainda uma vitória, mas um golaço. Não está definida uma ruptura com a Europa do capital, mas um mandato para fortalecer a posição de negociação. Internamente, o governo de Alexis Tsipras saiu fortalecido com um forte apoio, inclusive da juventude. Dos votos ao não, 67% foram de jovens entre 18 e 34 anos.  Muitos rechaçaram a ambiguidade do KKE (Partido comunista grego) e confluíram no apoio ao “Não”. Parte dos votos ao “Sim” são oscilantes e produto da insegurança e do terror criado pela oposição sobre a catástrofe eminente, “o perigo da insubordinação à Troika, o caos de estar fora da Europa e da moeda única (Euro)”. Nada temos contra a moeda única, mas o Euro facilitou somente a circulação e concentração do capital dos grandes, nivelando-se tudo abaixo do ex-marco alemão. Na América Latina se consolida o sucre, mas baseado em economias que se unificam com soberania nacional, fortalecimento do Estado com lastro produtivo, destinado a investimentos sociais. Na realidade o que está em questão na Europa é o capitalismo. “O pecado da humanidade é o capitalismo”, bem dito por Evo Morales no giro do Papa na Bolívia.

 

Dimensão da crise grega e a questão da dívida externa

 

A política neoliberal anterior de  Georgius Papandreu (Partido Socialista), e de Antónis Samarás (Nova Democracia), subalternas às imposições da Troika, deixaram ao governo de Syriza, uma dívida externa que chega a 372 bilhões de Euro, ou seja, 185% do PIB. A dívida grega se avolumava enquanto se faziam empréstimos para comprar submarinos, helicópteros e navios de guerra, e se recortavam os benefícios sociais.   Anos sob a égide da ditadura financeira do FMI, do Banco Europeu e da União Europeia, a Grécia se encontra hoje diante de uma catástrofe: desemprego de 26,6% da população; 60% dos jovens sem trabalho; 5.000 suicídios nos últimos 4 anos e meio; 1037 colégios fechados; 8 a 15% dos hospitais desativados; redução de 40% na aposentadoria; fim do 13o salario. Em 2012 a idade para aposentadoria aumentou de 65 a 67 anos. Além de tudo, a Grécia vive outro drama que é a dos refugiados: a Grécia é o primeiro receptor dos imigrantes da Europa, mais do que a Itália. Nesta primeira metade do ano, dos 137 mil que chegaram à Europa, 68 mil à Grécia, provenientes do Oriente Médio.

 

Somente para ilustrar, as negociações prévias ao referendo, a situação era a seguinte: a Grécia propunha uma anistia parcial da dívida e extensão dos prazos em condições pagáveis. As discordâncias foram também sobre a imposição do valor do IVA que acarretaria um elevado custo de vida aos gregos já ao borde da miséria. A Troika exigia IVA de 13 a 23%; 13% para alimentos básicos, 23 % para eletricidade, cobrança adiantada de impostos sobre a renda (100% até 2016). Ao passo que o governo grego pedia 13% para a eletricidade, cobrança gradual e “imposto solidário”(3 a 4% para acima de 50 mil, 4 a 6% para acima de 100 mil anuais); 6% a medicamentos, livros e espetáculos teatrais; 26 a 28% sobre a publicidade na TV; aumento de impostos sobre bens de luxo, carro, iates, aviões e piscinas privadas. A Troika impunha eliminação do subsídio à gasolina para agricultores; redução de 400 milhões de euros em gastos militares, incluindo pessoal, mas a Otan mantém sua base aí, em Creta, e aviões de inteligência em Aktion. A Grécia é somente 2,5% do PIB europeu, mas é membro da Otan, com a vizinhança hostil da Turquia. Depois, previamente ao Referendo, tentando impedir a vitória do “Não”, o FMI destonou dentro da Troika e dizia que era melhor reduzir 30% da dívida grega e estender os prazos a 20 anos.(3)

 

Evidentemente, a questão não se reduz em cifras. As experiências sobre dívida externa são variadas e a solução não se reduz em pagá-las ou não. Além de tudo, a quem se deve? Aos rapinadores e sanguessugas dos povos? A Alemanha que exerce o maior poder político-financeiro e ditatorial, nunca pagou sua dívida total no pós-guerra de 45. O Plan Marshal reabsorveu parte da dívida. Na conjuntura atual, temos o exemplo do Equador de Rafael Correia e da Argentina de Nestor/Cristina Kirchner que enfrentaram, impuseram redução e recalcularam a dívida externa, e estão finalizando de pagar sem deixar de lutar contra a perversão golpista dos Fundos Abutres. A dívida argentina aumentou como produto das privatizações do governo passado, o de Menen e seu abandono dos planos sociais. O governo kirchnerista não resolveu somente com medidas financeiras, mas mudando a política econômica do país, reforçando o papel do Estado, renacionalizando empresas estratégicas, priorizando o investimento público em saúde, transporte, educação, energia, a favor dos mais necessitados. Da mesma forma, Rafael Correa, que negociou, ameaçando não pagar a dívida externa, e dando prioridade à mudança radical da economia com a “Revolución Ciudadana” com inclusão social, inclusive criando a nova moeda, o sucre.

 

Que rumo tomar

 

A Grécia não deve renunciar a dar uma resposta política aos problemas econômicos e sociais. Não se trata simplesmente de uma resposta técnica aos “técnicos” da Troika, à junta ditatorial. Não é um problema econômico, é uma luta política, de classes que deve confluir num programa de transição ao socialismo que só poderá ser defendido com uma Assembleia Constituinte e uma forte participação em organismos barriais, nas fábricas e escolas, nos hospitais, no campo, nos vilarejos, nas ilhas, etc..., recuperando o exército e as milícias, em e memória da forte resistência partisana contra o nazi-fascismo.

 

A Grécia, sendo industrialmente débil na cadeia europeia capitalista, nem tendo o suporte interno da economia argentina, ou do petróleo venezuelano, tem em contrapartida uma nova conjuntura internacional, com alternativas fortes como a existência do BRICs, das relações possíveis com a Russia e a China, Irã, Síria, Celac e Unasul. Uma decisiva cooperação econômico-política com estes países, recuperando o papel do Estado, com monopólio do comércio exterior, nacionalização dos Bancos, potenciaria um novo drakma, e o euro que se dane. Os chineses tem como ajudar o tráfego maritmo do Porto de Pireo caso os ricos armadores gregos boicotem. A Russia já prometeu 16 bilhões de dólares. O BRICs se está potenciando; acaba de decidir um Fundo de Reserva de 100 bilhões de dólares(4). É preciso olhar para esse lado, e não mais para o FMI; ajudar o governo e o povo grego na defesa da sua soberania. Até mesmo organizar brigadas de solidariedade na forma de turismo cultural revolucionário. A Grécia recebeu 24 milhões de turistas (muitos da China) no ano passado, mais do dobro da sua população. O turismo è 18% do PIB grego. Agora, todos os caminhos levam à Grécia. Mas, não há como salvar a Grécia se não se salva o resto da Europa, se na Espanha, nos PIIGs não se formam governos de esquerda, unidos com mecanismos político-econômicos de uma Federação Socialista dos países da Europa, a exemplo de Unasul e Celac. 

 

A Grécia está honrando sua cultura milenar

 

O povo grego votou contra a morte e a favor da vida! Honrou a sua própria história de cultura milenar. A inteligência da Grécia antiga, representada pelos filósofos, cientistas e pensadores da Academia de Atenas (Sócrates, Platão, Homero....), saiu das ruínas e voltou a iluminar o Partenon. A Grécia fez os “abutres” recordarem que esse patrimônio histórico não se toca; que a Grécia ideou e exercitou, há mais de 400 a.c., a “Democracia”, as “Assembleias” de Aristófanes.

 

Nestas horas, vem à luz, J. Posadas, dirigente marxista-trotskista, que rendeu escritos de inestimável valor sobre o significado histórico da Grécia antiga, analisando como ela, naquele momento, expressou através da arte, do teatro, do pensamento científico e das esculturas, o nível mais elevado da aspiração humana por um mundo melhor, harmônico, sem desigualdades, nem guerras. Era uma sociedade de classes e castas baseada no escravagismo, mas que por determinadas condições históricas, esta mesma casta expressou a possibilidade de relações sociais superiores. Naquele estágio da história de desenvolvimento das forças produtivas, pré-feudais e depois capitalistas, a Grécia sucumbiu diante da força militar dos romanos. Mas, J. Posadas formulou que esta necessidade da humanidade encontraria, no futuro, novas bases históricas para se materializar; poderia ser na Grécia, ou outro lugar. Quando surgiu a URSS (junto a outros países socialistas) valorizou-a como uma materialização desta necessidade.

 

Passado o período dos anos 90 da queda da URSS, o capitalismo internacional não se desenvolveu, caiu na lama da sua crise sistêmica, invadiu e destruiu países e, ao contrário, a Rússia, unida à China, tem recuperado a força econômica e peso internacional, político e militar. São elementos de socialismo na Rússia e na China, que não se perderam, e que se recuperam num processo contraditório, com componentes burocráticos, mas com uma decisiva política exterior de Putin, de enfrentamento à guerra imperialista, e de união China-Rússia alinhada com a defesa da humanidade, que terminarão pesando internamente em novas formas de participação democrática, cívico-militar. A Grécia, hoje, tendo sido retida como uma das cadeias fracas do capitalismo europeu, poderia sucumbir como a Grécia antiga frente aos romanos? Essa é a intenção nefasta da Troika. Esta situação poderá exacerbar a Otan, como o Pentágono já voltou a ameaçar a Rússia com o pretexto da Ucrânia. Mas a nova conjuntura internacional favorável à articulação do bloco anti-imperialista, dá uma esperança ao renascimento da  nova Academia de Atenas, à Syriza, ao povo grego e à humanidade.

 

Aqui vale uma consideração final. Se a Grécia pôde enfrentar à União Europeia capitalista, sendo uma população menor que a cidade de São Paulo, como não pode o Brasil superar as suas dificuldades e radicalizar as suas transformações sociais? Dilma, apoiada por Lula, deu um passo importante, assegurando a participação no BRICs que poderá reverter a favor do Brasil. Agora é preciso ter a audácia política de impor ao Banco Central a política monetária que favoreça a vida dos trabalhadores, romper com os ditames do FMI, opor-se à privatização da Petrobrás com unhas e dentes, combater a guerra midiática do anti-intervencionismo estatal, em nome da “sacrossanto” reino do setor financeiro contra a economia real. A Grécia, o “OXI” presentes no Brasil!

Comitê de Redação (5)

11 de julho de 2015

 

(5) Este artigo resume uma contribuição de ideias e correspondências de companheiros do Brasil, Europa, Irã, Argentina e Uruguai.

 

(1) Nasceu no dia 28 de julho de 1974, coincidentemente na mesma data de H. Chávez, 20 anos depois

(2) “A Lei Mordaça, na Espanha faz recordar tempos do franquismo” (Manuel Alfieri, no jornal argentino Página 12, de 4 de julho)

(3) Alguns dados com entrevista ao ex-ministro da Economia, Yanis Varoufakis foram publicados por Fernando Krakoviak, no jornal argentino Página 12, de 8 de julho.

(4) O Fundo de Reserva do BRICs vai ter um capital inicial de US$ 100 bilhões, com aporte de US$ 41 bilhões da China, US$ 18 bilhões do Brasil, da Índia e da Rússia, cada um, e US$ 5 bilhões da África do Sul.

 

Sugestões de leitura de recentes análises sobre a Grécia no:

 

http://www.cafenapolitica.com/a-vitoria-do-oxi-e-a-derrota-acachapante-da-midia-na-grecia/

http://limpinhoecheiroso.com/2015/07/08/thomas-piketty-alemanha-dando-licoes-sobre-pagar-divida-externa-e-piada/

 

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