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O SIGNIFICADO DAS CANÇÕES REVOLUCIONÁRIAS NA NICARÁGUA E DE “ALI PRIMERA” NA VENEZUELA
01 de setembro de 2004 Edições Anteriores J. Posadas
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27 de julho de 1980

J. Posadas

Uma maneira para medir a profundidade do processo revolucionário na Venezuela está na presença das canções de Ali Primera em todas concentrações de massa, cantadas de modo comovido por Hugo Chávez em coro com a multidão. O sentimento revolucionário requer várias formas de expressão e o canto e uma delas, elevando a decisão e a comunicação revolucionárias entre as massas proletárias. Para refletir sobre o papel das canções junto à tradição revolucionária da América Latina, publicamos extratos deste texto de J. Posadas e convidamos todos os movimentos revolucionários e artistas da luta a uma maior integração do canto nas atividades, como bem faz Hugo Chávez.               

            Estas canções são das primeiras criadas pelos sandinistas; há algumas que vêm da época de Sandino (1), outras foram feitas em plena luta, e outras logo depois da tomada do poder. As mais recentes têm todo o ímpeto, a força, a resolução da revolução nicaragüense; e isto também se expressa nos temas escolhidos. São todos temas da luta coletiva, da luta pela terra, da guerrilha, da função de Sandino, de quem eles dizem ser continuadores. No sentido histórico pode se considerar que eles são continuadores de Sandino. No sentido concreto, não. O programa concreto já não é o mesmo. Hoje, já existe um programa de transformações sociais, que não é o programa de Sandino. Não se contrapõem, mas não é o mesmo programa de Sandino.
A luta de Sandino não tinha o mesmo alcance que a atual, seu objetivo era expulsar os ianques. Era um movimento que tinha como objetivo a libertação nacional, mas que ia – irremediavelmente – rumo à revolução social. O objetivo programático de Sandino, bem como o dos mexicanos de sua época, era o da libertação nacional, ou seja, expulsar o imperialismo. Estas canções mantêm vivas as recentes experiências da revolução nicaragüense, e a força da revolução nicaragüense. As letras são mais expressivas que a música.
O aspecto essencial dessa comunicação feita através da canção, é sua força. Quando se consegue coordenar a canção com os objetivos da revolução, é porque esta tem força intelectual, cultural, ainda que não tenha partido, e ainda que eles não tenham os meios militares. Têm a segurança na cabeça de que são capazes de fazer tudo.
Estas canções expressam também, uma atitude um tanto genérica – não ingênua, ainda que tenha aspectos de ingenuidade – da revolução nicaragüense. O que é lógico, porque não há Partido, nem sindicatos, o peso proletário é mínimo; não se pode contar com uma tradição de lutas proletárias, porque não existem. São quase 50 anos ininterruptos de assassinatos feitos pelo Somoza, e de inexistência de vida sindical. Então, é lógico que a canção reflita esta situação.
O que vale e determina a qualidade das canções é a vontade de derrubar o poder imperialista, burguês, e transformar a sociedade. Na canção, não desenvolvem o programa de transformações sociais, mas isto está presente na declaração que fazem em uma delas, de que querem fazer como no Vietnã. São pequenas revoluções, pequenas pela importância econômica e política, mas que adotam o programa das grandes revoluções. Por isto, no seu desenvolvimento e, nas suas canções, tem que expressar-se o pouco peso da força decidida do proletariado. Isto se expressa na linguagem, nos objetivos declarados e no desenvolvimento do processo revolucionário.
E nota-se a ausência do proletariado, porque não há a segurança, a firmeza de apoiar-se em idéias, programa e política. Eles falam de mudanças, de melhoras, de terra para todos, mas em 1980, se completam 63 anos da Revolução Russa, ou seja, já existe uma experiência, e a do Vietnã também. O Vietnã ganhou a guerra porque se apoiou e desenvolveu o programa do socialismo.
Esta forma ainda pouco profunda da revolução nicaragüense se expressar não é uma debilidade, nem empirismo da revolução. Eles estão aprendendo a dirigir a revolução. Estão aprendendo, e é necessário ter em conta que não tinham Partido, que todos os revolucionários eram mortos; estão aprendendo e aprendem rapidamente. Mas sentem a necessidade de incluir a canção como parte deste aprendizado. Por isto, a ingenuidade que expressam não é a ingenuidade comum da pessoa ingênua, mas da vontade de mudar, sem ter ainda assimilado o método, porque falta o Partido. Portanto, têm que construir o Partido. É desta falta de Partido que vêm aspectos que parecem ingênuos ou superficiais.

 

A influência de Sandino na América Latina 

            Mas, por outro lado, mostram toda sua resolução nos temas que falam da vontade, da coragem, da decisão revolucionária de mulheres, mães, crianças e homens e nos temas que falam que querem mudar a sociedade e que estão aprendendo. Então, não se pode analisar criticando uma direção que está aprendendo a juntar as diferentes correntes e construir um centro dirigente que se meta e saiba dirigir a influência da revolução mundial; desde a experiência da Revolução Russa até a firmeza atual dos soviéticos, do Vietnã, de Cuba, que influem na Nicarágua. Uma comparação simples é ver estas canções e por outro lado a recente comemoração do aniversário da revolução sandinista, com a presença dos vietnamitas, cubanos e angolanos.
Sandino, como diz a canção, “não era um homem de origem culta, mas que se tornou culto”. Era necessário que se construísse como homem culto. Também dizem que “não era um militar, era um poeta”, e se fez militar. As balas que atirava não matavam, elas criavam. Eram balas dirigidas a limpar os obstáculos para o progresso da história. Então, cada tiro era um tiro de progresso, e não um tiro de morte. Ele era um poeta e se tornou também militar. A canção diz, por outro lado, que “não era inteligente, e ficou inteligente na montanha”. A necessidade fez com que ele ficasse inteligente. E não só a necessidade, mas a vontade de servir a esta necessidade.
Ainda que os antecedentes da vida de Sandino não sejam determinantes para hoje, são muito importantes. Por exemplo, ele se chamava Augusto César; nomes dos dois mais importantes e progressistas imperadores de romanos. Chamar-se Augusto César no país das bananas, na América Central, mostra que ele vem de um ambiente com certa organização e tradição cultural, de uma família com certa preocupação cultural. Sandino foi muito valente: na sua época, eles lutavam sem nada, fabricavam as balas e faziam frente aos ianques que tinham todo o seu poderio militar. E não foram vencidos pelos ianques, mas devido à traição dentro do próprio movimento, que afrouxou.
O movimento de Sandino, se deu por volta de 1927, na mesma etapa dos radicais na América Latina, no Uruguai com Battle Ordoñez, na Argentina com Hipólito Irigoyen (2), na Bolívia, no Chile e no Brasil, onde o processo depois continuou com Vargas.  Foram todos impulsos que vinham da guerra anterior  da Revolução Russa, e a guerra possibilitou a Revolução Russa, e esta estendeu sua influência sobre a América Latina. E a Nicarágua e Sandino tiveram influência na América Latina. É necessário ver, também que a Nicarágua tem um dos poetas mais elevados da América Latina e, em parte, do mundo, que se chama Ruben Dario (3). Ele tem poesias muito profundas e muito humanas. O que mostra que a Nicarágua não era somente um país atrasado e ponto final, mas já contava com esses antecedentes; tinha Ruben Dario e Augusto César Sandino. Ruben Dario estabeleceu as bases para Sandino. 

 

A tradição do canto na América Latina 

            Uma das expressões desta vontade e harmonia dos povos atrasados que buscam o progresso – atrasados, mas com certas bases culturais, ainda que restritas a pequenos setores da pequeno-burguesia – é uma das canções em que o pai diz ao filho que tome o fuzil e o violão, e que “aponte, dispare e cante”. Une a função da guerra com a do canto. Não tem o propósito de matar, assassinar ou destruir; pois mesmo matando, se é para o progresso, não está destruindo. Liquidar o nazismo e a burguesia não é destruir, é ordenar as formas de vida, eliminando aquilo que trava o progresso. Estas balas não destroem, são balas cheias de harmonia  de carinho que são utilizadas para construir o progresso e são usadas junto com o violão e o canto.
Na América Latina, há uma tradição muito grande do canto desde as guerras da independência. Primeiro, contra os espanhóis, portugueses e ingleses e, depois, contra os ianques. Essa é a origem. Aí se criou todo um movimento de canções.
No começo de uma dessa canções, se ouvem pássaros, dando uma imagem do peso que tem a natureza na Nicarágua. A Nicarágua é uma selva. Quase toda a América Central é uma selva. Nos limites sul e norte da Nicarágua, também é selva; ainda que sem tanta concentração de cores, árvores, do conjunto da vegetação. Aí é menos denso. As florestas da Nicarágua, assim como as do Brasil e do Paraguai são belas e cheias de milhões e milhões de cores, de trinados de todos os tipos de pássaros. E esta canção começa assim, não somente para representar as florestas da Nicarágua, mas também para mostrar que a ação dos guerrilheiros incorpora a melodia da canção do pássaro. É por isto que logo em seguida do canto dos pássaros, vem a canção.
A concepção genérica a que nos referimos antes, se expressa através das canções, quando elas caracterizam o inimigo; não dizem “a burguesia” ou “os explorados”, dizem: “Os ricos, que chegam ao seu fim”, “todos os dias os ricos roubam nosso pão”. Usam uma linguagem de caracterizações que mostra a ausência de uma qualificação de classe. Mas o que determina neles não é esta insuficiência, mas a resolução de transformar a sociedade; e depois, vão aprender o resto. Pois apesar de tudo, eles não deixam de dizer: “Trabalhadores ao poder!”.

 

“Semearemos o amor na cicatriz da lembrança” 

            Há canções muito sensíveis e emocionantes que contam sobre as mulheres que foram torturadas e gritavam de dor, mas diziam: “Não vimos ninguém”. Relatam as matanças de centenas de mulheres e que nenhuma delas abriu. Torturavam as crianças de 8 a 12 anos, e elas não falavam e somente diziam: “Não vimos assar ninguém”. Há uma figura poética muito bela: “Semearemos amor na cicatriz da lembrança”. O passado de assassinatos, matanças, será superado com o desenvolvimento harmonioso, amoroso da sociedade. Não com o sentimento de vingança, mas com o desenvolvimento do progresso. E tinham razão de sobra para querer vingar-se. Isto se vê por esta canção das mulheres, onde relatam matanºas atrozes, como era sta de jogar dos aviões, no meio da selva, as crianças que se negavam a dar informações à ditadura.
A ditadura de Somoza foi das mais assassinas da história. Eles invadiam povoados de mil, dois mil habitantes, e diziam que iam vacinar a população contra gripe ou outras doenças, e matavam todos, porque eram povos que protegiam os guerrilheiros. Primeiro Moncada e, depois, Somoza, criaram uma equipe gigantesca de assassinos; foi por isto que esta ditadura pôde sustentar-se por 40 anos, protegida pelos ianques, sem os quais os Somoza não poderiam manter-se. Mas, agora, ficou evidente a fragilidade desta ditadura, que não tinha raízes na economia e na sociedade; não tinha força histórica; tinha somente armas, e mesmo assim, caiu muito facilmente. Caiu e foi derrotada pela população que não tinha armas; tinha revólveres e armas que eram tiradas dos soldados da ditadura; e que vinham também de militares que desertavam e davam armas aos guerrilheiros.
Na marcha do movimento guerrilheiro, foi se organizando a direção política. Antes, havia uma grande luta política, entre grupos, tendências, dentre os quais havia grupos trotskistas; mas não havia movimentos de massas; agora é que se estão formando. É preciso lembrar que quase 90% da Nicarágua é de analfabetos, não há hospitais, nem transportes, nem água encanada, nem serviços higiênicos. E fizeram a revolução assim mesmo com a primeira preocupação de eliminar o analfabetismo. Propuseram-se a eliminar o analfabetismo em um ano.
Toda esta repressão que a canção descreve, tinha o objetivo de esmagar, de intimidar, e mesmo assim, o povo se levantou: camponeses, homens, mulheres e crianças triunfaram. Foi resultado da influência da relação de forças mundiais sobre a Nicarágua; a influência da revolução vietnamita e – através dela – do conjunto da revolução mundial. E esta canção que diz: “É preciso mudar a história. Vamos te que fazer isto, porque um povo que vai à vitória, ninguém pode deter”. Isso mostrava que não se intimidavam com nada. E unem a natureza à sua luta, por exemplo, quando dizem: “A montanha inteira chorou”, por causa da repressão aos camponeses; unem a paisagem, a geografia, a montanha, como parte da luta – porque os protege – ao sentimento de dor provocado pela morte dos camponeses.
         As músicas, em conjunto, são de combate, não heroísmo, mas combate. Descrevem as necessidades e a resolução de derrubar a ditadura, que vem de Moncada. Mostram também como foi continuada a tradição de Sandino, que não foi sufocada ou anulada. Sandino tinha grande autoridade na América Latina, tanto quanto Pancho Villa e Emiliano Zapata. Ele tinha imensa tradição porque, sem armas, enfrentava os ianques e ia em frente. Naquela época (tal como Villa e Zapata) organizou as guerrilhas para opor-se essencialmente aos ianques. A guerrilha continuou e elevou seus objetivos políticos e sociais contra os ianques, Somoza e o capitalismo. A relação mundial de forças influi na guerrilha para elevar sua função.
Há destas canções na Venezuela, como as do cantor Ali Primeira, bem como em outros países. Os melhores cantores e músicos cantam canções revolucionárias; não de desespero ou acusação aos ricos e à burguesia, mas de críticas sociais. Ali Primeira canta muito bem e combina o canto de crítica ao sistema capitalista com a declamação, na mesma linha destas canções nicaragüenses. Estas são as canções da América Latina influídas pela relação mundial de forças, e diretamente por Cuba, Angola e Moçambique; mas, sustentadas pela União Soviética e pela relação mundial de forças.
Ao aceitar e ser influenciado pela relação mundial de forças, o povo demonstra uma elevada compreensão da necessidade do triunfo.  Senão, ele não se basearia na relação mundial de forças.  Quando esta tem peso e mostra que o progresso se constrói como na Urss, em Angola, Moçambique e que o capitalismo não tem força para intervir, isto já indica um grau de consciência elevado das massas. Não existe Partido, mas as bases para a sua construção, sim.  Por isto é que estas canções, apesar de, em aspectos, serem muito gerais, já expressam a vontade de querer avançar na construção do Partido. Por isto, quando mencionam Angola, Cuba, Vietnã, estão afirmando os exemplos vivos da construção do Estado operário.
O fato de existir a canção revolucionária é muito significativo. Mostra que há um certo nível de resolução, de relações sociais e alguma cultura. As revoluções na África não têm canções como na América Latina. Na América Latina, tanto antes como durante e depois da revolução, há canções e mais canções. Existe uma base de tradição histórica, que é a luta contra a invasão espanhola, portuguesa e depois inglesa e contra os ianques; mas, foi durante as colonizações espanhola e inglesa que se formaram os grandes movimentos de guerrilha. No começo eram movimentos também da burguesia. A burguesia na América Latina queria desvencilhar-se do reino da Espanha, e depois do reino da Inglaterra. Daí surgiu uma infinidade de canções e também a tradição das canções.

 

A canção acompanha as revoluções 

            Toda a revolução é acompanhada previamente pela canção, é desenvolvida com a canção, e concluída com a canção, e também com o triunfo. Tanto o canto, quanto a música, são expressões de otimismo e de segurança. Quando a revolução é acompanhada e precedida pelo canto, é sinal de que há muita segurança, mesmo que falte compreensão política e meios materiais, armas, a canção demonstra que já existe a segurança no triunfo. Não se trata simplesmente de alegria; o canto reflete otimismo, segurança e forma parte do triunfo da revolução.
É preciso levar em conta o que é a América Latina. A história da América Latina começa com a colonização espanhola, e depois é que se forma a burguesia latino-americana, cuja origem era espanhola. Os próprios espanhóis que foram colonizar, acabaram desenvolvendo interesses locais contra a coroa espanhola. Este foi o primeiro choque. Desenvolvida a América Latina, derrubados os espanhóis, vieram os ingleses; invadiram a América Latina. E depois, vieram os ianques que ocuparam uma quantidade enorme de países, entre eles Porto Rico, Cuba, Panamá, Nicarágua, Honduras, México, sendo que daí eles foram expulsos, mas ficaram com a metade do México; há como 30 milhões de pessoas no sul dos Estados Unidos que falam espanhol e não falam inglês. Todo esse processo criou estas condições para o canto.
Cuba era uma possessão dos espanhóis, e acabou sendo vendida aos ianques, a quem passaram o poder, depois estes ficaram cm Guantânamo. Na história da América Latina, houve muitos assassinos sanguinários. São muito poucos os países que não tiveram uma quantidade enorme de assassinos, e a própria Argentina também, basta ver as barbaridades que cometeu o mais “democrático” representante da burguesia, Hipólito Irigoyen. Este promoveu a matança da “semana de janeiro”, ou a “semana trágica” de 1919; veio daí a divisão no Partido Radical, e uma parte da esquerda passou para o Partido Comunista. Foi daí que surgiu todo um conjunto de intelectuais, dos quais os melhores eram marxistas, comunistas ou socialistas de esquerda.
No Uruguai houve também um movimento de intelectuais muito grande. Na Bolívia também houve um movimento muito profundo, com origem nos meios militares, que enfrentou o imperialismo, pelo petróleo nacional e pelas minas nacionalizadas. Este foi o motivo da guerra do Chaco, entre a Bolívia e o Paraguai; surgiu a partir de um problema fronteiriço, e o imperialismo se meteu para apoiar o Paraguai, contra o nacionalismo boliviano. A burguesia argentina também apoiou o Paraguai, e acabaram tirando uma quantidade grande de terras bolivianas, e lhes impuseram condições miseráveis. Na Bolívia há uma quantidade imensa de minerais, de gás, petróleo, condições para a agricultura, e no entanto, as massas não têm água.
O desenvolvimento da América Latina, se deu com a criação de condições superiores às do feudalismo, o que possibilitou que se formasse uma certa burguesia local, com algum desenvolvimento econômico e cultural. Principalmente na Argentina, de onde surgiu uma quantidade importante de teóricos, dentre eles Echeverria, que foi quem falou do “dogma socialista”, Alberdi e Monteagudo; mas particularmente Echeverria (4). Já se tratava de uma organização do pensamento político, que foi herdado da revolução francesa; mas já com a influência socialista de Echeverria, de um socialismo utópico, mas socialismo. Juan Batista Alberdi também tinha coisas muito progressistas.
Toda a revolução tem cantos e poesias, o que mostra o amadurecimento – que se manifesta através da poesia ou da canção- da elevação cultural. Isto significa que a revolução não luta para resolver o problema da economia, mas o problema da vida da humanidade; é por isto que aparece o canto. O canto na América Latina é feito com este objetivo e com o objetivo imediato de viver, como eles dizem nos cantos. Cantam o heroísmo das mães, das crianças, das mulheres, dos velhos que a reação não conseguiu esmagar; mesmo na maior repressão e adversidade, cantavam, para que os demais continuassem a lutar e triunfassem.
Quando os guerrilheiros do M-19 ocuparam a embaixada na Colômbia, uns repórteres franceses fizeram uma entrevista a uma criança de 12 anos, que era parente de um dos guerrilheiros. Perguntaram se ele não temia ou lamentava pela possibilidade de todos os guerrilheiros serem mortos. Os repórteres diziam: “Os seus familiares vão morrer”; e a criança disse: “Sim, podem morrer, mas nós vamos vencer!” Sua preocupação não era de ver como impedir que fossem mortos, era de que “vamos vencer”. A consciência da humanidade reflete-se na criança, e no adulto, no fato de que o seu objetivo não é a família, o pai, a mãe, ou o poder, mas elevar a vida, eleva-la de todo ponto de vista: cultural e científico para desenvolver o amor humano.
Estas são canções revolucionárias muito superiores, de todo ponto de vista, às canções que surgiram com as revoluções burguesas. Ainda que para e época, eram boas canções, mas como tratava-se da etapa do Ascenso da burguesia, eram todas determinadas pelo sentimento egoísta, de classe; então a liberdade era o poder deles contra o resto. Em troca, vejam o que significa esta criança colombiana, os jornalistas lhe dizem: “Mas vão matar seu pai, ou seu irmão”. Sim, mas vamos vencer!”. Não disse: “Vou ter dinheiro, vou ter uma casa”, mas que vamos eliminar tudo o que impede que todo mundo tenha o que necessita. Este é o objetivo deles.

 

A criança da Nicarágua, defensora da Humanidade 

            Um povo tão pequeno, tão pobre, como o da Nicarágua, encontra formas de criar essas canções; e o objetivo não é pedir mais, ou pedir comida, mas desenvolver a justiça, no grau que ela pode ser desenvolvida atualmente. Quer dizer, eliminar a opressão sobre as pessoas, e que todo mundo tenha condições para viver, comer e estudar. Nas canções eles não falam do estudo, nem da cultura, mas isto está implícito; e falam de algo que nós destacamos sempre que é a função das crianças.
Já na se canta para satisfazer ou agradar ao ouvido. Canta-se como meio de impulsionar a inteligência; esta é a fórmula do canto, e da música também. A força do canto está na vontade das pessoas que é o que prepara as canções, e na vontade da criança de dez anos, “defensora da humanidade”. Daí vem a força da canção! 

(1)   Texto a respeito das canções nicaragüenses do cassete “Homenagem ao General de Homens Livres” (Sandino) do conjunto musical Pancasan e dos cantores Luiz Henrique Mejia e Carlos Mejia Godoy.

 

(2)   José Batlle y Ordoñez: Chefe do Partido Colorado, do Uruguai, foi presidente do país de 1903 a 1907 e de 1911 a 1915 e tomou uma série de medidas progressistas, tais como: nacionalização de algumas riquezas naturais, dos serviços públicos, estabelecimento da jornada de 8 horas, abolição da pena de morte, instituição do divórcio, etc.. Deixou, não obstante, as grandes propriedades e zonas rurais intocadas. 

            Hipólito de Irigoyen – Líder do Partido Radical argentino, ocupou a presidência do país de 1916 a 1922 e de 1928 a 1930. Era apoiado pelas classes médias urbanas do litoral, pelas camadas populares das cidades, por quase toda a classe média das zonas cerealíferas e por uma parte dos pequenos pecuaristas. Não teve programa coerente de governo. Tratou de sanear a administração pública, mas reprimiu violentamente as lutas independentes dos trabalhadores.(3)   Ruben Dario (1869-1916) – Poeta e ensaísta nicaragüense. Participou do movimento modernista que renovou as letras na América e na Espanha. Viveu viajando. Obras: “Epístolas y poemas”, “Abrojos”, “Rimas”, “Azul”, “Prosas Profanas”, “El Canto Errante”, “Los Raros”, entre outras.

 

(4)   Bernardo Monteagudo (1785-1825) – Patriota argentino, dirigente da insurreição de 8 de outubro de 1812. Foi nomeado por San Martin como auditor de guerra do exército nos Andes (1817). Redigiu a ata de independência do Chile em 1818. Posteriormente foi nomeado ministro da Guerra e da Marinha e das Relações Exteriores por San Martin. Esteban Echeverria (1805-1851) – Pensador e poeta argentino. Passou vários anos na Europa (1826-1830), estudando os socialistas utópicos. Foi influenciado pela revolução de 1830, na França. Fundou, em Buenos Aires, a Associação de Maio que assentou as bases doutrinárias e políticas do movimento democrático contra o ditador Rosas. Obras: “Dogma Socialista”, “A Cativa”, “O Matadouro”, entre outras.

                Juan Bautista Alberdi (1810-1884) – Jurisconsulto, sociólogo, economista e diplomata argentino. Militou com Echeverria no movimento pela derrubada da ditadura de Rosas. Redigiu um Projeto de Constituição para a República Argentina, que serviu de base para a atual Carta Magna. Principal obra: “Bases e pontos de partida para a organização política da República Argentina”.

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