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Inglaterra após a tragédia em Manchester
05 de junho de 2017 Artigos
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Inglaterra após a tragédia em Manchester

 Jeremy Corbyn

A tragédia de Manchester e a reação de Jeremy Corbyn(*) e das forças políticas na Inglaterra

Após a tragédia de Manchester, houve 3 dias de luto, sem campanha eleitoral (**). Foi Jeremy Corbyn quem valentemente voltou a iniciar o debate nacional sobre as causas fundamentais do atentado provocado no salão de concertos da “Manchester Arena”, no dia 22 de maio. Hoje, 26 de maio, Corbyn advertiu na Televisão “as conexões entre as guerras que o governo britânico tem apoiado ou participado internacionalmente e o terrorismo interno dentro do país” (Telegraph News, Jack Maidment, 25.5.17)

O Ministro da Segurança, Ben Wallace, desacreditou o discurso, alegando que a ideia de qualquer vínculo entre a guerra no exterior e o terrorismo interior é “estarrecedor” e “grosseiro”. Não obstante não houve nenhuma avalancha de críticas contra Corbyn. Ao contrário, foi Katy Hopkins quem deixou imediatamente a LBC (1).

Apesar do deputado do Partido Trabalhista (“Labour Party”) de Bermondsey, Nick Coyle, ter criticado o que ele chama de má sincronização de Corbyn (pela sua declaração sobre Manchester logo após o ocorrido), este continua a fechar a brecha eleitoral. O prefeito Trabalhista de Manchester, Andy Burnham (seu rival na disputa pela direção do “Labour Party”) não se contrapôs a êle e defendeu a comunidade Islâmica de Manchester. O Ministro do Trabalhista do Governo “Sombra” na área do Comércio Internacional, Barry Gardiner, defendeu imediatamente “o momento oportuno” e a lógica de Corbyn (2).

O sistema capitalista tem formas concretas que são: a maior parte dos meios de informação, os dirigentes principais da igreja estabelecida, a primeira ministra, o partido Conservador (os Tories), a rainha, etc... Todos eles (3) manifestaram sua determinação em “defender nossa forma de vida” diante dos acontecimentos em Manchester. Não há dúvidas de que indivíduos tais como Salman Abedi (4) são responsáveis por suas ações, mas a Inglaterra é responsável também por suas ações. É responsável pelos milhões que mataram no mundo, pelos milhões que mutilaram e converteram em refugiados.

Hoje, Jeremy Corbyn disse aos que estão no poder, de que eles são responsáveis pelas consequências das suas guerras. Ele não se serviu dos acontecimentos em Manchester para uma vantagem de Partido ou para proveito pessoal como insinuam seus opositores;  ao contrário, teria muito a perder se ousasse algo semelhante. O que alarmou o senhor Ben Wallace foi que agora, Corbyn iniciou um debate nacional sobre quais são os “nossos valores” no país e – horror dos horrores – no próprio Partido Trabalhista onde a esquerda faz campanha com grande paixão.

Agora, a burguesia e a imprensa estão investigando cada aspecto do passado de Corbyn: seus melhores desejos para uma Irlanda Unificada; sua oposição à ocupação da Irlanda por parte da Inglaterra; seu apoio a Bobby Sands (5); e sua reticência ao apertar qualquer “botão” antes de fazer consultas (6). Jeremy Corbyn, conhecedor dos seus inimigos, desenvolveu argumentos bem pensados e convincentes contra o inaceitável conceito de “uma forma de vida” baseada no saqueio e na subjugação do mundo. Em campanha eleitoral – quando o apoio a Jeremy Corbyn continua aumentando – este discurso incidirá, sem dúvidas, no aumento de votos. Mas, em perspectiva, o benefício mais importante é que os debates sobre princípios poderá agora recomeçar no Partido Trabalhista (Labour Party) (7).

O melhor tributo que poderia ser outorgado aos 22 mortos e 64 feridos em Manchester é esse que foi dado por J. Corbyn: a verdade. Em julho de 2010, a Baronesa Manningham-Buller, antiga chefe do MI5 (8), disse acerca da guerra no Iraque: “o Iraque aumentou consideravelmente a ameaça terrorista ao Reino Unido com a radicalização da juventude”. Este fato foi sempre um tabu no país, desde 2003. Por vários anos, Tony Blair utilizou as estruturas do Partido Trabalhista (onde ainda tem postos) para impedir que o Partido rompa oficialmente esse tabu dentro dele. Hoje, o discurso de Corbyn rompe uma grande parte desta restrição. Será difícil por parte do aparato do Partido retroceder esta situação. No Partido Trabalhista, aumenta a possibilidade de rechaçar de forma permanente e, por princípio, o imperialista Tony Blair.

Apesar de todos os ataques contra Corbyn, a burguesia está na defensiva. Se não fosse assim, Tony Blair (9) teria caído encima de Corbyn com uma tonelada de tijolos. Depois de Manchester, Blair ficou calado. Por outro lado, altos dirigentes trabalhistas como Barry Gardiner apoiaram Corbyn cuja autoridade cresce; o povo vê que ele questiona a Justiça, com coragem e ideias, e qualidades respeitáveis; e vê também o vazio moral, político e humano da Primeira Ministra, Thereza May, do Partido Conservador.

J. Corbyn assumiu o risco de piorar suas chances eleitorais ao decidir contra-atacar desta forma, mesmo com a guerra que lhe faz a grande mídia. Não obstante, ele continua ganhando apoio. A tentativa de desacreditá-lo funciona cada vez menos. Ele ganha votos através da expressão da simples verdade. Poucas horas antes dos acontecimentos em Manchester, a burguesia já o estava culpando por seu suposto apoio ao IRA (10). A ideia era de apresentá-lo com uma imagem suspeitosa por terrorismo. É estranho que os acontecimentos em Manchester ocorreram somente poucas horas depois.

Através da defesa da verdade sobre a razão pela qual houve tantos mortos em Manchester, Corbyn rendeu uma homenagem objetiva de solidariedade e justiça que o momento requeria. Em Manchester, a massa de cidadãos rendeu, de boa fé, seu tributo às vítimas do atentado; mas o rituais dos que estão no poder demonstraram uma perplexa incompreensão, misticismo, mentalidade retrógrada, subjetivismo e medo.

Crise interior do sistema global do capitalismo

A deterioração das relações entre os serviços secretos dos Estados Unidos e do Reino Unido não é algo novo (11). Estas pioraram com o passar do tempo; têm sua origem na atitude “cada qual por si mesmo” de um regime “global” que não pode assegurar o progresso humano para todos e em todas as partes por igual. Isto indica o aumento do nível de concorrência intercapitalista – assim como quando Trump insta a cada país capitalista da Europa a contribuir com 2% do Pib para a Otan. A sua decisão de retirar os EUA do acordo de Paris contra a mudança climática, forma parte das divisões fundamentais dentro do campo imperialista; pouco a ver com o clima, mas sim com a guerra. A autoridade da China não é tanto pelo clima, mas pela sua capacidade de fazer recuar o capitalismo no seu próprio campo de mercado. Neste momento, o capitalismo mundial está à beira de atacar a Rússia e a China. A situação de guerra agora não pode retroceder. As forças militares opostas estão posicionadas. Isso só pode confluir numa guerra total. O sistema capitalista necessitaria pelo menos de uma unidade entre os EUA e a União Europeia, e com o Japão e a Índia. As guerras imperialistas como a contra o Kosovo em 1995 foram para impor a direção militar ianque na Europa. Uniram-se militarmente, mas não economicamente. Nesse campo, continuam competindo cada vez mais; como agora na questão climática são lutas entre setores fundamentais do capitalismo, não país por país, mas a nível global.    

Agora, com “França first”, “Inglaterra first”, “Ämérica first”, é uma desorganização e incapacidade para a guerra total que iniciaram. Trump é prova disso. Nas eleições, a burguesia manobra as opiniões públicas, mas o capitalismo não tem uma cabeça centralizada. Portanto, as pessoas votam como podem, frente à anarquia do capitalismo. E tudo sai ao contrário, como na guerra no Afeganistão, 2/3 do país está fora do controle do governo que inventaram.

Soldados armados apareceram, pela primeira vez, pelas ruas da Inglaterra. Isto é para espantar as pessoas e afastá-las de Corbyn e preparar uma futura repressão de greves e manifestações. Esta poderia ter sido a intenção do governo Conservador desde o princípio, em meio à campanha eleitoral. Mas as pessoas não temem. Ninguém na direita, e no âmbito burguês, desafia adequadamente as ideias de Corbyn. Este, dirigiu-se aos soldados no seu discurso, dizendo-lhes que não desejava que eles fossem enviados no futuro a uma situação irreversível como na guerra do Iraque.

As pessoas sentem que a mudança social é necessária e há reuniões massivas em apoio a Corbyn, particularmente entre os jovens. Bernie Sanders está em Londres, falando em grandes reuniões organizadas pelo Momentum (12) e outros setores da esquerda trabalhista. O programa eleitoral de Corbyn inclui 3 nacionalizações: água, ferrovias e correio; em boa parte é semelhante ao que defendeu Sanders.

Por que apoiar a J. Corbyn nestas eleições?

Um apoio maior a favor de J. Corbyn depois desta crise é a homenagem correta a render às vítimas de Manchester. As eleições devem ser uma oportunidade para questionar abertamente a política exterior assassina do país. Como foi demonstrado pela tragédia dos que pagaram com suas vidas em Manchester, a política exterior da Inglaterra deve mudar. Basta de guerras imperialistas e de “relações especiais” (13)!! Urge uma mobilização internacional imediata para resgatar os 60 milhões de refugiados atualmente deambulando pelo mundo, pressionados pelas guardas de fronteiras, afogando-se nos oceanos, morrendo no pó, como animais perdidos.

Vejam como “a nossa forma de vida” consiste em esmagar populações e os países menos desenvolvidos. Até este momento esta é a “nossa forma de vida” e o nosso meio de vida! Até agora, a manutenção dos “nossos valores” e da “liberdade” tem sido sinônimos com a liberdade de saquear o mundo com impunidade. Agora, nem o mundo, nem a massas da população britânica querem continuar assim.

Londres, 1 de junho de 2017

(*) Jeremy Corbyn é líder do Partido Trabalhista (Labour Party) e líder da oposição na Câmara Baixa. Após os recentes atentados terroristas de sábado 3 de junho J. Corbyn fez novos pronuncidamentos. Veja no http://www.hispantv.com/noticias/el-reino-unido/343504/corbyn-conversaciones-arabia-saudita-apoyar-terroristas

(**) No dia 8 de junho há eleições legislativas para a chamada Câmara Baixa do Parlamento na Inglaterra.

 

 (1) Uma mulher da extrema direita que teve que deixar o seu posto na LBC, London Broadcasting Company.

(2) Isto é importante porque estes são 2 líderes trabalhistas centristas que apoiam Corbyn ao invés de atacá-lo como antes. Os meios hegemônicos o buscaram imediatamente depois de Manchester para utilizar sua opinião.

(3) A rainha expressou seu pesar.

(4) Oficialmente citado como o autor do atentado em Manchester. Diz-se que se matou no ato.

(5) Bobby Sands morreu na greve de fome dos detidos numa prisão na Irlanda do Norte, 1981.

(6)  Referência a acusações de que Corbyn não está disposto a defender o país nuclearmente.

(7) No Partido Trabalhista, devido a uma campanha “contrária ao anti-semitismo”, o tema do imperialismo e da função de Israel não pode mais ser discutida, pelo momento.

(8) Um dos serviços secretos do Reino Unido. Esta é um informação pública.

(9) Este fala de “voltar à política”, mas já não pode. Nem sequer a burguesia o quer.

(10) Rebeldes da Irlanda do Norte – Tudo indica que não funciona mais.

(11) Referencia a documentos confidenciais da policia britânica publicados nos EUA. Os EUA também publicaram o nome do suspeito (Manchester) antes da polícia britânica.

(12) Momentum – é uma organização de esquerda que se organizou na base do Partido Trabalhista em 2015. Possui 20.000 membros a nível nacional. Na campanha atual para que Corbyn ganhe as eleições, Momentum se mobilizou como nunca outra organização fez para que o Partido Trabalhista vencesse.

(13) Amizade Especial: até agora entre Inglaterra e os EUA.

 


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