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Marcha pela democracia em Brasília
18 de dezembro de 2015 Batalha de Ideias
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25 mil corações valentes

Às cinco horas pelo horário de verão, em frente ao estádio Mané Garrincha, o gramado verde e salpicado pelas estrelinhas brancas do amável capim-estrela remanescente do cerrado está colorido pelo vermelho das camisetas e bandeiras dos manifestantes da grande marcha pela democracia em Brasília.  Muitos almoçam, tardiamente, saboreando o substancial conteúdo das quentinhas distribuídas pelos organizadores, à sombra fresca das árvores. Crianças de camiseta vermelha brincam com as bandeiras e colam adesivos, de cabeça para baixo, nas perninhas nuas.

No alto do carro de som, representantes de sindicatos, federações de trabalhadores da cidade e do campo, partidos, movimentos sociais, parlamentares, conclamam à defesa da democracia, das instituições do país, dos direitos dos trabalhadores, tão duramente conquistados, agora sob a ameaça dos golpistas. Repetem-se as palavras de ordem Fora Cunha e Fica Dilma, com a ressalva de mandar embora também Levy e seu ajuste fiscal.

O único carro de imprensa é da TV Record, mas muitos participantes registram o evento em seus próprios celulares, câmeras e gravadores. O Jornal Popular é distribuído, e também panfletos. Um cantador acompanha ao violão seus versos inspirados; canta-se o Hino Nacional.

Forma-se uma ciranda, ao som de Yo tengo tantos hermanos, de Atahualpa Yupanqui, que a multidão não consegue cantar, nem em portunhol; poucos acertam o passo da ciranda, mas a roda se abre, a dança se faz, a alegria ilumina os rostos dos manifestantes.

O coração valente da jovem guerrilheira que desafiou torturadores transparece dos olhos firmes que agora enfrentam outros algozes, mas têm multidões em todo o país para apoiá-la e defendê-la. Dilma está nas camisetas, mas também se vê o rosto glabro de Marighella, as barbas do Che e de Honestino Guimarães.

Houve, pela manhã, uma grande dança de povos originais em volta das cúpulas da Câmara e do Senado, para afastar a PEC 315, que coloca a demarcação das terras indígenas nas mãos do Parlamento e ao alcance da bancada ruralista. Agora vieram apoiar a marcha. Estudantes e jovens de todo o país estão realizando a Conferência da Juventude, ao fim da qual a marcha sairá do Mané Garrincha rumo ao Congresso.

Os carros de polícia vigiam, a uma distância correta, com as fileiras de soldados usando capacetes modelo nazista, escudos transparentes e longos cassetetes. Helicópteros sobrevoam, intermitentemente, a massa vermelha. Um jovem vestido com a camiseta do MST recolhe lixo em um saco, poupando, cuidadosamente, bandeiras, jornais e panfletos.

Chegados os jovens companheiros que encerraram a Conferência da Juventude, o carro de som começa a pedir que seja liberada a passagem para o Eixo Monumental. A maré do trânsito divide-se, deixando livre o caminho para a onda vermelha que ganha a avenida. Ao lado das três pistas ocupadas pela marcha segue o fluxo de carros, passando às vezes muito rápido e perto demais dos manifestantes, mas há buzinas intermitentes, braços e bandeiras vermelhas erguendo-se das janelas. O carro da polícia administra a manutenção de uma orla de segurança entre manifestantes e trânsito de veículos.

Os grandes balões vermelhos da CUT que abrem a marcha estão chegando ao Setor Hoteleiro Sul e o carro de som pede que caminhem mais devagar, pois ainda há gente saindo do Mané Garrincha. A música é interrompida para anunciar que o Procurador Geral da República pediu o afastamento de Cunha, rendendo uma entusiástica ovação dos manifestantes

Vou e venho em ziguezague para estimar a largura da marcha e me decido por cinco metros. Depois de idas e vindas ao longo do cortejo avalio a extensão em um quilômetro, o que dá uma área de cinco mil metros de marcha vermelha. Para uma densidade média de cinco pessoas por metro quadrado, o número de participantes da marcha em defesa da democracia em Brasília pode, seguramente, ser estimado em 25 mil.  O carro de som anuncia mais de 20 mil, mas confio em meu próprio método.

 A noite caiu sobre a cidade e as luzes dos dois helicópteros continuam a sobrevoar a marcha, como libélulas noturnas, coloridas e ameaçadoras.

Jovens casais empurram seus carrinhos de bebê e veem-se também cadeiras de rodas seguindo rumo ao Congresso Nacional. Ambulantes misturados à marcha fazem bons negócios, vendendo água, refrigerantes, picolé, pipoca, pamonha, até cerveja enquanto se avança ao longo do Eixo Monumental. Um cortejo de carros de polícia e um carro de bombeiros acompanha a marcha e deixa para trás um caminhãozinho de manifestantes, que leva faixas e bandeiras.

No carro de som, sucedem-se as vozes entusiasmadas dos oradores, que enfatizam a necessidade de proteger as conquistas democráticas do povo brasileiro, de defender as instituições do país e comemoram a união da esquerda. Falam Consulta Popular, PT, PCdoB, PSol, representantes de trabalhadores da cidade e do campo, um professor universitário, movimentos de jovens, mulheres, negros, indígenas, mulheres negras, mulheres amazônicas,  Hip Hop, LGBTT.

O carro de som posta-se em frente ao Congresso, já sob o dente branco e brilhante da lua crescente no fundo escuro do céu, enquanto a massa vermelha estende as bandeiras e faixas nas encostas e desce para o gramado. A compacta linha de soldados diante do lago construído por ACM para afastar manifestantes caminha para a direita, onde se concentram mais manifestantes, mas não fica mais rarefeita. Uma estimativa superficial dá conta de uns quinhentos policiais na borda do lago.

Apesar do calor, de início ninguém entra na água, mas afinal um grupo de jovens decide erguer sua grande faixa vermelha de dentro do laguinho. Aparece outra faixa e mais alguns entram na água rasa. Canta-se ainda o Hino Nacional, continuam os pronunciamentos no carro de som. Uma corpulenta mãe de família conta os membros de sua prole.

Às 22.15, meu corpo sexagenário começa a fraquejar e decido abandonar a marcha, que acompanho há cinco horas. Caminho pela calçada dos ministérios e já perto da Catedral paro de ouvir o carro de som, ou porque atingi o limite do seu alcance ou porque a transmissão sonora se encerrou. Sigo até à Rodoviária e tomo o ônibus de São Sebastião, que leva só 15 minutos para me deixar em casa.

Neste 16 de dezembro de 2015, 25 mil corações valentes defenderam, em Brasília, a democracia e um mandato respaldado por 54 milhões de votos.

 

Betty Almeida

Brasília, 17 de dezembro de 2015


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