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Gracias Cristina!
14 de dezembro de 2015 Artigos
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Neste inesquecível e histórico 9 de dezembro, uma maré gigantesca de mais de 700 mil argentinos preencheu com força e emoção cada canto da Praça de Maio, em Buenos Aires, inundando artérias adjacentes para despedir-se de Cristina F. de Kirchner e dos 12,5 anos da chamada “década ganha” de dignidade, soberania nacional e inclusão social. Variados movimentos sociais, que protagonizaram as conquistas destes anos, peronistas-kirchneristas, trabalhadores, sindicalistas, intelectuais, artistas, estudantes, mulheres, crianças, velhos, famílias inteiras, sob cartazes e faixas  de aprovação (“Cristina, te esperamos!”, “Gracias Cristina”) e também de ataque ao novo presidente (“Macri, processado e cautelar!” “Queremos 678”(*)) entre batucadas de tambores, muitas lágrimas, abraços para dar-se força para continuar a luta pelo conquistado, e resistir ao retrocesso,  com muitos cânticos de alegria: “Volver, vamos a volver !”. “Peron, Peron....!” Nunca, depois de Peron, houve mandatários como Nestor e Cristina que conseguiram recuperar a força do peronismo e reunir tanta gente, inclusive no fim do mandato. Algo inédito e de arrepiar! Nessa multitudinária manifestação, difícil de calcular,  entre 700 mil e, possivelmente, 1 milhão, foram buscar o verdadeiro bastão, o do mando popular, o legado de Cristina e Néstor Kirchner.

Após realizar um ato dentro da Casa Rosada em que inaugurou um busto em homenagem a Nestor Kirchner, com a presença de Evo Morales, dirigiu-se ao palanque exterior, junto ao povo, para dar seu último discurso presidencial. Na praça, todos apertados (“densidade demográfica”: 6 pessoas/m2), velhos e crianças, bebês, cadeirantes, em cenas inimagináveis de atenção coletiva para ouvi-la, compartilhando rádios de mão e celulares (dado que em algumas distâncias os alto-falantes não chegavam e a internet estava fora do ar). Não foi um adeus, foi antes de tudo um balanço do conquistado e uma projeção de otimismo, prometendo que a batalha política e social não terminou e que não depende somente de estar no governo. Uma mensagem que deixou é que a maior conquista destes anos foi o que ela denominou de “empoderamento popular” (poder popular), e que este deve continuar e crescer. A recuperação da memória e justiça pelos 30 mil desaparecidos foi o farol que iluminou todo o novo cenário, desde 2003, de independência econômica e inclusão social. Como muitos dizem: a chegada dos Kirchners foi como uma fênix que saiu das cinzas. O país se levantou dos anos tristes da ditadura, e do desastre econômico-social do neoliberalismo dos anos 90. A simbiose entre o discurso de Cristina na Praça de Maio e a multidão, foi algo para pensar e repensar em toda América Latina, hoje ameaçada pela onda reacionária. Um ato político de amor, agradecimento e compromisso mútuo de que a batalha pela dignidade não vai parar, só começou. Mesmo sem ter deixado ações precisas para o futuro político imediato, ficou claro, no discurso de Cristina, que o fim do seu segundo mandato não será o fim da sua carreira política.

Transcrevemos alguns dos principais trechos do discurso de Cristina Kirchner:

“Podemos olhar nos olhos das mães e avós da Praça de Maio, dos filhos, porque temos dado resposta à reivindicação histórica da memória, da verdade e da justiça; podemos olhar nos olhos dos trabalhadores para dizer-lhes que nunca os traímos; podemos olhar nos olhos dos cientistas e dizer-lhes que viemos reconhecendo os seus direitos; podemos olhar nos olhos dos trabalhadores da imprensa para dizer-lhes que nunca tiveram a liberdade como a que tiveram durante nosso governo. Podemos olhar nos olhos dos comerciantes, empresários e produtores; podemos olhar nos olhos dos professores, dos aposentados e dos jovens”.

“Nossa responsabilidade é muito maior porque construímos esta Argentina que estamos deixando, desendividada como nunca feito antes. Esta Argentina que deixamos com 119 netos recuperados; que deixamos com o exemplo ao mundo de que não há impunidade”. “Temos que ser mais maduros porque nós amamos a pátria, acreditamos no povo, no que realizamos; e como acreditamos no que realizamos, temos que ter a atitude positiva para contribuir a que essas coisas não sejam destruídas”.

Referiu-se também ao “vôo dos abutres”. Manifestou que está convencida de que há uma consciência nacional: “Não é uma questão ideológica, mas uma questão estritamente operacional, dirigida ao país e à economia.  ... Não venham com a história de que é preciso fazer tal ou qual coisa, porque quando Nestor assumiu estávamos com uma mão para trás e outra na frente; ninguém tinha um tostão; devíamos 166% do PIB. Mas, sabem de uma coisa? Se houve um homem neste país que soube construir autoridade e respeito para esta Casa Rosada, chamou-se Nestor Carlos Kirchner.”

Dirigiu-se também ao sucessor, Macri, dizendo: “a autoridade, não o autoritarismo, constrói-se conquistando o respeito e a confiança do povo” e, esta, “se consegue de uma só e única maneira: sem ‘fórmulas mágicas’, nem ‘alquimias raras’, nem ‘patentes de invenção para construir confiança popular e social’. A confiança se constrói quando cada argentino, seja qual for seu pensamento, souber que quem está sentado na poltrona desta casa (se refere à Casa Rosada) é quem toma as decisões e quando o faz, tem que ser em benefício das grandes maiorias populares.”

“Nunca houve, desde que existe o voto popular, um período histórico em que, ininterruptamente, um quarto governo constitucional assumiu o poder, após 3 períodos constitucionais”, e pediu que no futuro haja “um maior grau de democracia que alcance os três poderes do Estado”, referência feita ao chamado Partido Judicial (o do poder Judiciário). “Necessitamos que os poderes do Estado se democratizem e não sejam repressores da democracia, dos governos populares e muito menos do povo. Bem para lá das diferenças políticas, o fundamental é mostrar às pessoas o respeito à vontade popular”.

Terminado o discurso e ovações à companheira, presidente, o povo retornou devagar em direção ao Obelisco e outras diagonais do centro, com lágrimas nos olhos, sorrisos e com o cântico: “Volver, vamos a volver!” (Voltar, vamos voltar!). Lágrimas, não de derrota, mas de tristeza por despedir-se do mando de Cristina, que nestes 12,5 anos deu dignidade ao povo e teve a fibra de transformar a dor da perda de seu companheiro de vida e de luta, Nestor, na continuidade dos seus ideais a favor dos mais necessitados e da “Pátria Grande”. Ninguém queria ir-se, separar-se daquele momento militante, de união; os cafés estavam repletos, como se fossem mini-assembleias populares, cheio de brados e cantos de luta e pessoas acenando o “V” da vitória. Até chineses, na porta de um hotel, saíram em ovação e solidariedade com o punho em “V”. Enfim, o pesar é grande pela derrota eleitoral (por apenas 700 mil votos), mas o povo argentino, demonstra férrea coragem, persistência na luta, e organização, que já em tempos duros o levou  a domar Golias e “gorilas” de forma exemplar. Avós e mães de Praça de Maio continuam pressionando o novo governo a que não se dê uma passo atrás diante dos julgamentos dos crimes de lesa humanidade.

Vimos um povo de cabeça erguida e disposto a não retroceder um palmo na sua soberania e dignidade. Um grande exemplo ao Brasil onde os movimentos sociais, sindicatos, camponeses, partidos de esquerda, estudantes e artistas, já estão marcando a hora, no dia 16 de dezembro, para descer em campo na defesa da legalidade, contra o impeachment de Dilma Rousseff. Fala-se em todos lados da urgência do renascimento dos movimentos populares, novos debates e lideranças de base, num contexto de unificação dos povos contra a onda reacionária em toda a América Latina. Não há dúvidas de que este multitudinário “Gracias Cristina”, sinalizou mais que os 48,6% dos votos recebidos pela FPV: um duplo poder instalado na Argentina; e merece a atenção de que aí esteve presente também uma resposta à tentativa de golpe na Venezuela e Brasil, ao legado de Chávez e Lula. O 9 de dezembro, na Praça de Maio, não é um cartão postal, é uma realidade para o mundo conhecer e descer na sua profundidade e retirar a energia da esperança para já e agora, e não para um futuro distante.

10/12/15

Vejam vídeo da Manifestação, realizado pela Telam (Agência de Notícias da Argentina) (**)

http://www.telam.com.ar/notas/201512/129590-cristina-fernandez-de-kirchner-acto-plaza-de-mayo-militancia.html

 

(*) Vários cartazes contra o fim do Programa de debate político 678, de altíssima audiência, na linha oposta aos grandes meios de comunicação, Clarin e TN, veiculado diariamente na TV Pública, que agora sob direção do governo macrista, está ameaçado de extinção.

(**) Em breve estaremos emitindo vídeo-cobertura da TV Cidade Livre.

 

NOTA COMPLEMENTAR:

A posse de Macri, o baile e o karaokê no balcão de Peron

Macri, tomou posse no dia seguinte, 10 de dezembro, atropelando a legalidade constitucional. Apoiando-se no Fiscal Eleitoral e no Poder Judiciário, pediu uma cautelar para retirar Cristina,  à meia-noite do dia 9, a doze horas antes da passagem de mando e juramento no Congresso.  Toda uma manobra de natureza golpista, para satisfazer a prepotência e a vaidade de receber a faixa e o bastão presidencial na Casa Rosada (contra a constituição argentina), típica do poderoso que esfuma com a aparência o debate real dos problemas do país e do povo.  Cristina Kirchner, desta forma, poupou-se de presenciar ao vivo o ridículo da posse de Macri, principalmente no balcão da Casa Rosada (que Cristina e Nestor, preservaram em respeito à memória de Peron) onde se pôs a dançar com a faixa presidencial, sem emitir uma ideia de projeto de governo. Vejam o vídeo que circulou nas redes e que mostra quanta briga pelo bastão para nada:

Y ahora? Qué hago?: http://www.diarioregistrado.com/politica/136344-desconcertado-que-dijo-macri-apenas-tomo-el-mando-en-la-rosada.html

 

E quanta palhaçada,  pão e circo, para entreter e enganar os que lhe votaram.

 

El baile de Macri en el balcón_ http://www.diarioregistrado.com/politica/136337-un-pais-serio--el-baile-de-macri-desde-el-balcon-de-la-rosada.html

Mas, a manifestação multitudinária por Cristina, comparada com a pouco densa concentração de macristas na Praça de Maio, será uma ameaça eterna para este governo de duvidosa coesão “Cambiemos”,  que ganhou da FPV só por 700 mil votos e perdeu no primeiro turno para Scioli.  O aparente discurso conciliador de que “estamos todos unidos”, “estaremos sempre pela verdade”, é porque encobre a farsa e a mentira, e a verdadeira cara do seu projeto neoliberal para boa parte do seu eleitorado. Há que ver com que ritmo, além do aumento dos preços já em andamento, eminência de desvalorização da moeda, 8 bilhões de dólares de empréstimos de Bancos estrangeiros, e golpes na área midiática (já anunciadas na centralização de poder no Ministério das Comunicações), o retrocesso será factível. O Congresso com boa maioria da FPV e as manifestações populares inspiradas no dia 9 de dezembro por Cristina serão a frente de oposição a qualquer retrocesso.


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