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O chamado de Hugo Chávez pela Quinta Internacional reabre a luta pelo socialismo no século XXI
30 de dezembro de 2012 Artigos Notícias
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“Peço a este I Congresso Extraordinário do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) que inclua em sua agenda de debate a proposta de convocar os partidos políticos e correntes socialistas para criar a Quinta Internacional Socialista como uma nova organização que se adeque ao tempo e aos desafios que vivemos, e se torne um instrumento de unificação e articulação da luta dos povos para salvar este planeta”, destacou o presidente do PSUV, o Comandante Hugo Chávez Frías. “Fico feliz de ver que o Encontro de Partidos de Esquerda tenha aprovado esta decisão especial que não estava na agenda do encontro mas que se incorporou como um acordo com uma importância que se perde no horizonte”.”O presidente Chávez lembrou que a convocatória a esta Quinta Internacional Socialista tem o espírito daquelas que a antecederam, do pensamento de Karl Marx, Friedrich Engels e Lênin, conjugadas com o pensamento de latino-americanos como: Simón Bolívar, dos anti-imperialistas Francisco Morazán e César Augusto Sandino. (ABN – Agencia Bolivariana de Notícias[1])

Passados cerca de 200 anos das lutas primordiais que embasaram as organizações mundiais dos trabalhadores, as Internacionais, a humanidade se aproxima a momentos dramáticos que podem levar ao fim do sistema capitalista mundial – que tentará sobreviver com a guerra nuclear – e ao mesmo tempo, à rebelião das forças produtivas que estão sinalizando que o mundo não pode avançar sem uma organização social de tipo socialista .

Desde os anos das conquistas fundamentais em 1917 (Revolução russa com Lenin), aos reveses sofridos a partir de 1991 (desintegração da URSS), o salto histórico ao socialismo ainda está por acontecer. Chegou a hora? É incerto responder, apesar de significativas e fartas demonstrações de “aptidão ao comunismo” dadas pela abnegada luta dos povos do mundo, porque o enigma, já identificado por Trotsky – “a crise da humanidade é a crise de sua direção”– ainda está por se resolver.

O chamado de Hugo Chávez por uma Quinta Internacional Socialista do século XXI, no Congresso Extraordinário do PSUV, e I Encontro Internacional dos Partidos de Esquerda, em novembro de 2009 em Caracas, representaram um passo fundamental para a consolidação de uma direção revolucionária mundial, sem a qual, a humanidade corre sérios riscos de que a guerra imperialista, apoiada em golpes de estado, se antecipe à chance de progresso e de salto ao socialismo.

A GUERRA

Como analisa J. Posadas ao longo deste livro, a crise sem saída do capitalismo conduz à preparação de uma guerra final contra a humanidade, que será atômica e bacteriológica, como é da natureza do capitalismo, egoísta e desumano. Uma demonstração da malignidade intrínseca do regime capitalista foram as bombas nucleares contra Hiroshima e Nagasaki; sucessivamente, a guerra do Vietnã, do Iraque, a promoção da desintegração da Iugoslávia e tantas outras invasões, golpes de estado e assassinatos. O auto-atentado de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque – com o efeito de um golpe de estado de alcance mundial – foi o ensaio macabro do que os EUA, o Pentágono e a Cia, com respaldo das 300 bombas nucleares de Israel estão preparando contra a humanidade, em nome de uma suposta luta contra o “terrorismo”.

Isto ficou evidente em 2010 com a destruição da Líbia pela OTAN num arco de oito meses e o assassinato de Muhamar Kadafi e a continuidade de um processo de guerra do imperialismo contra as formas de organização da humanidade em busca de uma sociedade superior, tal como havia sido antes o esquartejamento do estado operário iugoslavo. No momento em que se edita este texto, este curso imperialista tem continuidade na agressão à Síria, à Palestina e as permanentes sabotagens e ameaças a revolução iraniana.

O cenário de fundo é a hecatombe econômico-social do capitalismo europeu e norte-americano, que não conduz a outra conclusão que uma guerra mundial contra todos os países revolucionários e governos progressistas está na ordem do dia da agenda imperialista. Como bem alertou Hugo Chávez no seu chamado à Quinta Internacional: “Temos que nos unir, porque o mundo acelera tudo e, se não acelerarmos nossa unidade, o mundo se voltará contra nós”.

FRENTE ANTI-IMPERIALISTA

A dinâmica do processo atual requer instrumentos políticos, marxismo vivo para interpretar a natureza dos movimentos (tais como Ocupa Wall Street, “Indignados” da Europa, fóruns mundiais, rebeliões das massas árabes), formular programa e a tática apropriada para cada situação para constituir uma plataforma comum de luta anti-imperialista. Todos estes processos possuem um ponto em comum no anti-imperialismo e em maior ou menor grau, na tomada de medidas socioeconômicas que conduzem ao fortalecimento do papel do Estado, a cooperação internacional e, na prática, na formulação de um funcionamento alternativo as regras da economia dirigida pelo imperialismo.

Este não é um processo consciente, sob uma direção marxista. Essa deveria ser função das forças revolucionárias, mas também dos governos progressistas e de esquerda, a organização de uma frente única anti-imperialista, para refletir, discutir e dar continuidade ao chamado de Hugo Chávez a uma Quinta Internacional, qualquer que seja o seu nome, “Socialista”, “Comunista”, “do Século XXI”. Este não é um chamado empírico, fora de época, é a busca de uma resposta urgente diante de uma correlação mundial de forças favorável para avançar no rumo do programa socialista. É imprescindível um instrumento unificador mundial para organizar e potencializar as lutas locais anticapitalistas em harmonia com as lutas pelas soberanias nacionais.

Como analisou J. Posadas,

“todo processo nacional, qualquer que seja e que tenha transcendência histórica, tem suas raízes no mundo, não no país. São as relações de forças mundiais que determinam que o processo em um país se apresente com tal magnitude, de tal forma”.

Interessante recordar o que J. Posadas analisa sobre a Terceira Internacional:

“Ao tomar o poder, Lênin construiu a Terceira Internacional como base e ponto de apoio para organizar partidos comunistas em todo o mundo. A Revolução Russa era um ponto de apoio para o avanço das lutas revolucionárias mundiais. Era preciso formar partidos comunistas em todo o mundo com o objetivo e o programa de lutar pelo poder, de se organizar para o poder, de dar segurança, de transmitir a experiência da Revolução Russa no mundo todo”.

Não é casual que a ideia de uma Quinta Internacional surja de um dirigente como Hugo Chávez que dirige um Estado revolucionário, a Venezuela bolivariana, e que constrói um partido revolucionário e de massas (PSUV), organiza o poder popular e comunal, mobiliza os soldados (inspirado no Exército Vermelho de Trotsky, a quem admira conscientemente) e é um centro organizador de forças integradoras e anti-imperialistas na América Latina e no mundo, por meio de todas as instituições unificadoras que propôs e apoiou (Unasul, CELAC, ALBA, Telesul, Petrosul, Conselho de Defesa do Sul, etc..). Chávez sabe que a Venezuela, sozinha, não pode vencer a batalha.

A Venezuela não é a URSS de 1917, pois surge 81 anos depois, como um renascimento e expressão dos processos “desigual e combinado” da história e de “revolução permanente”, como foram caracterizados por Trotsky, quando se referiu à revolução russa despontada inesperadamente num país atrasado, sem proletariado, semifeudal, e que triunfou somente graças a uma direção revolucionária inigualável, dirigida por Lenin e pelo Partido Bolchevique. A revolução bolivariana é hoje um exemplo, tenta suprir a função que cumpriu a URSS durante os primeiros anos de sua revolução, e concentra todas as energias vivas dos países que não abjuraram o socialismo, como Cuba, China e Vietnã, e de países como a Rússia que, apesar da crise dos anos 90, continuam representando, embora limitadamente, a necessidade histórica do socialismo. Hugo Chávez insiste no princípio de que não há possibilidades de “socialismo num só país”, de que há que estender a revolução ao mundo para que um país possa avançar ao socialismo. Por isso compreendeu a necessidade de uma Quinta Internacional.

Hoje, o mundo necessita manter vivas todas estas experiências organizadas por ele (que Chávez viva), mas necessita também que a revolução venezuelana avance, assim como o seu triunfo depende da consolidação do internacionalismo, do avanço da integração latino-americana e também da cooperação internacional anti-imperialista[2].

O IMPRESCINDÍVEL DEBATE TEÓRICO E BALANCE HISTÓRICO DO DESAPARECIMENTO DA URSS

A ideia de uma Quinta Internacional cria a extraordinária oportunidade para discutir e tirar conclusões das experiências da história, a partir do desaparecimento da URSS, para unificar as várias forças e correntes revolucionárias. Dando-se ou não uma Internacional, esta batalha teórica, objetiva de ideias é fundamental. Um verdadeiro balanço sobre as razões da queda da ex-URSS ainda não foi feito pelos teóricos, pelos movimentos sociais, pelos dirigentes políticos.

Sem a dialética, que foi a metodologia de Marx e Engels, é difícil compreender o significado da defesa incondicional da URSS feita por J. Posadas em sua época, e muito menos avaliar o papel da Rússia atual no contexto mundial.

J. Posadas, até os anos 80, previa a possibilidade da regeneração parcial dos Estados operários, devido à correlação de forças resultante do pós-guerra, com o surgimento de 14 Estados operários e uma enorme expansão seja interna da economia soviética, seja da sua área de influência pelas radicais transformações sociais que promovia, e também pelos países que se libertavam do colonialismo e adotavam o modelo ou medidas socialistas, como os países africanos, a China, o Vietnã, o Cambodja. A ruptura do isolamento, finalmente, recolocava em movimento uma alternativa socialista para o mundo.

Mas, ao mesmo tempo jamais deixou de considerar, como Trotsky, que se a revolução russa não se estendesse ao mundo, se não se reconstituísse uma Internacional Comunista agregando os movimentos revolucionários de todo o mundo, com programa e objetivos claros, que estimulasse a reconquista do funcionamento soviético, o poder popular das comunas, do exército revolucionário e das milícias, e dos partidos embasados na teoria e prática do socialismo, combatendo o burocratismo e a prepotência, os riscos de um retrocesso na URSS existiam. A quase profética previsão de Trotsky em seu livro A Revolução Traída, de 1936, com a descrição detalhada dos mecanismos do desmoronamento, comprovou-se tragicamente, e a URSS implodiu.

Nos territórios da ex-URSS houve um retrocesso descomunal com o golpe de 1990, com a desintegração do bloco em nações independentes, as guerras internas, o saqueio das riquezas e sua apropriação privada por parte da oligarquia “comunista” ou diretamente pelos capitais imperialistas e os descendentes dos antigos emigrantes “brancos”, monárquicos, a destruição das conquistas sociais, o ressurgimento da pobreza e da indigência, a corrupção em massa, os nacionalismos e manipulações religiosas, a reabilitação de monarquias e regimes reacionários, e enfim, o terrorismo.

A URSS não era um modelo, mas um programa parcialmente aplicado, distorcido, dirigido por uma casta que não estava à altura do projeto original, mas que se mostrou essencial para tirar milhões de seres humanos do atraso. Foi esta mesma casta, como analisou Trotsky, que antes que dar o poder às massas (o renascimento do poder direto dos sovietes), preferiu entregá-lo ao imperialismo, às máfias, aos clãs dominantes das antigas nacionalidades.

A desintegração da URSS foi produto de uma correlação de forças mundiais, culminadas nos anos 1990, em que a revolução mundial não se estendeu devido, em grande parte, à degeneração teórico-politica e prática dos partidos comunistas (a começar da própria URSS) e muitos movimentos revolucionários, ao seu isolamento, à persistência em buscar vias nacionais ou parlamentares, quando era evidente que o imperialismo atuava unificadamente, pela sua natureza de classe, para cercar e isolar a influência da URSS no mundo. O Chile, Angola, Moçambique, Namíbia, Etiópia, Afeganistão e muitos outros países foram palco deste enfrentamento que J. Posadas denominava “sistema contra sistema”.

A URSS intervia militarmente, em apoio à revolução anticolonial e que propendia para soluções de tipo socialista, mas não tinha um partido revolucionário à altura do que o processo de unificação exigia. Vitórias foram obtidas, como em Angola e na Namíbia contra o regime do apartheid e o imperialismo, com a participação internacionalista e direta de Cuba, enquanto que a atuação direta do imperialismo EUA na “resistência” afegã levou ao retrocesso das conquistas revolucionárias e, pelas contradições internas na própria URSS, à derrota militar naquele país. Na Europa oriental, o Pacto de Varsóvia , que serviu para vencer a guerra contra os nazistas, manteve-se somente como um aparato militar, que não representava a prática de uma integração socialista, muito diferente da que é proposta hoje. As relações de Moscou com a periferia eram muito inferiores à ideia de uma construção socialista. Por isso se desfez como castelo de areia.

A degeneração stalinista e seus resultados trágicos na burocratização interior da URSS e demais estados operário, criaram as condições que permitiram ao imperialismo introduzir ideologias e práticas antissocialistas nestes países. As guerras entre a China e a URSS nos anos 70, a invasão do Vietnã pela China, revelavam o agir de castas completamente alheias ao marxismo e ao internacionalismo. Enquanto a URSS dava apoio aos movimentos revolucionários no mundo, a China passou a apoiar a contrarrevolução armada, sustentando a Unita em Angola e a Renamo em Moçambique, chegando ao absurdo de apoiar Pinochet no Chile! Para a URSS ter podido avançar ao socialismo, a revolução teria que ter se estendido mundialmente. Não houve direção à altura para isso. As facções e fraturas no movimento revolucionário proliferaram. O comunismo europeu naufragou no “eurocomunismo”, no lavar-se as mãos quanto à questão soviética (a teoria do “fim da força propulsiva da Revolução de Outubro”, de Enrico Berlinguer – do ex-Partido Comunista Italiano), em busca da terceira via,  jogou-se nos braços do cretinismo parlamentar, tomando distância da URSS. O heroísmo e o sangue das massas mundiais não foram suficientes para deter o imperialismo. Os países coloniais libertados ficaram isolados, tiveram que renunciar às experiências socialistas, ou inventar vias próprias, como a Líbia, a Etiópia, e muitos países da América Latina. A História mostrou, tragicamente, que não havia e não há qualquer possibilidade da realização de um “socialismo em um só país”.

Além disso, faltou apoio do movimento comunista da época aos movimentos nacionalistas revolucionários sui generis que surgiram na América Latina e na África, como o peronismo, o varguismo e cardenismo. Essa “tradição” muitas vezes levou os comunistas a estarem nas barricadas opostas às da classe operária, como na Argentina: os comunistas diziam que Perón era um fascista em pleno 1973, quando do seu retorno, enquanto uma massa enorme de jovens e trabalhadores gritavam, “Perón, Evita, a pátria socialista”, pelas ruas de Buenos Aires, no momento em que a Argentina, aliás, havia acabado de reatar as relações diplomáticas com Cuba. Para não falar do Brasil, com a tática equivocada do PCB com relação a Vargas. Significou hostilizar ou ignorar toda uma série de movimentos nacionalistas, potenciais aliados da URSS, como o governo de Velasco Alvarado no Peru, de Juan José Torres na Bolívia. Significou também isolar aqueles movimentos, e deixá-los à mercê dos contragolpes do imperialismo que preparou a onda reacionária e a Operação Condor.

Essa incompreensão abriu os flancos do sistema socialista mundial para o ataque imperialista. A degeneração e depois, dissolução (por Stalin) da Terceira Internacional, anteriormente, havia sido a prova cabal de que a URSS se voltava para dentro, e não havia uma tática para minar o capitalismo na sua periferia, conquistando apoio e alianças com as direções emergentes na luta pela independência nacional daqueles países, que Lenin, ao contrário, levava em extrema consideração em sua época. Não houve herdeiro ou dirigente que atualizasse essa sua enorme capacidade tática, salvo J. Posadas em toda a sua obra sobre o tema. Mas hoje, o tema é incontornável.

O RENASCIMENTO DO SOCIALISMO

Entretanto, atualmente, a experiência social e uma parte da estrutura econômica, a forte participação do Estado em setores estratégicos da economia como a energia, a defesa, a indústria pesada, os centros tecnológicos, ainda persistem na Rússia e em alguns ex-países socialistas. A memória histórica do povo soviético, apesar do proliferar de correntes e poderes reacionários naqueles territórios, e de uma gigantesca manipulação midiática para apagá-la, não pode ser cancelada. Os imperialistas chamam a este fenômeno de sobrevivências do “nacionalismo russo”, ou “nostalgia das garantias do socialismo”, mas seu verdadeiro conteúdo é a reminiscência de que estes povos só obtiveram dignidade e progresso no período socialista, apesar de todas as distorções do regime. E que a experiência de capitalismo selvagem a que foram submetidos estes povos, está chegando ao seu limite, passadas as ilusões de que todos seriam beneficiados pela “democracia” ocidental.

Há inúmeros registros de setores que buscam realizar uma severa avaliação da tragédia da desestruturação da antiga URSS e, em parte, isto se reflete nas sucessivas iniciativas de cooperação e reunificação Rússia-China. É sintomático que os russos tenham sinalizado uma maior disposição de enfrentamento bélico contra os EUA e a OTAN, contra a instalação de escudos antimísseis na proximidade de sua fronteira – o Chefe do Estado Maior da Rússia afirmou claramente que haverá uma resposta “heterodoxa” caso estes sejam efetivamente instalados – que também ameaçam a China. É a estrutura latente do Estado operário, que reage a partir do exército (que recentemente reabilitou, sintomaticamente, o hino do Exército Vermelho fundado por Trotsky) e da política exterior anti-imperialista, contra os setores neoliberais e a nova burguesia interna, rechaçando provocações e atentados sob o comando da CIA, as chamadas “revoluções coloridas” como a da Ucrânia, que nada mais são que intervenções externas para impedir que as massas, finalmente, retomem o caminho do socialismo sobre bases infinitamente superiores ao comunismo burocrático.

Só esta análise permite entender a firmeza com que Putin, junto aos dirigentes chineses, enfrenta o imperialismo na questão da Síria e no palco internacional. Trata-se de setores provenientes das castas burocráticas, da chamada “nomenclatura comunista”, que não têm futuro nem como novas burguesias, pois não são donas dos meios de produção, nem como castas nacionais, já que temem sucumbir frente à invasão imperialista direta, como ocorreu na Iugoslávia, no Iraque, na Líbia, e está ocorrendo na Síria, onde, por exemplo,  atuam com sentido geopolítico anti-imperialista, ao contrário do que fizeram na Líbia, quando simplesmente lavaram as mãos. Aqui não se trata de analisar se são dirigentes revolucionários autênticos, o fato é que se propõem a deter as mãos do imperialismo e a retomar algumas das conquistas mais importantes do que foi o Estado operário. A reaproximação com a China, neste sentido, e a cooperação militar, particularmente, possuem um sentido histórico enorme para a proteção da humanidade inteira contra o mundo unipolar imperialista. São esboços de uma Frente Única Anti-imperialista Mundial.

A CRISE DO CAPITALISMO TORNA PREMENTE FORMAR NOVAS DIREÇÕES REVOLUCIONÁRIAS

Desde a queda do “muro de Berlin” e o desmembramento da URSS, os profetas do capitalismo decretaram “o fim da história”, ou seja, para eles, o “fim do comunismo”. O mesmo acreditaram também muitos movimentos de esquerda no mundo, ao ver o desaparecimento da URSS, a dissolução do Pacto de Varsóvia, o refluxo de alguns centros da revolução mundial a formas capitalistas, da Rússia, à China, do Vietnã aos países do Leste Europeu.

Poucos previram que o capitalismo se encontraria, no século XXI, num beco sem saída, com o desemprego em massa, o fim do chamado “estado de bem estar social”, a quebradeira do sistema financeiro, alimentando a perspectiva de novas guerras como única via de saída para a crise, tal como previu Marx. Muitos viam na globalização e na revolução tecnológica o início de uma nova era de prosperidade. Ledo engano.

Os “socialistas” nos governos, em grande parte responsáveis pela aplicação incondicional das receitas neoliberais que levaram ao desastre, assumiram, diretamente, após a queda da URSS, a gestão das políticas imperialistas e neoliberais, apoiando as guerras no Iraque, Afeganistão, Líbia, e a preparação da agressão ao Irã. Os “socialistas” franceses, em plena crise, dão-se ao luxo de fazer uma miniguerra colonial no Mali. Os alemães, sem ruborizar pelo passado nazista, prestam apoio a todos os serviços sujos da OTAN. Até pequenos países à beira do colapso orçamentário e com forte crise de identidade nacional, como a Bélgica, tentam tirar um pedaço do butim de guerra. A Itália, mesmo falida e sem poder dar emprego a seu povo, se dá ao luxo de participar das aventuras militares do imperialismo USA por todo o mundo, como ajudante de ordens. Até onde a subserviência dos herdeiros da socialdemocracia, cúmplices de duas guerras mundiais, poderá impedir a rebelião das massas europeias?

Um deputado belga, Laurent Louis, por exemplo, condenou o apoio da Bélgica à ação intervencionista da França em Mali, sinalizando que uma nova esquerda deve surgir: “Não há nenhuma coerência no fato da França ir ajudar o Mali em nome da luta contra o terrorismo islâmico, quando estamos ao mesmo tempo apoiando na Síria a derrubada de Bashar Al Assad pelos rebeldes islamitas que querem impor a sharia, como ocorreu na Tunísia ou na Líbia. Realmente, é preciso parar de falar mentiras e de achar que as pessoas são idiotas”. Fissuras aparecem na velha socialdemocracia. Significa que o sismo tem raízes profundas.

Apesar das aventuras e provocações atuais, o capitalismo pode não sobreviver a uma nova guerra global e generalizada. Todas as guerras mundiais precedentes conduziram a uma série de movimentos revolucionários. Se os movimentos de greves, protestos e rebeliões na Europa e no mundo ainda não encontram uma via revolucionária, é porque o terremoto soviético soterrou, definitivamente, grande parte das direções tradicionais do movimento operário. Mas novas direções devem surgir, pressionadas pela necessidade de não se retroceder à barbárie.  Os ventos do renascimento latino-americano estão chegando. Veja-se a grande influencia da revolução venezuelana sobre o partido Syriza da Grécia que propõe nacionalização dos bancos, a ruptura com o FMI e o Banco europeu. A única saída para a Europa chama-se socialismo.

Mesmo nos países árabes, onde é evidente a falta de direções revolucionárias, socialistas, de classe, que conduzam as rebeliões contra a opressão nacional e social para soluções anticapitalistas, não há estabilidade alguma, e os movimentos islâmicos não podem oferecer resposta às demandas dos oprimidos, se não tomam medidas de caráter anticapitalista. Por isso a História preme para a formação de novos líderes, movimentos, teoria e prática que respondam a essa necessidade. E a solução não pode ser outra que uma nova Internacional revolucionária com base no marxismo como teoria. Parafraseando Marx: “Os filósofos (hoje os Fóruns Sociais) se dedicaram até hoje a explicar o mundo (hoje a globalização capitalista); agora, do que se trata é de mudá-lo”. Um instrumento para a ação.

A ÚNICA RESPOSTA POSSÍVEL CONTRA A GUERRA IMPERIALISTA É FORMAR UMA NOVA INTERNACIONAL REVOLUCIONÁRIA DE MASSAS

É preciso compreender a natureza híbrida deste processo dinâmico, a necessidade do apoio tático-estratégico a revoluções sui generis, cujas direções podem não se dizer marxistas, nem empunhar a bandeira do socialismo, mas podem construir conselhos de poder popular direto, quaisquer sejam os seus nomes e formas, e formar parte de novos organismos ou blocos internacionais, como a CELAC na América do Sul, a ALBA, outras alianças regionais, ou o Movimento dos Não-alinhados, que na sua 16ª reunião, convocada pelo Irã, reuniu em 2012, 120 países em Teherã para debater a situação mundial e opor-se à pressão imperialista para lançar a guerra.

A própria Revolução Islâmica de 1979, por exemplo, sob a direção religiosa de Khomeini, sacudiu as estruturas retrógradas do Irã, o poder dos magnatas do petróleo, derrubando a ditadura pró-imperialista do Xá Reza Pahlevi, resgatando o nacionalismo de Mossadegh com tremendo apoio popular, constituindo milícias armadas, incorporando mulheres – cujo chador era e é um símbolo de resistência à cultura ocidental imperialista – promovendo um excepcional avanço tecnológico, dando inicio a um período de significativas transformações socioeconômicas e políticas. Hoje o Irã é um exemplo de articulação regional anti-imperialista, defendendo a construção do gasoduto desde o Irã, passando pelo Kazaquistão, até a Índia e o Paquistão; estabelecendo esquemas de cooperação industrial e tecnológica com Venezuela, Equador e Bolivia, ampliando suas relações com Cuba e criando um meio de comunicação soberano como a Hispantv, com o evidente objetivo de fazer a disputa politica internacional.

O imperialismo esperava que todos se submetessem à “nova ordem mundial” da OTAN e do Conselho de Segurança, mas perdeu o controle.

Entretanto, a falta de uma coordenação mundial leva a consequências trágicas, como a agressão à Líbia e o brutal assassinato de Kadafi, a destruição do país e suas conquistas sociais, sem nenhum mandato nem direito internacional.  Paradoxalmente, na Cúpula da América do Sul-África (Venezuela, 2009) Kadafi havia chamado a formar uma “OTAN do Sul” para defender as revoluções da América Latina e da África. O mesmo negociava com Putin a instalação de uma base naval russa na Líbia, buscando proteção contra a nova ocupação colonial, que ocorreu com a cumplicidade e o silêncio de boa parte da “esquerda” mundial. O mesmo ocorre agora quanto à Síria. A novidade é a mudança de posição da China e da Rússia. E o debate sobre a Quinta Internacional, ao qual está dedicado este livro.

J. Posadas, nos anos 80, analisava que o capitalismo mundial não iria permitir a URSS retornar aos sete primeiros anos da revolução russa, nem chegar à regeneração completa; antes disso, iria lançar a guerra total. Hoje, o ressurgir da perspectiva de um socialismo de poder direto das massas, sem castas nem opressão, socialmente justo, como jamais deveria ter deixado de ser, assombra o mundo capitalista.

Daí o pavor e o ódio contra Hugo Chávez, veiculado pelo império midiático mundial, que teve a ousadia de chamar à formação de uma Quinta Internacional, a partir das experiências das Internacionais anteriores. Se se realiza, esta seria fatal para o imperialismo. Antes de partir para operar-se em Cuba, Chávez disse ao povo: “Rodillas al suelo!” (Estejamos alertas!). O imperialismo já tentou assassiná-lo, já tentou o golpe de estado, prepara a guerra e faz provocações, como contra Cuba, contra a Síria, os golpes em Honduras e no Paraguai, atua contra a união dos países latino-americanos, intervêm na África de modo brutal, insiste em preparar a agressão contra o Irã apesar de todas as evidências que a “arma nuclear” daquele país é uma ficção. Jamais foi tão ativa a máquina de guerra do imperialismo, que esquenta os seus motores e multiplica os seus ataques escondidos sob a covarde máscara dos “drones”. Não há que se ter ilusões sobre um mundo pacífico, sem que os trabalhadores de todo o mundo se unam sob a égide de uma nova Internacional.

É preciso organizar a “guerra preventiva” contra estas agressões, seja na cooperação e na integração de blocos de países, no desenvolvimento da independência tecnológica aplicada às indústrias bélicas e às comunicações via satélite, na formação de organismos como o Conselho de Defesa da América do Sul , no desenvolvimento de meios de comunicação transformadores e anti-imperialistas, como a Telesul e a Hispantv.

Mas, sobretudo, é prioritário atender ao chamado feito por Hugo Chávez para a unificação das forças de esquerda , dos países progressistas contra o imperialismo, sendo o seu aspecto mais elevado a formação de uma Quinta Internacional, como instrumento consciente de regaste de toda a experiência histórica revolucionária dos povos e com capacidade de formalizar uma unidade pratica e teórica em defesa do socialismo como única possibilidade para a humanidade hoje enfrentar e superar o charco atômico e a barbárie que o imperialismo prepara . É preciso consciência, teoria, debate e ação para esta nova fase do século XXI.

 

Os Editores

Fevereiro de 2013

 



[1] Veja mais partes do discurso de Hugo Chávez no Anexo II deste livro.

[2] Leia mais sobre a revolução venezuelana: “Quem tem medo de Hugo Chávez?” (autor; FC Leite Filho, Editora Aquariana, 2012)

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