Home
Videos
Edições impressas
Jornais anteriores
Contato
Sobre nós
Para enfrentar o golpe, luta, resistência, unidade e debate franco à esquerda
11 de setembro de 2016 Editorial
Recomende essa matéria pelo WhatsApp

Foto: Manifestação de 4 de setembro em São Paulo ( Crédito: Mídia Ninja)


Se os golpistas pensam que irão realizar um golpe sem resistência estão enganados. Abre-se uma nova etapa de luta de classes no país com características próprias. E quais são estas características? Em primeiro lugar, durante os anos de governos Lula e Dilma, a classe mais pobre pôde constatar que é possível ter o mínimo de direitos trabalhistas e sociais. A valorização do salário mínimo, o bolsa família, os programas para a agricultura familiar, o programa Luz para Todos, a possibilidade real dos pobres frequentarem universidades com direito a cotas para negros e indígenas, os cursos técnicos, o programa ciência sem fronteiras, o bolsa família com todas as interfaces com programas de inclusão dos filhos nas escolas e na saúde, o programa Mais Médicos, a inclusão das domésticas no direito trabalhista, o programa Minha Casa Minha Vida.

São conquistas que estão na consciência das massas. Este é patrimônio político adquirido durante os governos Lula e Dilma. Porém trata-se de consciência dispersa pois estas conquistas não foram acompanhadas de uma organização política, partidária, social e sindical com a força para se contrapor ao golpe. Principalmente, porque a esquerda não construiu uma mídia de alcance nacional que pudesse fazer o contraponto aos monopólios privados da elite do país. Nunca na história da humanidade, a mídia assumiu um papel tão importante como neste momento. A esquerda acreditou que os meios de comunicação da burguesia seriam complacentes para com o governo, mas estes, na primeira oportunidade, expressaram todo o seu ódio de classe contra o projeto progressista. A mídia hoje tem mais poder que os partidos de direita e também de esquerda. Ela é parte integrante, e fundamental, do golpe.

É preciso esclarecer o conceito de “consciência”. Não se trata apenas na consciência de inclusão social pelo consumo, mas consciência de que é preciso defender um programa de desenvolvimento que tenha como norte a soberania nacional. A esquerda no governo se adaptou a um modelo baseado nas commodities da agricultura e da mineração que agora a deixa de calça curta com a queda nos preços nos minérios e do petróleo. Quando é necessária uma economia que não aceite um baixo nível de investimentos internos, altas taxas de juros, com enormes volumes de sonegação fiscal que debilitam qualquer orçamento público. Como a atual, uma economia que gasta 45% do seu orçamento com o pagamento da dívida pública. Não se teve a capacidade de realizar uma auditoria da dívida pública, aprovada na Constituição de 1988. Não se teve a inteligência de realizar uma verdadeira reforma agrária. Não se teve a audácia de regulamentar a mídia. Mídia que se transformou em um dos principais atores do golpe.   

Precisamos estar atentos pois o governo golpista de Temer irá buscar se consolidar, aplicando um programa seletivo para país. O que significa isto? De imediato, não irá aplicar um programa de retrocessos nos direitos sociais elementares, a exemplo da Argentina de Macri, que ao lançar mão de um programa ultra neoliberal pôs em marcha as massas populares. O governo não vai enfrentar de cara a retirada de algumas conquistas sociais. Tanto é assim que elevou o percentual do reajuste do bolsa família. Manteve parcialmente o programa Minha Casa Minha Vida, embora beneficiando a classe média, mas não pode acabar com o programa em si. Teve que retroceder quanto à medida de acabar com o Ministério da Cultura. Renovou agora os contratos por mais três anos do Programa Mais Médicos – pressão dos prefeitos que se veriam sem médicos num ano eleitoral.


Um programa seletivo por parte do Governo Golpista Temer porque, na realidade, o que interessa é manter o controle do Banco Central e com isto aplicar uma política de transferência brutal de renda para as elites, muito maior que qualquer programa social, através da manutenção das altas taxas de juros, e das manobras internas em torno do câmbio, do dólar, das transações monetárias que fogem a compreensão do senso comum da população. Apoderar-se e transacionar com as nossas reservas de petróleo do pré-sal e enfraquecer a Petrobrás com o programa de privatização da empresa, tudo em nome da busca pela saneamento da empresa. Mesmos argumentos aplicados nas privatizações da época do governo FHC que lesou a nação com a venda da CVRD e tantas outras empresas. Outro ponto que lhes interessa e se torna um crime de lesa-pátria é a PEC 241, do Estado mínimo, que pretende congelar por 20 anos o orçamento, atingindo o saneamento básico, a educação e a saúde. São seus objetivos a mercantilização das terras, águas e minérios estratégicos. Outro objetivo dos golpistas é acabar com a operação lava-jato pois seu objetivo já foi cumprido, ou seja, prender seletiva e injustificadamente, quadros do PT e empresários que estiveram compromissados com um programa de desenvolvimento com conteúdo nacional para o país. E agora, com a possibilidade de bater na porta dos parlamentares do PMDB e provas robustas contra políticos do PSDB, os golpistas buscam parar a operação lava-jato que foi montada para combater o PT e desmontar a indústria nacional estratégica.

Os interesses em torno do governo golpista do Temer, não vão menosprezar acordos, com por exemplo como o assinado agora mesmo com a China. Se há possibilidade de trazer dinheiro para investimento vinculado às obras, irão fazê-lo, pois por trás de cada obra, vai continuar a corrupção, pois esta é inerente ao sistema ao capitalismo. Politicamente, vão buscar desconstruir o Brics, apesar da oportunidade teórica de obterem dinheiro do banco dos Brics, mas pelo compromisso assumido com setores reacionários dos EUA que têm como estratégia para a América Latina, a destruição de qualquer governo democrático e popular que venha a adotar um programa de soberania nacional.

Para a esquerda e todas as forças progressistas do país, cabe a árdua tarefa - árdua pois se dará em piores condições-, de recomeçar a luta contra os retrocessos que virão do ponto de vista da soberania nacional, das conquistas trabalhistas e sociais, da entrega do patrimônio do país à grupos que financiaram os golpistas, das grandes finanças, e da destruição da imagem do PT pela mídia. Desfeita a coalizão que sustentou até então os governos Lula e Dilma, não resta outra alternativa - e a mais justa e correta – de consolidar a aliança com as massas, com os mais pobres, com os excluídos, com todos os setores que têm um certo nível de consciência das conquistas alcançadas durante o período do governo popular e democrático. Iniciativas como da Presidenta Dilma que na sua volta para Porto Alegre, pode reeditar a Caravana da Cidadania, percorrendo várias cidades, defendendo seus programas sociais, pontos simbólicos de luta da história brasileira, e o chamado de Lula em torno da unidade popular. E do PT, em torno do chamamento pelas Diretas Já para eleição de um novo mandato para Presidência da República.

Como disse o companheiro Lula nos 30 anos do PT, em Belo Horizonte, o partido se burocratizou, se encastelou nos gabinetes e se afastou das organizações sociais. O PT virou um partido de deputados, minimizando a importância do papel dos militantes e do funcionamento dos núcleos. O PT-POBS, partido operário baseado nos sindicatos se distanciou desta sua característica que lhe dava uma essência classista. Muitas das lideranças sindicais ou foram absorvidas pela máquina do executivo ou se viram numa situação confortável de relação com o governo, pois estavam no governo, sem a necessidade de mobilizar as categorias para pressionar pelos seus direitos. Quando é que haverá novamente o livre acesso ao gabinete dos ministros? Somente com a reconquista de um Governo Popular.

Abre-se uma nova fase da luta de classes no país. Esgotou-se o período de coalizão que durou até agora. O mundo está muito mais polarizado que em anos anteriores. Como disse o Papa Francisco, estamos vivendo uma terceira guerra mundial, com pequenas guerras espalhadas pelo mundo afora. Papa Francisco condenou o golpe no país. Os interesses econômicos e políticos estão muito mais globalizados. A mentira da existência de armas de destruição em massa no Iraque e na sequência a destruição daquele país pelos EUA e os países da OTAN mostra até que ponto estão dispostos a se utilizarem das armas e dos golpes parlamentares para alcançarem seus objetivos de dominarem o mundo. A destruição das torres gêmeas nos EUA por eles mesmos, mostra o que são capazes para alcançar seus objetivos: os golpes parlamentares em Honduras e no Paraguai; a guerra na Ucrânia, e na sequência, o bloqueio econômico imposto à Rússia. As chamadas revoluções coloridas no Oriente Médio, com explícito caráter contrarrevolucionário.

Mas mesmo nesta ofensiva do imperialismo, há possibilidades de resistir e reagir: acabam de tentar golpear o governo da Bolívia, com o sequestro e assassinato do vice-ministro da mineração, enviado para negociar com as cooperativas mineiras. Evo Morales não se submeteu aos golpistas e reestatizou as minas, tirando o domínio das minas das cooperativas dos mineiros golpistas. Edorgan na Turquia resistiu às manobras golpistas, chamando o povo para as ruas em defesa do seu governo. Governo este que até então tinha fortes vínculos com a OTAN, bases militares no território turco, e que surpreendentemente, neste momento, se aproxima da Rússia, do Irã e até mesmo da Síria. A Venezuela resiste até agora porque conta com as massas nas ruas e com forte organização popular.

Diante da conjuntura internacional, faltou ao PT a capacidade de prever que a direita, as forças reacionárias, a Casa Grande, os poderes mundiais imperiais não iriam assistir sentados à consolidação de um governo popular e democrático. Governo que vinha consolidando conquistas sociais, a construção de infraestrutura, a recuperação da indústria naval, a construção de hidrelétricas de porte de Belo Monte e Jirau, a transposição do Rio São Francisco, a construção e colocação em funcionamento da refinaria de petróleo Abreu e Lima, uma reserva de 370 bilhões de dólares. Condições que possibilitariam sair da crise que foi sabiamente retardada pelo governo Lula mas que viria inexoravelmente. A mídia, novamente, foi implacável e contribuiu para aumentar exponencialmente a crise que se abateu sob a economia nacional. Fustigou, criticou, mentiu, demonizou, fez terrorismo, desacreditou o governo Dilma. Consolidado o golpe, a mídia golpista ameniza a crise, publicita o otimismo na retomada do crescimento. Puro golpismo parlamentar e midiático. Este golpe está desmoralizado no mundo todo, inclusive, com repudio por parte do Papa Francisco que cancelou sua visita ao Brasil em 2017.

Cabe organizar a resistência, conforme o chamado de Lula pela “Unidade Popular”, em torno de um programa de transformações sociais. 100 mil pessoas acabam de ir às ruas em São Paulo com a palavra de ordem: Fora Temer! E o golpismo midiático da Globo. E as manifestações não param nas principais cidades do país. A direita realizou um golpe, mas vai ter enormes dificuldades para governar, principalmente se a esquerda se reorganizar, centralizar, unir e combater, tirando conclusões da derrota e levantando a cabeça. Para isso é preciso voltar às bases, à fábricas, aos movimentos, às organizações populares, abandonando definitivamente a submissão aos ciclos eleitorais, embora participando das eleições.
Entre outras, o papel da mídia é fundamental, jornais populares diários, rede de rádios e tvs comunitárias, apoiados pelas administrações, instituições progressistas e cooperativas de esquerda. É importante refoçar que  as entidades sindicais, estudantis, camponesas e os movimentos populares discutam amplamente através dos seus veículos de comunicação, a situação conjuntural do país e do mundo, junto a saídas programáticas específicas e unificando métodos de luta rumo a uma greve geral para enfrentar o desmonte do Estado e das leis trabalhistas. Informar e formar a consciência, que consolidem urgentemente uma organização política que responda à enorme vontade popular dispersa nas manifestações de rua. Na surpreendente manifestação do dia 4 de setembro em São Paulo, evidenciou-se uma nova participação juvenil e social, provenientes das redes sociais e blogs, mas sem organismos políticos de referência. Nesse sentido, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo sem Medo podem cumprir um papel necessário para a centralização e organização dessas forças.

 

Comitê Editorial

5 de setembro de 2016


{Acessos: 424}
Recomende essa matéria pelo WhatsApp


Faça seu Comentário



Comentários
Nenhum comentário para esse conteúdo.
EDITORIAL:

Liberdade imediata de Lula para retomar a soberania e o desenvolvimento do país
Diante deste cenário desolador não há outra saída possível e necessária senão a imediata libertação de Lula e eleições diretas. Neste sentido vale reforçar a importância da unidade das esquerdas em torno da candidatura Lula e de um projeto de desenvolvimento nacional.
Receba nossa newsletter

Videos recentes
Suplementos Especiais
Links Recomendados
Matérias recentes
Noticias recentes
Batalhas de Ideias
Comunicação
Ganma Hispan TV Press TV Russia Today TeleSUR
Palavras-chave
J. Posadas - Obras publicadas
Leituras sugeridas
A FUNÇÃO HISTÓRICA DAS INTERNACIONAIS Del Nacionalismo Revolucionario al Socialismo Iran - El proceso permanente de la revolucion Iran - El proceso permanente de la revolucion La musica, El Canto, La Lucha Por el Socialismo
Desenvolvido por Mosaic Web
Recomendar essa matéria: