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Por uma Confederação Socialista dos Países da América Latina
20 de julho de 2002 Edições Anteriores Notícias
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Extrato do texto de J. POSADAS de 17 de julho de 1977,
“O processo desigual e combinado na América Latina e o programa das transformações sociais”

            Após quase 29 anos desta preciosa elaboração de J. Posadas, a recolocamos entre os principais documentos de análises e de debates dos leitores e lutadores brasileiros.  Não obstante faça referência a fatos já passados, a América Latina tem demonstrado que nem mesmo Simon Bolívar é ultrapassado. A revolução os recoloca na ordem do dia. Convidamos os leitores a recolher estes elementos históricos, à luz do método marxista desenvolvido pelo autor, para estabelecer o nexo entre o passado e o avanço extraordinário das lutas revolucionárias atuais na América Latina.

            Este texto dá elementos para compreender de onde vem essa força imbatível dos indígenas do Equador, camponeses e mineiros da Bolívia e Peru, que hoje dão vida a esse combativo movimento anti-Alca, a um Evo Morales que nacionaliza o gás e enaltece a função das mulheres camponesas no governo revolucionário, à resistência na Colômbia; a intelectuais e militares revolucionários como Hugo Chávez na Venezuela, e Ollanta Humala no Peru; a governos como Kirchner na Argentina que decide re-estatizar a empresa Águas e Saneamentos Argentinos; às vitórias eleitorais como a de Violeta Menjívar da Frente-Farabundo Marti na prefeitura de San Salvador, de Michelle Bachelet no Chile, de Renet Preval no Haiti. Esse é o momento oportuno para rever a história dos movimentos, das lutas na América Latina, e impulsionar todas as inicitiavas de governos e movimentos sociais na defesa da soberania nacional e das transformações socialistas. Iniciativas de coordenação dos países como o Mercosul, devem ser viabilizadas com uma saída programática e revolucionária fora da simples intenção de mercado das burguesias latino-americanas. A análise contida neste texto sobre o então proposto Pacto Andino, cai como luva no debate que se faz hoje sobre o Mercosul.

            O programa de transformação social proposto neste texto, é vigente mesmo considerando todas as especificidades dos países e dos governos populares emergentes. São inúmeras as propostas que tem surgido de união e coordenação destas forças contra o imperialismo norte-americano na América Latina: a Alba; a Petrosul; o gasoduto proposto por Hugo Chávez que se estende da Venezuela ao Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia; o Banco do Sul; a Universidade do Sul; a Telesul que é uma realidade já em marcha ameaçada por Bush; são todos nós fundamentais desta grande teia revolucionária que requer uma Confederação Socialista dos Países da América Latina. Cuba e Venezuela são a sua força motora. Cuba, como já mencionado em outros artigos é o núcleo deste grande vulcão, com o seu exemplo como estrutura econômica e social revolucionária que liberou há décadas o povo cubano do analfabetismo e da miséria. Hoje, ela é capaz de irradiar o seu exemplo e contribuir com projetos sanitários, formação de médicos brasileiros, “missões milagres” no campo oftalmológico, projetos de alfabetização em 35 dias no Piauí. Fidel acaba de assinar con Chávez o Compromisso Sandino para devolver a vista a 6 milhões de latino-americanos em 10 anos.  E a Venezuela, como analisamos no outro artigo, segue o seu exemplo, liberando-se completamente do analfabetismo em 4 anos, estendendo inexoravelmente a revolução a outros países e concluindo: “não há possibilidade de socialismo num só país”, reiterou Hugo Chávez o que já foi dito por Trotsky.

  

 

            A Planificação da transformação industrial das matérias primas
e o problema agrário


O Pacto Andino demonstra que nenhum país pode caminhar com suas próprias forças, nem tem força para competir com o capitalismo mundial. Não pode desenvolver  indústrias, absorver as matérias primas que produz, encontrar um mercado que lhe pague a matéria prima, sempre a um preço médio ou elevado, para desenvolver a economia, em base a relações de mercado capitalista.

            Do ponto de vista da produtividade, o capitalismo nos países centrais avança 100 vezes mais rápido que toda a produção agrícola da América Latina. A população agrícola dos Estados Unidos decresceu 3,5% e a produção agrícola aumentou 15%. Na América Latina, ambas estão paralisadas.

            Do ponto de vista da tecnologia, há um retrocesso relativo na produção agrícola porque não há mercado. Então, é necessário discutir programaticamente, e os estudantes devem intervir no desenvolvimento da economia latino-americana. O direitos democráticos  devem servir para a discussão e a planificação de cada país, expropriando os recursos naturais e colocando-os a serviço do desenvolvimento dos países. Elaborar em cada um deles – Venezuela, Colômbia e também Equador – um plano de produção agrícola, de transformação das matérias primas agrícolas. Não depender da renda da banana, do café, ou do petróleo, mas promover transformações locais. A melhor maneira para aumentar o nível de vida de consumo, de desenvolvimento social e científico, é elevar o modo de vida da população. O resto é circunstancial. E se não utilizam a matéria prima, ficam dependendo da exportação. É necessário fazer um plano de produção interna, transformação das matérias primas agrícolas, minerais para o consumo nacional. Estabelecer planos, acordos com os outros países, com o Pacto Andino, com base a uma planificação para produzir a baixo custo. Desta forma, abastecer e desenvolver a economia de transformações das matérias primas agrícolas e o intercâmbio com os demais países da América Latina ou com os Estados operários. Tomar as iniciativas que respondem à necessidade de cada país.

            No programa para resolver o problema agrário, é fundamental incluir a mecanização do campo. As formas coletivas ou cooperativas socialistas de produção por si só não representam um grande progresso na produção. A produção dos EUA tem um custo que é 10% do da América Latina. Lá se produz numa hora o que no Peru se leva 3 dias. Eles têm terras melhores, mas sobretudo meios mecânicos, e uma organização mecanizada que vai desde a eletricidade até a água encanada. E a quantidade e a qualidade dos tratores e implementos que têm, lhes permitem uma organização planificada do trabalho e um rendimento muito grandes.

            No Peru, como na Venezuela não há esses recursos; é preciso promover a mecanização. A burguesia dirá que não há meios mecânicos, seu custo é muito alto, que é preciso importá-los. Essa não é a solução. Importar implica num alto custo, mais do que produzi-los, porque no pagamento saem divisas que são necessárias para outras coisas. É possível produzir para o consumo nacional, de forma coletiva, transitoriamente, enquanto se vai elevando a fabricação dos implementos agrícolas mecanizados, ou fazendo intercâmbio com a União Soviética ou com Cuba.

            Na Venezuela não há produção agrícola, não há nem tomates; tem que importar de Marrocos, da Argélia ou de outros países da América Latina, quando possuem savanas que poderiam alimentar toda a população. Nesse caso, é preciso fazer um plano de produção agrícola e de transformações das matérias primas. Desenvolver uma indústria que sirva de base para tal, ou fazer intercâmbio com os Estados operários, enquanto se desenvolvem a indústria e a produção mecanizada no campo.

            Isso vale para a Bolívia também. O atraso da Bolívia vai durar enquanto não se mecanize o campo. A divisão e a coletivização da terra não conseguem ter todo efeito porque geram um custo de produção muito elevado. Principalmente nas zonas onde o rendimento por hectare é ínfimo. Nos EUA calcula-se o rendimento de 4 toneladas de trigo por hectare, enquanto na Bolívia ou no Peru é de 700 ou 300 Kgs. E é lógico que seja assim, porque suas terras são ruins, mal adubadas ou cultivadas a mão. O problema não é apenas que a terra rende pouco; isso é relativo. A questão é que o plantio e a colheita são lentos. O rendimento por dias ou horas é um décimo do que se alcança nos países industrializados. Isso é produto do trabalho manual e da falta de mecanização.

            Na Colômbia ocorre o mesmo. Sem reduzir por enquanto a produção do café, é preciso desenvolver a produção agrícola para o abastecimento da população, o que representa uma enorme economia de divisas. Isso deve ser combinado com o desenvolvimento das indústrias de transformação. Os produtos agrícolas e minerais devem ser explorados para a indústria de transformação. Não se trata de reduzir de imediato a produção do café porque é a base da economia. É preciso ir diversificando a produção, desenvolvendo, ir eliminando a dependência ao café. Deve-se unir um plano de água encanada, eletricidade, saneamento, hospitais ao plano de indústrias de transformação e de produção agrícola e pecuária. O país tem condições, são os poucos indivíduos entre liberais e conservadores que tem governado juntos na Colômbia que são incapazes. Ambos, liberais e conservadores, estão unidos pela estrutura do café.

            No Equador, é preciso priorizar a produção agrícola barata para a população. A burguesia alega que não há meios mecânicos, que o custo de produção é alto. Segundo a acumulação capitalista, o custo de produção é alto, porque seu objetivo é o lucro. De acordo com o consumo e as necessidades da população, o custo não é alto. Esse é o custo necessário, porque todo o lucro do capitalista é revertido em benefício do consumo da população; e satisfaz à necessidade de dar segurança social, e desenvolver a produção. Então, é preciso propor um plano de Reforma e de produção agrária, e de industrialização das matérias primas agrícolas.

            O Equador depende da produção da banana e um pouco do petróleo. Por quê? É a classe dirigente que o faz depender da banana. Desta forma, mesmo quando se transformar num Estado operário, terá que continuar com essa dependência, porque essa é a herança do regime capitalista. Porém, já se pode ir introduzindo e desenvolvendo outro tipo de produção, tanto agrícola como industrial, visando o consumo da população e promovendo a mecanização, por exemplo, para a construção de estradas; se não se faz com maquinário adequado, torna-se caríssima. Somente alimentar os que trabalham, encarece muito. Ao passo que, hoje, com quatro guindastes se faz o trabalho de mil operários. Por isso a construção de estradas no Equador é muito onerosa, porque são necessárias máquinas, guindastes, que o capitalismo foi incapaz de produzir. Ao passo que planificando e discutindo, eleva-se a compreensão da população. É preciso elevar o nível da população e a assistência sanitária, porque o Equador é o país mais atrasado da América Latina. Segundo a ONU, o Equador é um dos países que têm menos médicos e camas hospitalares. A população deve ver que este programa de transformações é necessário e conveniente para o desenvolvimento do nível da vida e de saúde, e que é possível concretizá-lo, acentuando a necessidade da mecanização. A burguesia não vai fazer isso. Ela utiliza todo o petróleo para a acumulação do capital, para investir na banana de melhor qualidade para poder competir no mercado mundial. Então, a burguesia consome as melhores bananas, com o mesmo preço de custo, enquanto que o Equador não avança.

            Diante disso, é preciso propor um plano de diversificação da produção e chamar a que os Estados operários apoiem. E, sobretudo, junto com isso, construir a FEDERAÇÃO SOCIALISTA DO PACÍFICO, que não se pode realizar se não for à força.

            O capitalismo não tem interesse na mecanização do campo; tem os capitais, mas não tem interesse. No Equador, todo o dinheiro que vem do petróleo pode ser dedicado a mecanizar a produção agrária e a produção na cidade. No lugar da acumulação privada do capitalista, que é muito lenta e beneficia a poucos, que o Estado se encarregue planifique em benefício de toda a população.

 

            Programar a produção  agropecuária na Bolívia

 

            Países muito atrasados, como a Bolívia, que depende da produção de estanho, de minerais e do petróleo, têm uma enorme riqueza em Beni e em Pando. O gado é muito bom nessa zona, seja no Alto Beni, em Cochabamba, em Santa Cruz, nas yongas que são todas zonas agrícolas riquíssimas. Mas são exploradas miseravelmente, porque a direção do país dependia das minas e não tinha interesse nisso. Além da incapacidade e desinteresse da exploração capitalista, que limita a possiblldade, a capacidade e a inclinação dos governos burgueses, há o descaso da classe dirigente, que só permite o desenvolvimento em função do lucro, ou no máximo fazendo algumas concessões sociais para impedir que a população se levante, para que não haja protestos, para que a pequena burguesia não se queixe.

            É preciso intervir sobre estes problemas junto aos estudantes, universitários, o movimento operário e camponês. O pequeno e médio produtor estão organizados pelo interesse da competição econômica. Entretanto, os operários braçais, a imensa maioria dos pequenos arrendatários, que são os pobres, quase proletários, são pequenos arrendatários que aspiram ser proprietários, não estão organizados.

            Há uma base muito grande em toda a América Latina, Colômbia, Equador, Venezuela, Peru, Bolívia para concretizar um programa de desenvolvimento da produção agrária, na qual os sindicatos exerçam a função de dirigentes e planificadores.

            A Bolívia, não tem porque depender da importação de leite, trigo, farinha. Exporta carne em detrimento do consumo. A população poderia comer carne e tomar leite todos os dias.

            É preciso discutir,também, a planificação do cultivo e a industrialização da matéria prima, um programa de produção agrária e agropecuária. Não um plano esperando um êxito imediato, mas uma programação que questione ao mesmo tempo o regime da propriedade agrária. A grandes produções que existem na Bolívia de propriedade do Estado, por exemplo, devem produzir planificadamente, fazendo uma cooperativa socialista dos camponeses, como passo intermediário para um progresso posterior. Tal como propusemos para o Peru no primeiro plano agrário que fizemos em 1969 e que ainda é válido.

            Para movimentar e atrair o camponês a desenvolver a economia, se requer um plano de produção para que o camponês veja o êxito, as consequências favoráveis de tal produção, unidas a seu próprio desenvolvimento pessoal. E não se pode esquecer de elevar a cultura de todos os camponeses, operários, mineiros; sobretudo – embora não unicamente – a cultura política. Isto vai desenvolver nos camponeses e nos mineiros a compreensão sobre os problemas de como é que se desenvolve a economia. Ao invés dos livros para crianças que os iugoslavos e os soviéticos editam, editar outro tipo de livros; eles mostram nos livros os filhos dos burocratas, os ambientes da aristocracia operária, o que nos Estados operários corresponde à aristocracia operária. O que é preciso mostrar é como os filhos dos camponeses, que antes não sabiam nem ler nem escrever, agora, aos 6 anos, lêem e escrevem muito bem.

            É preciso planificar de acordo com as necessidades de cada país, mesmo considerando as dificuldades que existem, por exemplo, na Colômbia, devidas aos grandes cafezais. A Colômbia pode produzir toda a agricultura que necessita para viver e pode transformá-la. Depende do regime e da orientação social. Os estudantes devem lutar por isso. Todas as greves e mobilizações que os estudantes fazem até agora são utilizadas essencialmente pelos Partidos; muito pouco para interesse próprio. Os estudantes devem vincular a finalidade do estudo ao objetivo de servir à população, dar idéias, intervir cientificamente ajudando a economia, a produção na planificação e a programação da produção agrícola cooperativa do tipo socialista, que significa que uma quantidade determinada de produtores se põem de acordo e organizam a tarefa em comum, compram as coisas em comum e distribuem em comum o que produzem; mesmo sendo de forma proporcional ou escalonada de acordo com os investimentos, ter como objetivo a extensão a maiores ramos da produção. Sem dúvida isto vai enriquecer uma quantidade de pequenos proprietários agrícolas e cooperativistas, porém vai elevar e abastecer a população. Vai mostrar que a forma concentrada de produção é superior à forma privada e que nesses países não há outro caminho  a não ser dessa maneira: com a socialização ou coletivização, embora não existam ainda as condições, não tanto pela falta de mecanização necessária, mas pela falta de vida política para tal objetivo, que em pouco tempo pode-se conseguir.

            Uma demonstração muito grande da vontade de progresso dos camponeses da Bolívia é que aumenta seu interesse pela lingua espanhola. Não é verdade que eles abandonam a língua espanhola. Em lugares onde antes não entrava absolutamente a língua espanhola, agora falam e entendem perfeitamente. Quando cheguem a sentir que sua vinculação com o progresso os leva até a língua, aprenderão em uma semana. Isso vale para todos os camponeses da Bolívia.

            As línguas têm importância na contribuição ao desenvolvimento científico das relações humanas e ao progresso social. Do contrário, ficam como lembrança, como recordação de testemunho de como as relações humanas se desenvolveram. Em compensação, permanecem as línguas que são o vínculo entre o progresso da ciência, a técnica e as relações humanas. Quando os indígenas, ou os camponeses, se agarram a língua antiga é porque não confiam na sociedade que os dirige. Se há um governo, um movimento ou uma direção que lhes dê confiança no progresso, aprendem logo a língua que corresponde a esse progresso. Então a língua é resultado do progresso e não o progresso resultado da língua. Não é o quechua e o aymará que vão à URSS e sim a URSS que vai ao aymará e ao quechua. Os soviéticos fazem programas da rádio dirigidos à América Latina em aymará, quechua, asteca, que são muito lindos. Fazem também alguns em guarani. Por exemplo, no México existem línguas que são faladas em pouquíssimas regiões e os soviéticos fazem programas nestas línguas, mesmo sendo línguas já ancestrais.

 

            O fracasso das formas intermediárias de propriedade no Peru

 

            O “pool” da banana, do petróleo, do café, do açúcar deve ser mantido controlado pelo Estado com uma Frente Única com as burguesias produtoras ante os mercados compradores. É preciso ao mesmo tempo desenvolver a indústria de transformação das matérias primas no país, para não depender apenas do mercado da exportação. Combinando com a Federação do Equador, Peru, Bolívia, Chile, como parte de uma CONFEDERAÇÃO SOCIALISTA LATINO-AMERICANA.

            É preciso ir desenvolvendo a economia dos países, planificando sem depender da prepotência do mercado capitalista mundial; e, por sua vez, aprofundar as relações com os Estados operários, seja como mercado vendedor ou comprador, seja importando tecnologia. Isso deve vir acompanhado por um desenvolvimento cultural dos sindicatos, dos partidos,das massas camponesas; discutindo, por exemplo, a experiência do Peru onde as formas de propriedade que ensaiaram na época de Velasco Alvarado se mostraram incapazes para desenvolver a economia; seja a “comunidade industrial”, seja a “propriedade social”, inclusive as formas de propriedade agrária. A experiência do Peru é válida para mostrar que essa não é a forma. A economia não se desenvolveu porque lhe atribuiram formas que eram um retrocesso na capacidade de elevar a tecnificação da produção, onde queriam combinar a propriedade privada com a propriedade estatizada, ou a propriedade dos sindicatos, que continua sendo propriedade privada. O que se constata é a propriedade privada – qualquer que seja sua forma (industrial, parcial, geral, individual) – que leva ao estancamento da produção.É preciso antepor a ela a forma de funcionamento coletivo, de propriedade coletiva. E mesmo esta, para progredir, tem que planificar a sua produção sob controle operário; de maneira que o custo, a qualidade, o tempo de produção, o salário, sejam controlados pelo movimento operário. Se o controle é feito pelo gerente, pelo patrão, pelo encarregado, ou pelo diretor, estes defendem o interesse da propriedade privada, então fazem, tudo aquilo que favorece a propriedade privada: ocultam, mentem, negam, planificam mal. Portanto, deve ser dirigida pelo movimento operário, mesmo que a produção não signifique necessariamente um aumento dos salários dos operários, mas para o conjunto da população, produzindo com custos menores e com qualidade superior; que na composição dos produtos não entrem compostos químicos que substituam as matérias primas naturais, vegetais, por matérias primas elaboradas quimicamente.

            O outro aspecto é a produção agrícola. Por exem pio, o café. Fazer um “pool” do café; “pool” da banana; vender aos Estados Operários e também aos países da América Latina. Não é verdade que estes países tenham um superconsumo de açúcar; no Brasil e no México é possível, mas em todo o resto da América Latina consome-se pouco açúcar. Além disso, para desenvolver a economia, não é necessário depender do café e da cana de açúcar. Para os capitais que investem sim, mas para o progresso da economia nem o café, nem o açúcar são indispensáveis.

 

            Estatizar sim, mas sob controle operário


É fundamental propor em todos os países da América Latina a estatização sob controle operário. E reiterar que ela deve estar sob controle operário. É a forma de tornar a estatização objetiva e não para acumular benefícios para uma ou outra camada da população. Ao mesmo tempo demonstrar que o fracasso das falsas experiências da estatização não significam que a estatização em si seja incorreta, ou que seja uma outra forma de capitalismo, mas sim, falta de controle.     

            Nos países capitalistas, as estatizações parciais devem se acompanhadas pelo controle operário, para impedir que elas sirvam à acumulação por parte de novas camadas que substituam o capitalismo, que produzam em benefício do sistema capitalista. Os Partidos Comunistas, como o italiano, diziam que a experiência da estatização é nefasta, porque se trata de uma experiência que é burguesa. Isso porque quem a controla não é o proletariado, mas a burguesia, que utiliza as empresas estatizadas para si própria, para obter produtos a baixo preço, para desenvolver os ramos da produção que lhe convêm e não para benefício e desenvolvimento da população, que é como deve ser a estatização. Assim é que deve ser a estatização do café, da banana e de outros produtos.

            É fundamental incorporar estas conclusões a todo programa, para que não caia no vazio. As experiências das estatizações na América Latina são importantes. Por exemplo, na Argentina, as estatizações de Perón, mesmo tendo sido a alto preço, porque indenizou muito bem aos proprietários, serviram para um desenvolvimento econômico do país considerável. Mesmo concedendo subvenções estatais enormes como as que foram concedidas à fábrica de automóveis Kaiser, onde o governo pagou ferro velho como fábrica nova, a estatização permitiu um desenvolvimento enorme da economia. E nos Estados operários ocorreu o mesmo.

            Estatização não significa simplesmente estatizar e entregar a empresa a uma administração independente que funcione de acordo com o capitalismo. Desta forma não há lucros e sim prejuízos, porque se produz a baixo custo para o capitalismo. Não a baixo custo porque o custo seja baixo, mas porque se vende a baixo custo para o capitalismo. É necessário discutir estes problemas para a estatização do café, do petróleo, do ferro, da banana, dos grandes monopólios

 

            O programa para desenvolver a economia e a função política dos sindicatos

 

            O problema na América Latina é: como desenvolver a economia. Que programa propomos, analisamos para orientar o desenvolvimento da economia latino-americana de acordo com as possibilidades e necessidades objetivas dos povos? Como desenvolver a economia para que os povos possam comer?

            Então, é necessário intervir na discussão não reclamando que a população não tem nada, mas representando e falando em nome do país, demonstrando como a economia deve se desenvolver. Se é em nome do país, quem dirige o país? O programa determina quem dirige, e o programa é este que propomos. Ele deve ser fundamentado nas experiências que já existem sobre a planificação. Isso deve ser acompanhado com exemplos mais vivos e mais precisos de intervenção sindical, estudantil, ajudando a formulação de programas em momentos transitórios. Não basta denunciar que a população não tem trabalho, não tem comida, mas sim propor algo que ultrapasse o interesse estrito dos operários e da população pobre. O programa é feito em função do progresso do país, que inclui toda a população. O capitalismo é incapaz de fazê-lo.

            Neste contexto, o capitalismo busca a unificação financeira, acordos alianças programáticas, alfandegárias, como o Pacto Andino, que, por sua vez, mostra-se incapaz de desenvolver a economia, devido à estrutura do mercado mundial capitalista, financeiro, investidor, comprador, com capacidade de transportar as maquinárias para competir. Para fazer isso, è preciso ser um grande capitalista e não existe este grande capitalista na América Latina.

            É preciso dirigir-se aos países da América Latina com essas resoluções, mostrando que a reação já tem essa conclusão. Também dirigir-se à Igreja, aos católicos de esquerda, que são muitos. Além disso, preocupar-se muito com a função dos sindicatos. Caso contrário, fica-se numa repetição de normas que não surtem efeitos. É preciso aprofundar a discussão sobre a função dos sindicatos. Isto não é novidade, há muitos anos que propomos isto. Na Europa também. Não apenas defendemos a função política dos sindicatos, como também o Estado revolucionário para a Europa, que corresponde a uma etapa já madura para suprimir o capitalismo, porém não existe direção madura que corresponda a tal nível da crise do capitalismo.

            Este é um processo muito mais amplo e que vai dirigido a criar camadas da burguesia interessadas no desenvolvimento das liberdades democráticas. Nós não nos detemos aí. Fazemos uma aliança por liberdades democráticas, mas temos um programa de progresso econômico que só pode ser aplicado com o exercício da democracia soviética.

            É preciso discutir e fazer pesar as experiências que estão se dando na América Latina. Os sindicatos estão jogando uma função de defensores do salário e nada mais. No México, acaba de se dar um movimento muito grande de 70 mil trabalhadores que faziam reivindicações sindicais, por direitos democráticos e por sindicato único dos trabalhadores da Universidade. O governo cedeu contra o reitor. É necessário utilizar as bases que o México dá, transmitindo as experiências para a América Latina. E discutir a função política dos sindicatos, que não muda, nem altera e nem substitui a função política dos Partidos, ao contrário, tende a impulsioná-los. Assim como todo bom Partido tem muito de Sindicato, todo bom Sindicato tem muito de Partido, porque a delimitação de suas funções tende a não existir. Com a crise do sistema capitalista e o desenvolvimento da revolução permanente, se conclui a cada minuto que as reivindicações não podem ser meramente econômicas. Estes são os problemas essenciais que há que discutir.

 

            Os problemas táticos da revolução latino-americana

 

            Tem-se que considerar que é fundamental desenvolver, aprender o método de dirigir-se aos demais movimentos operários, estudantis, sindicais, políticos. A pequeno-burguesia é a que tem maior iniciativa na América Latina. Os Partidos Comunistas têm muito pouca iniciativa. Em quase todos os países a iniciativa é da pequena burguesia. E mesmo os Partidos Comunistas que têm algum valor ou importância estão sujeitos à influência da pequena burguesia; veja-se em parte, o exemplo do Chile agora. Indica que é necessário estimular e mover-se para ganhar quadros da pequena burguesia que são atraídos pelo programa de progresso econômico-social.

            Para alcançarmos o objetivo de desenvolver as lutas pelas transformações sociais, temos que fazer o que a burguesia deveria ter feito na sua época, desenvolvendo a economia, as relações sociais e a democracia. E que não se pode fazer isso da forma “peronista” ou de forma “chilenista”. E mesmo que apareçam tendências que queiram repetir as experiências do Chile, já existe uma discussão no movimento comunista. Isso se expressa em parte, na reunião dos Partidos Comunistas feita em Cuba há um ano, onde tiram boas conclusões sobre o Chile, tomando integralmente nosso programa, nossas análises. O que quer dizer que há uma revisão nos Partidos Comunistas ou uma discussão interna na qual nós devemos intervir e formar parte desse programa de ascenso da revolução permanente na América Latina.

            Há que intervir nessas duas tarefas. Uma é a tarefa do programa geral da revolução permanente para a América Latina, e outra é a intervenção na crise interna dos Partidos Comunistas e Socialistas.

            Não se trata da luta pela classe operária da Colômbia, da Venezuela, ou do Chile, e do progresso destes países que requer essa política. A burguesia deveria ter sido encarregada de desenvolver a economia por sua função na História e foi incapaz. Então há que fazê-lo em nome da necessidade econômica, social e política do país. Não em nome ou para a classe operária, mas justamente em nome do que a burguesia deixou de fazer. São medidas que não correspondem ao proletariado como classe, mas à burguesia como classe e que esta não concretizou.

            É necessário compreender o processo e saber ser flexíveis, ficar firme, recuar um passo atrás para poder saltar mais adiante. Uma direção que não age assim não é capaz de compreender e modular-se de acordo com as condições e com o processo objetivo para atingí-lo.

            Um fato claro e notório, por exemplo, são os 500 intelectuais na Venezuela (2). Eram 500 e agora são 2.000; o que mostra que não eram 500 que resolveram de uma hora para outra aparecer, mas sim que eram uma expressão de um processo infinitamente mais profundo, como analisamos.

            Quando se reúnem 500 intelectuais num país em que há prosperidade – os quais beneficiam-se desta prosperidade através das concessões que a burguesia lhes faz para mantê-los quietos – é porque a influência do processo da revolução socialista no mundo é muito grande. Então, a questão é ver como intervir e como aprender a intervir. O processo é muito profundo. O quê leva 500 intelectuais a se reunirem e a se levantarem? Quando os Partidos os mantém quietos, calmos, com dinheiro, com postos, com perspectivas, e mesmo assim eles sentem-se impulsionados a intervir, é porque há influências muito grandes de idéias centrais sobre eles. Idéias centrais de progresso social anti-capitalista. Se não conseguem aplica-las é porque não há direção adequada para isso, mas querem fazê-lo. Não serão todos os 500 que alcançarão, mas mesmo que seja apenas uma terça parte, é uma mostra suficientemente elevada e uma situação muito propícia.

 

(1) Experiências aplicadas na época do governo nacionalista de

Velasco Alvarado

(2) Movimento de intelectuais de esquerda que propõem uma

Frente Eleitoral

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