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O acordo nuclear com o Brasil e a Turquia e o processo revolucionário no Irã
02 de julho de 2010 Artigos Edições Anteriores Politica
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O presidente Ahmadinejad controla a produção do urânio para fins pacíficos (medicina, saúde e eletricidade) no Irã

Os Presidentes Lula, Ahmadinejad e Erdogan com seus respectivos Ministros das Relações Exteriores

O acordo estabelecido entre estes três países (1) demonstra, em primeiro lugar, o fracasso
da acusação dos Estados Unidos sobre a belicosidade do Irã que, muito pelo contrário,
está aberto a um esquema pacífico de enriquecimento controlado do urânio; em segundo
lugar, de que este acordo é possível no âmbito de países e governos como Brasil e
Turquia identificados na luta pela soberania de seus povos contra os ditames das potências
capitalistas. A paz só é possível fora dos interesses de dominação do império capitalista.

Torna-se evidente quem é o verdadeiro instigador da guerra: os Estados Unidos que insiste,
no apoio da Russia, China, França e Alemanha no Conselho de Segurança da ONU na
condenação ao Irã.

Lula e Erdogan resolveram alinhar-se com Ahmadinejad pondo um freio à prepotência
americana: com que autoridade moral o EUA ousa ameaçar o Irã, sendo aquele o maior
produtor de bombas nucleares, executor do bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki
e detonador de armas radioativas de urânio no Iraque? Porque não há intervenção da AIEA
em Israel que além de não ser signatário do acordo de não proliferação nuclear, é detentor
de mais de 400 bombas atômicas? Porque não se investiga a denuncia de que o Pentágono,
através de Israel, tentou vender cerca de 14 armas atômicas ao governo racista da África
do Sul (Botha) pouco antes da queda do apartheid? Não há como ignorar os fatos. Não há
como submeter-se a mais esta invenção dos EUA sobre a existência de armas nucleares no
Irã, como a que criou sobre as “armas químicas e bacteriológicas” de Sadan Hussein para
justificar o bombardeio contra o Iraque.

Os EUA inventam qualquer pretexto para deter a verdadeira arma do Irã: a
revolução antiimperialista de Ahmadinejad

O objetivo dos EUA no Irã, com a ajuda de Israel é, além da apropriação do petróleo
e das riquezas energético-nucleares, interromper a crescente influencia do processo
revolucionário dirigido por Ahmadinejad em todo o mundo islâmico árabe. O Irã hoje
retoma o nacionalismo de Mossadegh dos anos 50 (contemporâneo de Vargas no Brasil e
Nasser no Egito) continuado pela revolução islâmica de Khomeini na década de 70. No
aniversário da revolução, no ano passado, 50 milhões de um total de 72 milhões se
mobilizaram em todo o país em apoio ao novo governo. Foi uma gigantesca adesão à
ruptura que as medidas de Ahmadinejad significam em relação à política neoliberal e
privatizante do programa liberista do governo anterior de Khatami. As medidas de reforço
da participação do estado em diferentes setores da economia como o elétrico, petroleiro,
aeronaval, abastecimento de água, alimentação, moradia e cultura, o combate ao
contrabando da gasolina ao exterior (Afeganistão, Paquistão e Turquia), à corrupção
alfandegária, e o aumento da participação popular no processo de transformação, são os
fundamentos que avançam em uma revolução de veste islâmica, mas socialmente
anticapitalista e antiimperialista. É uma revolução sui géneris como tem ocorrido na
América Latina. Militares, índios, teólogos, operários sindicalistas se transformam em
dirigentes revolucionários e socialistas. No Irã islâmico, se misturam o poder político e
religioso num século XXI onde a religião em muitos casos deixou de ser o “ópio do povo”
para dar passagem aos “teólogos e islâmicos da libertação”; Cristo e Maomé renascem da
sua luta contra as altas hierarquias político-religiosas e se unem a Marx. Na ausência de
tradição de sindicatos e partidos de massas, as mesquitas se convertem em um centro de
reunião e debate no Irã. As chamadas “preces de 6ª. feira” nas mesquitas transformam-se
em efervescentes células de debate do povo sobre vários temas econômicos, moradia,
trabalho, corrupção, energia nuclear, integração e internacionalismo. Ahmadinejad nomeou
3 ministras mulheres (o que não ocorreu antes); isso representa um enfrentamento contra os
centros da hierarquia eclesiástica. A grande mídia, contando com o equívoco de algumas
tendências de esquerda, faz eco à fracassada “revolução de veludo verde” sustentada pela
burguesia opositora nostálgica do neoliberalismo, cultuando a propriedade privada intocável no período do Xá e de Khatami.

Mas, o fator de maior crise dos EUA e seus aliados é que Ahmadinejad tem sido um articulador da frente antiimperialista no Oriente Médio, e desta com o resto da América Latina, centralmente Venezuela, Brasil e Bolívia, e Equador. O Irã ajuda a Venezuela com construção de casas, fabricação de carros, tratores, bicicletas, remédios; e ambos criaram um mecanismo de cooperação financeira fora do FMI, o Banco Veniran. Sem contar com os acordos com a Rússia na importação de aviões civis Antonov e Tupolev e mísseis, dentro de uma linha de independência dos EUA; e a construção do gasoduto unificando entre vários países, Tagikistão, Azerbaijão e Turkimenistão, do Oriente Médio à Ásia Central e Ásia menor. Ahmadinejad demonstra compreender que o triunfo da revolução iraniana depende da união do mundo árabe e islâmico em base à retomada dos processos nacionalistas em toda a região do Oriente Médio, à integração econômica desses países. Ahmadinejad convocou em 20 de abril a uma Conferência Mundial  em Teerã chamada “Energia nuclear, sim, para todos!, Bombas atômicas, não, para ninguém!” e participaram 102 países, incluindo Iraque; dias depois, se reuniu nos EUA a Conferencia contra a proliferação nuclear, que objetivava condenar o Irã e com somente cerca de 80 países.

 

Da mesma forma que no Irã, setores do aparato islâmico, aliados a forças conservadoras do parlamento, impedem o movimentismo de Ahmadinejad que busca a mobilização revolucionária do povo através do chamado “governo itinerante”, tipo caravanas de Lula. Muitas dessas tendências dentro e fora do parlamento pressionam para o fracasso do acordo do Irã-Brasil-Turquia.

 

Neste mesmo momento, setores da alta hierarquia religiosa islâmica levantam uma polêmica contra a suspensão do uso do véu por parte das mulheres. Ahmadinejad as apóia, defendendo a participação social e revolucionária das mulheres contra a opressão que o véu representa (veja a análise feita por J. Posadas nos primórdios da revolução de Khomeini no texto que publicamos nesta edição). Uma parte importante do  vértice religioso agita agora essa questão, para desestabilizar Ahmadinejad e o setor de Khamenei que chama a atenção às pressões provocatórias – uma espécie de “termidor” da revolução islâmica – que tentam desviar a atenção das questões econômico-político centrais, do quinto Plano Qüinqüenal, da luta contra a corrupção, e impedir que a luta contra o imperialismo aprofundem as transformações sociais anticapitalistas. O aparato conservador, a maioria do parlamento e a sua direção, a Corte Suprema da Constituição, chamada Conselho dos Guardiões da Constituição Islâmica, em nome do aiatolá Ahmad Jannati, sabotam Ahmadinejad, o atacam acusando de eclético, secular e conciliador, faltando pouco para combatê-lo como herege; aparentemente, em nome de Maomé, mas na realidade, sustentando o monopólio do açúcar, do setor importador e contrabandista que lucra com os aparelhos eletrônicos, celulares, o comércio e a propriedade.

 A defesa do acordo Irã-Brasil-Turquia e a soberania dos povos

Neste contexto é muito importante a posição firme de Lula de  repudiar qualquer sanção ao Irã, e a insistência de Ahmadinejad à participação do Brasil e Turquia no próximo Conselho de Segurança da ONU em setembro. Os EUA e a burguesia européia, apoiados no CSO têm o maior interesse em romper os laços econômico-militares do Irã com a Rússia e a China (2). Sancionam ao Irã, contra-restam o acordo do Brasil e Turquia com o Irã, e neutralizam as pressões para investigar os crimes de Israel como os ataques aos palestinos e à Flotilha da Liberdade.

 

De toda forma os Estados Unidos e seus aliados da OTAN e Israel não saíram triunfantes nas últimas negociações no Oriente Médio. A conferencia sobre o TNP chama, pela primeira vez, a um Oriente Médio desnuclearizado, toca no tema do armamento nuclear de Israel e exige que este assine o Tratado de não proliferação nuclear.

 

E Ahmadinejad mantém a posição firme pelo acordo Brasil-Turquia, não servindo às provocações das resoluções do CSO. O problema é justamente que os setores militaristas dos EUA e de Israel não estão dispostos a sofrer mais derrotas diplomáticas, como na negociação do acordo por meio do Brasil e da Turquia. Por isso, 12 navios de guerra dos EUA e 3 submarinos nucleares de Israel atravessaram o Suez, numa clara ameaça ao Irã e à legalidade internacional.

 

O governo Lula teve a audácia de romper a fortaleza da impunidade. Há que apoiá-lo nesta luta. Os que se opõem à paz, como Israel e EUA, querem destruir o acordo Brasil-Irã-Turquia, e denegrir a imagem de Lula nos meios de comunicação a serviço do imperialismo e da guerra,

 

É fundamental que o Brasil dê segurança a Ahmadinejad a manter esse canal de integração e soberania tríplice, não somente para demonstrar a possibilidade de acordos para produção da energia nuclear para fins pacíficos, mas garantir o avanço da revolução iraniana, que tem o mérito de ser peça chave para articular a unificação do Oriente Médio e, deste com o resto do mundo, contra o jugo imperialista.

(2) O recente acordo entre o ministério de petróleo iraniano e o da energia russa, um “plano para 30 anos” de energia para o desenvolvimento tecnológico, energias renováveis e várias realizações do setor, incluindo a venda de gasolina no caso de embargo segue no sentido contrário das intenções imperialistas de isolar e derrubar o governo iraniano.


AS CONTRADIÇÕES DA RÚSSIA



O imperialismo busca também pressionar a Rússia, através da diplomacia russa que vota no Conselho de segurança da Onu contra o Irã e que, ao incluir os mísseis S-300 russos no embargo, recebe a reação de Putin e do ministro do exterior que declaram que eles são defensivos e que o acordo é de 2005 e, portanto devem ser entregues ao Irã. Diplomacia ou não, os russos não aceitarão a agressão militar ao Irã. A ala chamada “conservadora” como a de Putin, na realidade representa indiretamente a crescente reivindicação do retorno ao Estado Operário e está de olho nas manobras do imperialismo, apesar do minueto de Medvedev com Hillary Clinton. Não é casual o envio da nave russa, Pedro o Grande, no Caribe venezuelano, ou a intenção de instalar duas baterias de mísseis S400 na fronteira da Coréia do Norte.  As pressões contra o Irã, se dão no mesmo momento em que bandos armados, manipulados pelo imperialismo, instigam a guerra étnica no Kirguistão golpeando a minoria uzbequistã. O governo da presidente interina Roza Otunbayeva pede a ajuda do exército russo, mas as tendências pró-capitalistas da Rússia se opõem.


Os aparatos contra-revolucionários da Rússia festejariam a queda de Roza Otunbayeva no Kirguistão e de Ahmadinejad no Irã e, provavelmente pouco se interessariam pelo sucesso de Lula e Erdogan. De fato, não é por casualidade que reativam o PKK curdo contra o governo de Erdogan que já tem se aberto aos curdos. É o aviso do imperialismo para que a Turquia se afaste do Brasil e do Irã, e que se mantenha fiel à Otan.


O representante russo no território palestino pertence a essa tendência da burguesia russa que resiste a entregar armas à Síria, ao Irã, à Argélia e aos palestinos; pela mesma razão o Mahmud Abbas, a liderança da burguesia Palestina quer manter o cerco e o fechamento de Gaza. São setores que conciliam com apoio de parte de um aparato da burocracia russa para impedir o avanço da revolução.



Ameaças ao povo e à revolução iraniana



Enquanto estamos finalizando este artigo se publicam as recentes reflexões de Fidel Castro, onde alerta o mundo sobre os perigos de ameaça de guerra contra o Irã por parte do imperialismo: “desde o dia 20 de junho navios militares norte-americanos, incluído o porta-aviões Harry S. Truman, escoltado por um ou mais submarinos nucleares e outros navios de guerra com mísseis e canhões mais potentes do que os velhos couraçados utilizados na última guerra mundial entre 1939 e 1945, navegam rumo as costas iranianas através do canal de Suez. Junto das forças navais ianques avançam navios militares israelitas, com armamento igualmente sofisticado, para inspecionar toda a embarcação que parta para exportar e importar produtos comerciais que o funcionamento da economia iraniana precisa”. Há 12 navios militares dos EUA e Israel que se juntarão aos 3 submarinos nucleares israelenses no Golfo Pérsico.

O imperialismo ainda espera que a contra-revolução interna iraniana intervenha, sem que ele tenha que sujar as mãos. Mas, quando o setor revolucionário de Ahmedinejad puder derrotar a contra-revolução e as chamadas quintas colunas, e fizer com que o Irã esparja a onda revolucionária no mundo islâmico árabe e mais além, crescerá altamente a possibilidade de um ataque. Há setores de guerra do imperialismo que prevêem isso e não estão dispostos a esperar mais. Por isso, preventivamente, há medidas anunciadas pelas altas cúpulas militares dos Guardiões da Revolução Islâmica, como o general Ali Fadavi e o brigadeiro Mehdi Moini, advertindo os EUA de que se inspecionarem os navios iranianos em águas internacionais receberão a devida resposta no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz. Estes setores estão conscientes de que há toda uma estratégia de guerra contra o Irã, e que a iniciativa do Brasil e da Turquia, depois de algumas poucas tentativas de Obama, serve a conter as pressões das tendências na gestão americana que passo a passo conduzem à guerra. A colisão entre o representante dos EUA, MacChristal, na Otan e Obama é significativo de um desconcerto interior que expressa que o imperialismo entra em desacordo sobre como e onde lançar a guerra fatal. Aparentemente é só pela questão da estratégia no Afeganistão, mas o debate interno principal agora é sobre a intervenção contra o Irã que é sem dúvida a energia revolucionária central que põe em riscos o interesse do imperialismo na região: querem fazer do Irã, um novo Afeganistão. Mas não conseguirão, pois o Irã não é o Afeganistão e a frente dos países independentes se amplia, seja através deste acordo Brasil-Irã-Turquia, seja pelos laços mais profundos entre Venezuela-Irã-Síria e os setores mais conscientes da direção cubana, da Rússia e da China.



 O ato criminoso de 15 de julho na mesquita de Zahedan, capital da região Sistan e Beluchistan iranianas, com duas bombas, 30 mortos e 170 feridos, busca criar uma divisão entre os sunitas (que são maioria naquela região fronteiriça com o Pakistão) e os xiitas e o governo revolucionário, que poucas semanas atrás havia enforcado Abdelmalik Riglu, o chefe da quadrilha terrorista atuante há anos naquela zona. Este havia sido preso quando ia para a base militar americana em Manas, no Kirguistão, para encontrar-se com Richard Kolbruk, quando existia ainda o governo pró-americano precedente. Após o atentado na mesquita, houve uma resposta contundente das massas iranianas, com participação de todos os chefes de tribo, sunitas e xiitas, em apoio à República islâmica, a Khamenei e em rechaço aos planos criminosos de devastação imperialista. Tem sido um “bumerangue” contra os autores do crime. (*)

 

Julho de 2010

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