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O papel da TV Pública na crise grega
01 de julho de 2015 Politica
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Por FC Leite Filho


O primeiro ministro Alexis Tsipras não recorreu à TV comercial para anunciar o check-mate que deu à Troika (FMI, Banco Central Europeu e União Europeia). Fez questão de valer-se da ERT , a TV Pública da Grécia, que ele havia reinaugurado havia apenas 17 dias, depois de ter sido, ignominiosamente fechada há dois anos pelo último governo neoliberal imposto ao Parlamento pela mesma Troika.

A reativação da ERT e a recontratação dos seus 2.600 funcionários são muito simbólicas não só para a Grécia, como também para o resto do mundo, hoje quase todo submetido à ditadura mercado-midiática. Esta varre da concorrência qualquer veleidade de instituição pública na área da comunicação para beneficiar verdadeiros mamutes comunicacionais que controlam a informação e entorpece as consciências.

Ao colocá-la fora do ar, a zero hora de de 12 de junho de 2013, o governo pró-Troika de Antónis Samarás, que também congelou e diminuiu salários e aposentadorias de toda a população, achou que tivesse exterminado para sempre uma das experiências mais bem-sucedidas da TV europeia, desde seu surgimento, em 1938.

Vejamos quem era o autor do decreto: Samarás, um político de direita escolhido a dedo como premiê, numa eleição viciada, com muita pressão econômica, em 2012. Ele sucedeu no cargo a Lukas Papadimos, um ex-executivo da Goldman Sachs e do BCE, imposto ao Parlamento grego pela Troika, sem qualquer eleição, nas mesmas bases da indicação de Mário Monti, outro executivo da Goldman, que substituiu, também sem eleição, a Silvio Berlusconi na Itália, no mesmo ano. Papadimos passou mais de um ano no cargo para fazer o trabalho sujo, depois legitimado por Antónis Samarás.
Na verdade, o decreto de fechamento da ERT chocou o mundo pelo rudeza do golpe na comunicação democrática e na cultura grega. Mas houve reação: seus funcionários demitidos se organizaram em cooperativa e a recolocaram no ar, primeiro através da internet, e, em seguida, pelo sistema analógico, ainda que em condições precárias porque quase clandestinas.

A luta desses bravos jornalistas, artistas, músicos e técnicos acabou constituindo a principal bandeira de campanha do premiê Tsipras, que fez questão de cumpri-la numa grande festa no último dia 12 de junho, quando acabava de vir de Bruxelas, onde sofrera novas pressões e ultimatos para impor mais sacrifício a seus compatriotas, ao longo das intermináveis reuniões com os representantes da Troika sobre a dívida grega.

A história do fechamento da ERP é também a história de um estupro cultural, muito ao gosto dos mercados para impingir hábitos e atitudes alienígenas que nada têm a ver com a história ou o sentimento do povo helênico, mas que rendem lucros fabulosos à indústria do entretenimento capitaneada por Hollywood. É que a ERP era também constituída, além de seus quatro canais de TV e quatro de rádio, de uma orquestra sinfônica e um coral (daí o número expressivo do pessoal, que foi muito usado para atribuir um suposto inchaço do órgão estatal).

O compromisso de Tsipras, o governante que ousou enfrentar o poder mundial da economia, concentrado na Troika, ao convocar um referendo para que o povo decidisse se aceita ou não as suas imposições para conceder novo empréstimo ao país, é também de restabelecer os outros órgãos da ERP. O novo líder, que vai completar 41 anos no ida 28 de julho, é presidente do partido de esquerda Synaspismos (SYN), lidera da Coligação da Esquerda (Syrisa), eleita em 25 de janeiro, com cerca de 70% dos votos, com o compromisso de construir um modelo econômico e social menos dependente e mais inclusivo na Grécia.

Ele forma, juntamente com Pablo Iglesias, líder do partido espanhol Podemos, que acaba de obter considerável sucesso nas eleições municipais de maio e se prepara para pleitear o poder nacional no pleito de de dezembro, a nova geração de líderes anti-neoliberais. Eles têm como inspiração os modelos nacionais de desenvolvimento com inclusão de Hugo Chávez, Kirchner, Evo Morales e Lula, na América Latina.

Ao tomar posse como premiê, em 26 de janeiro, Tsipras anunciou que a solução para a crise da dívida externa da Grécia poderia estar numa adaptação da tática adotada pelo ex-presidente da Argentina, Néstor Kirchner, em 2003. Na época, quando a Argentina vivia situação semelhante à da Grécia, com o chamado corralito, Kirchner reuniu os credores, muitos deles da mesma Troika, propondo-lhes a reestruturação da dívida. Alertou, porém, que o país, que dois anos antes havia quebrado e se declarado impossibilitado de cumprir seus compromissos, só podia pagar 25% do que devia. Os credores não tiveram outra alternativa que atender às condições impostas por Kirchner. A partir daí, a Argentina saiu do fundo do poço e iniciou um novo ciclo de desenvolvimento e soberania, que fez baixar o índice de desemprego de 25% para 7%.

Tsipras, porém, encontrou forte resistência dos credores a seu plano. Eles queriam, na realidade, novas medidas para extorquir os já combalidos salários dos gregos, com diminuição das aposentadorias, aumento do imposto de valor agregado de 13% para 23% e um corte monumental nos gastos e investimentos públicos.

Convencidos de que poderiam dobrar o jovem e operoso líder, da mesma forma que tinham feito com o líder do Pasok (social-democracia), George Papamdreu, obrigado a desconvocar um referendo da mesma natureza, em 2009, os credores, ou seja, a Troika, também queriam evitar que uma rebeldia da Grécia pudesse ter um efeito contagioso na Espanha e na Itália, vítimas das mesmas políticas de arrocho e com um índice de desemprego e recessão à beira do intolerável.

Tsipras não se deixou envolver nem pelas ameaças nem pelo cortejo que lhe fizeram nestes meses de negociação e, numa política de fato consumado, convocou de surpresa o referendo para o próximo domingo, cinco de julho. Com isso, afrontou todo tipo de risco que sua decisão poderia implicar: corrida aos bancos, falta de dinheiro e protestos nas ruas, logicamente alimentados por uma direita ainda poderosa e disposta a tudo para reduzir a pó a recém experiência nacionalista do Syriza.

Uma articulada política anti-crise, jamais imaginada por parte de uma liderança quase inexperiente, evitava até o final da redação deste post, qualquer distúrbio capaz de comprometer a paz interna e a lisura do próximo referendo. Medidas inteligentes como o fechamento dos bancos em uma semana, os quais só puderam abrir para pagamento aos aposentados e o limite máximo de 60 euros nos caixa eletrônicos, impediram a quebra do país, muitas vezes insinuadas e até estimuladas pela mídia corporativa, sempre a serviço de seus patrões da Troika.


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