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Operação Navalha e a crise irreversível da representação política atual das elites e das forças conservadora
10 de junho de 2007 Comunicação Edições Anteriores Editorial
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Intervir nas contradições do governo Lula para avançar

na luta antimperialista a nível continental

Presidente Lula no

I Fórum Nacional das TVs Públicas

 

A Polícia Federal não atua por inércia, sem orientação e movida simplesmente por um afã patriótico e ético: há um movimento no governo e na sociedade que pressiona e exige iniciativas e maior controle do Estado sobre a “ditadura dos construtores” e sua simbiose com a velha e corrupta classe política. O governo Lula, apesar de toda a conciliação com as forças tradicionais e dos esforços para cooptar todas as componentes da elite para manter uma governabilidade tranqüila, e de todas as concessões adjacentes, encontra-se na situação de desenvolver o país, de oferecer crescimento e estabilidade e responder ao eleitorado que o elegeu, e aos avanços revolucionários do resto da América Latina. Isso está em contradição com o atual arranjo institucional e o funcionamento carcomido da administração pública e da classe política atual. Nem o PAC nem projeto de desenvolvimento algum podem caminhar quando bilhões e bilhões saem pelo ralo da corrupção graúda e miúda, envolvendo exponentes centrais da administração pública e do legislativo.

Independentemente que as forças políticas possam manipular os resultados e o desenrolar da “Operação Navalha”, ou limitar o seu alcance com habeas-corpus por atacado, fazer uso da mídia ou por espírito de corporação como ocorre no Senado, ou mesmo reagir e cercear o trabalho da Polícia Federal ou da banda não-contaminada do poder judiciário, já o estrago está feito: por isso na percepção popular o Congresso Nacional ocupa o último lugar da escala de credibilidade. A ridícula tentativa do Senado, desmoralizado até a alma pelo escândalo que envolve o seu presidente, de outorgar-se em juiz da democracia na Venezuela, por meio da defesa do canal privado RCTV e seus desmandos, mostra que estes senadores escamoteiam os reais e terríveis problemas do Brasil, inclusive o da existência de uma ditadura midiática da qual, paradoxalmente, eles mesmos podem ser vítimas em qualquer momento.

Isto forma parte das condições subjetivas e objetivas para que os movimentos sociais irrompam à cena, e o Congresso Nacional do MST é uma ótima oportunidade, para apresentar-se ao país com propostas e idéias incisivas que ajudem a reforçar a melhor ala deste governo, que, paradoxalmente, encontra-se em condições mais favoráveis para limitar a pressão das alas mais conservadoras e oportunistas. O governo de Lula apresenta elementos contraditórios sobre os quais é preciso refletir com o critério da objetividade critica, e de uma estratégia e tática que não freiem, mas empurrem as forças progressistas institucionais que querem avançar, junto aos movimentos sociais, para obter avanços na luta pelas transformações sociais.

É inegável que a repressão aos movimentos sociais continua, seja pela ação direta das elites (violência no campo) seja pela atuação dos órgãos de Estado, como a polícia e a justiça contra os pobres das áreas urbanas. Ela não é assumida abertamente pelo governo, mas este é conivente. A grande questão do Brasil é a questão social, e a esta o reformismo dá somente pálidas respostas. O “combate à violência” nos morros do Rio é emblemática, pois transforma em questão militar problemas eminentemente e evidentemente sociais. Os programas de “aceleração” da educação e as iniciativas sociais – ninguém pode refutar este esforço – prometem um futuro melhor mas só dentro de algumas décadas, o que contrasta com a realidade de lutas sociais e rápidas transformações no continente Sul-Americano.

No fundo, o que faz com que os pecados neoliberais do governo sejam perdoados é a aparentemente calmaria na área econômica. É a paz do núcleo do furacão: o mundo está em reboliço, pode desabar, junto com o império do dólar, o papel pintado. O Brasil pode ficar com a brocha na mão, enquanto os especuladores já estarão longe, em outras paragens ou nos abismos do inferno e da guerra. Frente ao primeiro tremor forte da economia mundial, o gradualismo das reformas fiscais, da redução a conta-gotas da taxa de juros, das desonerações setoriais e o jogo tranqüilo do “equilíbrio cambial”, que teoricamente conduziriam o país ao caminho do crescimento, podem dar lugar a uma turbulência e a novas iniciativas truculentas por parte da área econômica para garantir os lucros e privilégios de banqueiros, investidores, especuladores e das oligarquias econômicas, em nome da “estabilidade”.

Não será um jogo fácil, do qual o Brasil poderá se safar com “competitividade”. Principalmente se ficarem livres os mecanismos de nova colonização na área dos biocombustíveis, com a desnacionalização acelerada e evidente do setor. O PAC é um impulso aos investimentos, mas coloca em estridente evidência que, sem o papel preponderante do Estado, o país não poderá se desenvolver.

Paradoxalmente, as elites jamais viveram uma crise de representação política como a atual, e tentam embarcar um por um dos seus representantes no barco do Governo Lula para incliná-lo para o próprio lado. A oposição vacila, se dispersa. Em parte por não ter do que reclamar, já que seus pleitos são atendidos. Em parte, por não ter alternativa alguma a propor, acontentando-se em roubar à esquerda as suas bandeiras históricas, por ela esquecidas num armário. Por isso a oposição se diz mais “ética” e “distributivista” que a própria esquerda.

O que realmente faz com que o barco navegue tão devagar e sem rumo é a falta de coordenação e de vida política dos partidos de esquerda e dos sindicatos que recolham o enorme potencial de inteligência e capacidade de luta dos velhos quadros operários e da juventude deste país. Lula ocupa em certo sentido o vácuo com seus pronunciamentos e o seu instinto político, na ausência de vida política do próprio PT. Os movimentos sociais são os que mais se mobilizam, discutem e combatem, mas ao não encontrarem eco nos partidos (a não ser na igreja de base e nas Pastorais da Terra e em intelectuais e artistas de esquerda), correm o risco de serem induzidos ao isolamento ou à pura e simples crítica ao governo.

É necessário sair da atitude simplista de que “a culpa é do governo, que desarmou os setores combativos”, traindo ou cooptando as suas bases sociais. As bases sociais nunca renunciaram à perspectiva da transformação, mas entendem que ela passa por esta experiência, por este governo real e que diariamente tem que tomar medidas, decisões, aplicar leis, e o têm feito de maneira diversa de todos os governos neoliberais precedentes. Diante das contradições interiores deste governo, é preciso ver que há vários quadros técnicos e políticos que resistem no plano institucional, às concepções mais reacionárias. É crucial aliar-se para estimular a ruptura com as grandes transnacionais.

Claro está que as mobilizações da sociedade organizada formam parte da aliança: a espera tem que ser ativa, combativa, na qual se estimule ou obrigue o governo a tomar determinadas posições mais próximas aos movimentos sociais. Há que se levar em conta que este governo é um duplo refém: das elites, pelos mecanismos econômicos neoliberais herdados das derrotas do movimento operário dos anos 80 e 90; mas também da sua base social e do poderoso processo de transformação social em curso no resto da América Latina que penetra por todos os poros e indica novos caminhos, a quebra dos paradigmas reacionários e neoliberais, abre novas possibilidades de desenvolvimento e mudanças sociais em favor dos mais pobres.

É pouco? Não, neste mundo de polarização e guerra, e no qual já se discute o socialismo do século XXI. O que não se pode é ficar à espreita, ou à espera, de fora, fazendo a crítica “de esquerda”. É preciso arrancar conquistas, retomar as grandes reflexões, propostas estratégicas de desenvolvimento, pelejar no terreno das chamadas “reformas”, abrir brechas por todos os flancos e combater os neoliberais encastelados nas várias instituições, porque as condições são propícias para empreender outro tipo de desenvolvimento energético, ambiental, social e político.

Os movimentos sociais, a lutas do MST exigindo o cumprimento da Reforma Agrária, as greves do funcionalismo, dos professores e metroviários de São Paulo e Brasília, as ocupações de fábricas como as de Itapevi, e as manifestações do Grito da Terra de 23 de maio, no Dia Nacional de Luta Unificada, mostram o potencial dos movimentos sociais para pressionar o governo, sem o que não há conquistas sociais que se sustentem.

O veto presidencial à Emenda 3 e a mobilização dos sindicatos, necessitam de uma mútua interação para assegurar que as leis trabalhistas e a CLT do tempo de Vargas, não retrocedam. Os debates pré-congressuais do PT devem recolher as expectativas dos movimentos sociais e assumir a Campanha pela Empresa Brasileira de Agroenergia, e da democratização dos meios de comunicação, de apoio à fusão das TVs Públicas com as TVs comunitárias. Energia, Comunicação e Reforma Agrária, são centros nevrálgicos para empurrar o governo no rumo das transformações sociais. O que é certo é que ainda há um enorme terreno de combate e de conquistas a serem feitas.

Junho de 2007


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