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Homenagem a Jorge Amado e à função social da sua obra literária
07 de setembro de 2001 Edições Anteriores Notícias
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Nos unimos ao sentimento de consternação geral pela perda de Jorge Amado, escritor que soube trazer à cena principal da cultura brasileira os dramas, as tragédias e a sabedoria da gente simples e sofredora, dos trabalhadores em luta, dos oprimidos sem vez e sem voz. A Jorge Amado, à sua obra, à sua vida militante em defesa das transformações sociais, e à sua família, nosso mais profundo reconhecimento e respeito.

Sua biografia pode ser seguida e farejada numa procissão de lugares, países, prisões, prêmios, conversas. O ano que ele nasceu, 1912, mostrava ainda, uma Bahia encharcada de sangue. Tanto é que um ano de idade, no colo do pai, fazendeiro de perto de Itabuna, passou por uma experiência extraordinária: o pai foi baleado por jagunços e caiu no chão ferido, junto com o bebê. Era época em que o cultivo do cacau começava a substituir o da cana-de-açúcar. Mais tarde, cenas desse calibre se tornariam comuns em romances como Terras do Sem Fim(1943) ou Tocaia Grande (1984).

Para quem acompanhou a vida de Jorge Amado, sabe que desde os primeiros “romances proletários”, como Cacau e Suor”, os temas sociais e a política marcariam as suas obras, um compromisso formalizado mais tarde pela militância, durante mais de 20 anos, no Partido Comunista Brasileiro, pelo qual se elegeu deputado federal em 1945. Para muitos estudiosos, essas datas delimitaram também a “primeira fase” de sua literatura – uma fase em que Jorge Amado passa dos romances de rebeldia e denúncia para “romances proletários”, cada vez mais imbuídos de ideologia como nos “Subterrâneos da Liberdade”. Por causa dessa ideologia, em 1937, ele teve 1.694 livros queimados em praça pública, em Salvador e dois dias de prisão. A partir daí, não foram só os livros que sofreram perseguição. Amado foi preso por diversas vezes. Mas isso não impediu que se entregasse inteiramente à militância, nem que ele se transformasse num escritor brasileiro mais lido e publicado em várias línguas no mundo inteiro, incluindo a ex-Urss onde se venderam mais de 10 milhões dos seus livros. No ano1945 em que foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista e assumiu uma cadeira na Assembléia Constituinte instalada no ano seguinte, foram de sua autoria emendas sobre liberdade de culto religioso e sobre direitos autorais, assim como projetos que facilitavam a importação de papel para imprimir livros.

Sua ligação com o PC o levaria ao exílio, a viagens e à amizade com escritores como o russo Ilya Ehremburg e o poeta chileno Pablo Neruda. Mas a adesão à linha oficial stalinista daria origem a pecados políticos nunca revistos pelo escritor, entre os quais o despontar nos últimos anos de sua vida de um estado de decepção, de negação do socialismo, como consequência da crise de direção dos países socialistas e da Urss. Perder a confiança na perspectiva socialista demonstrava as limitações da sua formação política na escola stalinista que o fez perder a objetividade, como a muitos companheiros dos velhos partidos comunistas da Europa, que não compreenderam que as falhas e limitações burocráticas, e as pressões do capitalismo mundial que induziram à queda da Urss não invalidavam a justeza da inteira estrutura econômica, social dos países socialistas. Como Cuba, China e também o Vietnã continuam resistindo e demonstrando a solidez dessas estruturas como representantes do progresso humano e do caminho ao socialismo.

Apesar desse seu posicionamento político na última fase da sua vida, Jorge Amado não deixa de ter o seu valor pelo que criou em toda sua obra literária, pelo homem sem meias palavras, transmissor de rebeldia, idealista e criador de mundos, que poucos compreenderam; fez do verbo e do pensamento um veio de comunicação entre homens, não poupando esforços, na elevação do ser comum, esquecido, excluído e maltratado pela sociedade. Por isso rechaçamos a atitude hipócrita das elites que tanto censuraram as obras e as idéias de Jorge Amado, e que tanto se empenham na indecorosa tarefa de assalto aos cofres públicos para manter os personagens populares do escritor baiano na mesma situação de opressão, miséria e ignorância; a estas mesmas elites que planejam numerosas homenagens, lembramos que a maior homenagem que se possa oferecer a um escritor desta estatura universal é a permissão de que seus livros sejam finalmente lidos pela grande massa do povo brasileiro, que continua impedida de ter acesso aos bens da cultura, como a tantos outros bens da civilização.

Os governantes, aqueles sempre insensíveis à necessidade da democratização do acesso à cultura, aos livros, ou às peças teatrais e filmes baseados na obra Jorge Amado, e que agora serão pródigos em medalhas e outras homenagens ôcas , estão desafiados a darem o verdadeiro tributo ao talento e ao compromisso histórico do escritor baiano: que os livros de Jorge Amado sejam publicados na escala de milhões pelo Ministério e Secretarias da Cultura, distribuídos aos estudantes das escolas públicas, aos sindicatos de trabalhadores, às mais de 2 mil escolas dos assentamentos rurais e do MST, colocados em grande escala nas escassas e depredadas bibliotecas públicas e vendidos a preços populares! Que o exemplo de vida militante de Jorge Amado e sua obra sirvam de chamado às forças progressistas e democráticas para a necessidade inadiável de retirar o povo brasileiro desta situação de miséria cultural e informativa! Que os filmes baseados na obra do escritor comunista sejam projetados em escala nacional em sessões abertas ao público, em praças públicas, escolas, etc., para que a grande massa de brasileiros, proibida de comprar livros e de ir ao cinema, possa finalmente fazer a homenagem mais sincera e mais autêntica a um escritor do porte de Jorge Amado! Que as gráficas oficiais interrompam por um período a impressão de documentos e discursos de categoria duvidosa e dediquem-se à impressão dos livros que tanto projetaram a cultura e o povo brasileiro em escala mundial. Que os jornais e revistas usem um pouco dos generosos incentivos fiscais e favores creditícios recebidos do estado e publiquem encartes especiais com a obra de Jorge Amado para distribuição gratuita ao povo que não lê jornal, já que sequer consegue consumir alimentos, remédios e roupas. Jorge Amado não precisa de solenidades formais e vazias, nome de rua ou de praça, medalha ou placa. A grande homenagem que Jorge Amado merece é a de ser lido, finalmente, pelos milhões de brasileiros sem acesso à leitura, seja pela imposição da pobreza ou pelo analfabetismo, que devem ser urgentemente erradicados. O Brasil e sua sociedade injusta têm esta grande dívida para com o grande escritor baiano!


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