Por Giulianno Furtado, estudante de Ciências Econômicas e Henrique Vince, estudante de Psicologia, militantes da Revolução Socialista.
*Créditos: Rogério Pinheiro/RPC
Dois jovens foram executados pelo Batalhão de Choque em fevereiro. Casos de violência e assassinatos pela polícia vêm se tornando rotina e intensificados com investimento do governo do estado.
No dia 15 de fevereiro de 2025, em Londrina, a Polícia Militar do Paraná mostrou mais um episódio da covardia e truculência da mão armada do estado burguês. Kelvin dos Santos, 16 anos, estudante do Ensino Médio, e Wender da Costa, 20 anos, trabalharam durante o dia em um lava-rápido, como de costume. Ambos moravam na favela da Bratac, e durante a noite, participaram do aniversário da prima de Kelvin, na mesma região.
Após o aniversário, os dois amigos emprestaram o carro de um conhecido para ir a uma distribuidora de bebidas e, no caminho de volta, foram abordados pela Choque - uma unidade especial da Polícia Militar de diversos estados do Brasil.
Kelvin havia recém conseguido seu emprego no lava-rápido, junto de Wender, que também se dividia para trabalhar em sua própria barbearia, inaugurada há apenas duas semanas. “Ele estava feliz com o primeiro emprego e nunca usou drogas”, disse Sirlene, mãe de Kelvin.
Na noite da abordagem, Kelvin foi executado a tiros no rosto. Wender foi alvejado com mais de dez tiros no peito.
Dois jovens amigos que tiveram suas trajetórias interrompidas covardemente pela polícia. Mais um retrato do ódio contra a população marginalizada e empobrecida, movido pelas forças de segurança e parte da política de extermínio do governo Ratinho Jr.
“Tanto tiro que eles levaram, tanto, tanto, que a gente não conseguia nem entrar no IML pra ver" - Vanessa, mãe de Wender.[1]
A versão dada pela PM apresenta inúmeras contradições. De acordo com o boletim divulgado, alega-se que durante o patrulhamento foi avistado um veículo com as mesmas características de um envolvido em furtos. Porém, não existe sequer registro de boletim de ocorrência para um com características parecidas.
Em entrevista à RPC, afiliada da rede Globo no estado, o capitão da PM Emerson Castro afirma que o carro em que estavam Kelvin e Wender bateu contra outro veículo ao tentarem fugir da abordagem. Mas essa versão foi desmentida em reportagem investigativa da RicTV, sendo descoberto que não houve acidente ou danos no outro carro informado pela polícia.
Quando operações e abordagens são realizadas na Gleba Palhano (bairro localizado na zona Sul de Londrina, considerado uma das regiões mais valorizadas da cidade), a polícia não age com a mesma violência e barbaridade. Quando aí, escoltam com segurança, não invadem as casas e não assassinam.
É inegavelmente comum que em episódios de execução pela polícia, as cenas dos crimes sejam adulteradas ou forjadas. Um caso emblemático ocorreu no ano passado, em Palmas-TO, onde policiais da ROCAM (outro grupo de elite da PM), planejaram e assassinaram Jaimeson Alves da Rocha, modificando o cenário após a execução.
Outros inúmeros casos ocorrem todos os anos, como uma herança maldita de uma ditadura militar cujas responsabilizações cíveis e criminais nunca foram levadas a cabo. A polícia abaixa sua cabeça para quem tem dinheiro e poder, enquanto na Bratac e outras favelas, o dedo já vai direto no gatilho, com o alvo estabelecido. A bala é sempre cravada nos que têm mais melanina na pele e saldo menor na conta bancária. É importante destacar que não há qualquer base científica ou teórica válida que associe cor da pele a comportamento violento ou periculosidade, ou seja, a justificativa para este fato é: preconceito e racismo.
A Favela da Bratac se revolta, e a resposta da PM novamente foi violência.
Dois dias após a execução, as famílias, moradores da Bratac e movimentos sociais se juntaram em uma manifestação que repercutiu em todo Brasil. A indignação da população tomou as ruas da cidade. Dezenas de vias foram trancadas por horas com barricadas, pneus e diversos outros meios de protesto para que o estado e a opinião pública enxergue as famílias invisibilizadas, que lutam contra a narrativa criada pela polícia e a grande mídia burguesa, que constantemente tratam Wender e Kelvin como criminosos.
A comoção e o ódio foi tanto que diversos ônibus da cidade foram incendiados, levando a TGCL (administradora do transporte coletivo) a paralisar seus serviços durante um dia. A coleta de lixo também foi suspensa por algumas horas.
Antes mesmo dessa mobilização, a polícia invadiu a casa das famílias e moradores de maneira covarde, em busca de pneus e barricadas, assim tentando barrar a movimentação legítima do povo que busca justiça. Atos também ocorreram em outras regiões da cidade, até mesmo na região metropolitana de Cambé. Durante o protesto, os moradores indignados usaram rojões e fogos de artifício para demonstrar sua revolta, e diversas palavras de ordem foram puxadas.
Justiça!
Não foi confronto, foi execução!
Se a justiça não chegar! Londrina vai parar!
Chega de matança! Não matem nossas crianças!
A Polícia Militar mobilizou uma enorme e desproporcional quantidade de agentes para reprimir moradores e apoiadores. O óbvio aconteceu: moradores levando tiros de bala de borracha, bombas de efeito moral, spray de pimenta e outras táticas vergonhosas utilizadas pela PM e Rotam. Uma mulher grávida sofreu agressões da polícia e foi presa. Repórteres dos grandes meios de comunicação burgueses (Folha, Massa, Globo e etc) ficaram ao lado dos policiais e não tiveram coragem de entrevistar ou se juntar aos moradores.
As famílias e moradores vêm constantemente sofrendo perseguições da polícia, com diversas rondas sendo realizadas próximas de suas casas e abordagens sem fundamento. Na noite de terça-feira (19/03), um mês após a execução, moradores que se reuniam no entorno do bairro foram agredidos pela PM. De acordo com o relato, crianças também sofreram agressões e tapas no rosto. Vanessa (mãe de Wender), Wesley (irmão de Wender) e Thaís (moradora da Bratac) foram presos por questionar a agressão dos agentes de segurança. A comunidade uniu-se e arrecadou R$2.000 para liberar as três pessoas.
O “cenário de guerra” em Londrina começou há décadas.
O prefeito de Londrina, Thiago Amaral (PSD), co-partidário do governador e bolsonarista de carteirinha, publicou um vídeo patético em suas redes sociais um dia após as manifestações, em que diz que não quer que a cidade se torne “um cenário de guerra”, obviamente criando uma narrativa de estado de emergência e criminalizando a população indignada. Em vez de fortalecer e garantir as investigações, saiu em defesa da PM, o que aumentou drasticamente a repressão policial, inclusive com a solicitação do envio de helicóptero e reforços da capital, Curitiba.
O que o chaveirinho do agro não sabe ou finge não saber, é que a população de Londrina vive há décadas a violência policial e extermínio do povo empobrecido.[2]
Na madrugada de 31 de janeiro de 2016, a PM instaurou toque de recolher na cidade para confronto com facções, colocando toda a população em risco. Neste dia, 17 pessoas foram mortas e mais de 15 ficaram feridas. Muitas dessas pessoas eram inocentes e não estavam cientes do toque de recolher, outras simplesmente não tiveram direito a um julgamento digno e foram sumariamente executadas.
Thiago vem aumentando a repressão por parte das forças de segurança desde que assumiu a gestão da cidade. A operação “Choque de Ordem” foi implementada logo nos primeiros dias do mandato, onde a Guarda Municipal e a PM tocam um processo de higienização para abordagem e prisão de moradores de rua, sem unidade com a Assistência Social ou serviços de saúde, com diversas infrações aos direitos humanos. O prefeito foi encurralado pelo Ministério Público e precisou dar esclarecimentos, porém até hoje não houveram avanços, visto que a política de extermínio e privatista do governo do estado segue operando como bem entende e os ratos, seguem impunes.
Violência e letalidade policial é projeto político de Ratinho Jr. e da extrema-direita.
O caso Wender e Kelvin se soma aos vários que seguem ocorrendo no desgoverno Ratinho Jr., que de 2019 a 2024 - 6 anos desde que assumiu o governo - as forças de segurança do Paraná já mataram mais de 2,4 mil pessoas, além da quantidade crescente de homicídio praticados pela polícia ano a ano, com destaque para 2022, ano recorde, onde 488 pessoas foram assassinadas pela polícia.
No período é notável o ascenso que a violência policial tem tomado e como o governo estadual se prepara para intensificar a repressão. O ano de 2025 começou com um processo licitatório, estimado em R$ 5,5 milhões, para adquirir 93 novos cães a fim de reforçar o policiamento ostensivo e o combate às drogas, além da aquisição de um Veículo Lançador de Água (VLA) para atender a demanda do Batalhão de Polícia de Choque, que pode custar até R$ 4,3 milhões. Compra essa justificada no edital da licitação “pelo aumento significativo das manifestações populares desde 2013 e como grupos radicais têm destruído símbolos capitalistas em suas mobilizações”.
Esse cenário reflete-se também no contexto de diversos outros estados. Nos últimos anos alguns locais registraram aumentos alarmantes de letalidade e violência policial, como são os casos do Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Distrito Federal, que registraram em 2023, respectivamente, aumentos de 160%, 80% e 70%.
Apesar de Bolsonaro ter sido derrotado nas urnas, nacionalmente a extrema direita tem avançado em muitos âmbitos, consolidando figuras como o próprio Ratinho Jr. (PR), Cláudio Castro (RJ) e Tarcísio de Freitas (SP), que abertamente deram carta branca para que policiais agissem com violência e letalidade.
Este último em especial tem gerado marcos negativos quando o assunto é segurança pública, como foi visto no último ano nos casos de repercussão nacional, como foi o caso de Marcelo Amaral, jovem arremessado de ponte por um policial, ou na notória Operação Verão, desencadeada para combater a criminalidade durante o período de alta temporada na Baixada Santista, marcada por um número elevado de mortes em confrontos com a polícia. Todas essas ações fizeram que o governo de Tarcisio registrasse um aumento de 98% nas mortes por PM’s nos dois primeiros anos de seu mandato e ganhasse repercussão internacional, como foi visto no jornal britânico The Sun ao chamar a PM-SP como a mais perigosa do mundo.
A desmilitarização das polícias é uma demanda urgente!
Visto os últimos casos de execução e violência policial em todo o Brasil, uma das necessidades mais urgentes é dar um fim no modelo de polícia militarizada.
A polícia militar ainda tem vícios e práticas de origens colonizadoras, herdadas dos períodos tenebrosos da ditadura. Todos os governos são responsáveis, principalmente o governo federal, Lula - Alckmin, que mantém intacto o aparato repressivo do estado e dessa forma, se coloca contra a necessária desmilitarização das polícias.
Execução, tortura e repressão são apenas algumas das táticas covardes que fazem parte da formação da PM, onde muitas dessas foram trazidas pelo exército norte-americano a fim de intensificar a perseguição aos movimentos sociais e povos marginalizados durante a ditadura empresarial-militar. Porém, não podemos nos enganar, essa brutalidade não se restringe somente a esse período da história brasileira, isso ainda se mantém nas raízes da nossa polícia, que diariamente cospe na cara dos oprimidos.
As forças de segurança são o braço armado do Estado burguês na forma em que opera, se mantendo sob a exploração da classe trabalhadora, e a saída para estrangular essa política de ódio deve ser por uma via revolucionária e socialista, com a emancipação dos povos marginalizados, o sufocamento da cultura militar imperialista e a criação de uma polícia comunitária e eleita pelos trabalhadores, que realmente atenda suas necessidades e esteja sujeita às suas decisões e interesses.
A Revolução Socialista se coloca como uma alternativa de organização da classe trabalhadora, para que essas demandas sejam atendidas e possamos seguir em rumo a uma sociedade sem violência contra os povos oprimidos, seja em Londrina, em todo o Paraná, no Brasil ou no mundo.
Entre em contato e se junte à nossa luta!
Ótima análise e muito completa! Esse caso precisa continuar sendo acompanhado e cobrado